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Artur Lescher inaugura exposição neste sábado

Obras miram o piso, ao contrário da cúpula renascentista

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2013 | 22h23

Houve uma época em que o escultor paulista Artur Lescher, de 51 anos, buscou o céu, como na 19.ª Bienal de São Paulo (1987), em que encerrou aeronaves semelhantes ao zepelim no interior do pavilhão projetado por Niemeyer, no Ibirapuera. Hoje, com os pés na terra, suas peças revelam uma vocação menos ascensional. A bem da verdade, elas miram mesmo o chão, ao contrário das cúpulas renascentistas que cobrem a “casa de Deus” (o duomo). São, na definição do artista, “peças sinalizadoras que apontam para o piso, o concreto, em oposição à cúpula”. Pode até parecer ‘boutade’, uma vez que Lescher foi apontado, no passado, como um herdeiro do concretismo, mas é justamente a sensação que passam as estruturas pontiagudas pendentes do teto da galeria Nara Roesler, onde o artista inaugura neste sábado (10) sua exposição Pensamento Pantográfico.

A mostra reúne dez obras inéditas, algumas desenhadas especialmente para o espaço da galeria, como uma insólita peça com círculos concêntricos incrustada numa das paredes que, manipulada pelo espectador, surge do outro lado da coluna com a mesma forma e tamanho. Por sua capacidade de extensão e contração, garantidas por juntas e dobradiças, outros objetos acabaram dando nome à mostra, aludindo à capacidade de articulação do paralelogramo – apesar de nem todas conservarem relação formal com o polígono, associado imediatamente às portas de lojas e elevadores antigos.

Dito assim, pode parecer que Lescher tenha feito uma exposição como tributo a Arquimedes ou Euclides, mas ela tem muito mais a ver com a liberdade de oscilação do pêndulo de Foucault – uma obsessão na obra desse artista que, colocando-se no lugar de um alienígena sentado nas estrelas, queria ver o pêndulo oscilar sobre um mesmo plano na Terra. Como os de Lescher não são perfeitos, esses pêndulos acabam escolhendo o plano mais favorável. Um deles, chamado Ou Ou (2013), feito de latão, tem uma sequência progressiva de esferas de diferentes tamanhos que sugere uma retomada estrutural da “coluna infinita” de Brancusi, assim nomeada pelo aspecto serialista que conduz o olho a reproduzir suas peças infinitamente.

De Brancusi, porém, ele só herdou a alegoria. Se o romeno homenageava com sua coluna os heróis da 1ª. Guerra, a de Lescher não tem esse caráter monumental. Sua escultura Ou Ou cede à gravidade como um pêndulo sujeito à rotação da Terra, no sentido mais existencialista possível. É uma peça pós-concreta que interage com o espaço. Este, aliás, é o foco da obra de Lescher , marcada pelo diálogo permanente com a arquitetura. “Não que eu despreze ou esteja fora da tradição histórica, pois Brancusi e Noguchi são dois nomes referenciais para mim”, observa o artista, alinhado aos concretistas pela crítica Aracy Amaral por privilegiar o suporte industrializado. De fato, na mostra, os trabalhos são feitos de materiais como aço, latão ou madeira. A contrapartida é o basalto, rocha eruptiva usada em duas peças que dá a elas aspecto de um lago ancestral – metáfora incorporada sem problema pelo artista.

O aspecto serialista dessa obra foi ressaltado por Aracy Amaral num livro dedicado ao escultor e publicado em 2002 pela Cosac Naify. Nele, a crítica começa por analisar um trabalho marcante na carreira de Lescher, a Casa-Ideograma (1991), blindada em sua forma minimalista, que reproduz uma casa arquetípica, dessas desenhadas por crianças, desenvolvida posteriormente em vários materiais (madeira, aço inox, alumínio) e fechada em si mesma.

Artista que começou sua carreira nos anos 1980, época dominada por uma onda neoexpressionista em todo o mundo, Lescher rejeitou desde o início o voluntarismo da transvanguarda italiana e dos “novos selvagens” alemães, sentido-se mais atraído pelos minimalistas. Nunca é demais lembrar que foi um arquiteto, Mies van der Rohe, que cunhou a máxima do movimento minimalista, “less is more” (menos é mais), seguida como um mandamento nas peças despojadas da exposição de Lescher – uma sugerindo um dardo liliputiano fincado na parede lateral da galeria (quase um quarto da peça dentro dela ) e outra forjando uma agulha gulliveriana, de 5 metros de altura, que pende do teto e chega a poucos centímetros do chão.

Mas, ao contrário de Van der Rohe, a simplicidade formal de Lescher não persegue a funcionalidade. Há uma certa ironia dadaísta que o faz reverente à arquitetura, mas inclinado a subverter o rigor matemático. Ele bem que tentou convencer o engenheiro a inclinar um pouco mais o poste com 10 metros de altura e outros quatro mais para sustentar uma lança, instalada bem na porta da galeria, mas o máximo concedido foi um ângulo de 7 graus de inclinação. Não deve cair, mas provoca uma sensação de desequilíbrio, em tudo antagônica ao rigor das formas das peças em exposição.

“As obras pantográficas são desdobramentos das peças de madeira articuláveis exibidas em mostras anteriores, como Metamétricos”, explica Lescher. Expostas pela primeira vez em 2008, os “metamétricos”, feitos de madeira e latão, são, na definição do artista, a “rota de fuga da arquitetura” – a arquitetura “inútil, paradoxal, contraditória” de Lescher. No Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), esses metamétricos tinham uma conversa particular com a revisão arquitetônica que Lina Bo Bardi fez da marquise de Niemeyer no Ibirapuera. Em Pensamento Pantográfico, ele força um diálogo com a arquitetura da galeria, recorrendo a estruturas de madeira (com metal acoplado) que fazem lembrar aquelas trenas antigas, ampliadas numa proporção agigantada, típica das esculturas do pop sueco Claes Oldenburg.

A exemplo de Oldenburg, ele revela seu lado iconoclasta ao defender a intervenção na natureza dos materiais utilizados em suas peças. “Uso o cobre polido para ser um material sedutor, contrapondo a mitologia que o cerca (ele é associado à figura feminina de Vênus) com a forma masculina.” Na exposição, essa peça citada pelo artista é uma obra de madeira de pequenas dimensões, que reproduz a forma de um livro, cortada por uma película de cobre que irradia luz de seu interior. Ela contrasta com a escala pública de seus outros trabalhos, mas conserva o caráter alegórico das peças.

Lescher diz que a alegoria não o incomoda. Há 20 anos, quando apresentou seu pião, feito de mercúrio e ferro, a instabilidade da forma levava o espectador a uma relação de desarmonia contrastante com o equilíbrio proposto pelo autor – o pião, fixo no piso, trazia mercúrio na extremidade superior. “Tinha problemas com a alegoria até concluir que arte é justamente isso, uma alegoria, o ato de se colocar no lugar do outro, mostrando que nada do que está aqui é de verdade.” A peça que ilustra melhor esse pensamento é o seu “lago” de basalto, feito de círculos que se interpenetram, dando um sentido quase místico ao espelho d’água sugerido na superfície. O telescópio de Lescher, mais uma vez, mira o centro da terra, não o céu.

PENSAMENTO PANTOGRÁFICO

Galeria Nara Roesler. Av. Europa, 655, tel. 3063-2344. 2ª a 6ª, 10 h/ 19 h; sáb., 11 h/ 15 h. Grátis. Até 21/9. Abertura hoje, 11 h.

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