Artur da Távola quer "muitas culturas" no Rio

O senador Artur da Távola será o novo secretário de Cultura do Rio, a partir de 1º de janeiro de 2001, data de posse do novo governo municipal. Em almoço com a reportagem da Agência Estado, o senador eleito em 1994 falou pela primeira vez sobre novos projetos, expansão da rede de equipamentos culturais da cidade e desenvolveu idéias para incrementar o cenário da cultura local. Carioca de Ipanema, Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros, mais conhecido como Artur da Távola, pseudônimo que usa profissionalmente desde os anos 50, é jornalista e entusiasta de diversas manifestações artísticas. Conhecedor de música erudita, popular, televisão e rádio, ele hoje apresenta um programa de música clássica na TV Senado. Publicou 21 livros, sendo o mais recente, Em Flagrante, lançado pela editora Bluhn, um livro de crônicas que formam um painel de flagrantes da vida urbana. Artur da Távola trabalhou em jornais, rádios, TV, cinema e todas as outras mídias, além de ter sido professor. Agora, assume o leme da Cultura do Rio convidado pelo futuro prefeito Cesar Maia. Faz questão de dizer que não ignora o trabalho feito por gestões anteriores, que considera bom, e espera encontrar uma secretaria bem organizada. Quer expandir os programas já existentes e tem uma lista de grandes projetos a longo prazo, que dependerão de conversas com o prefeito e de financiamento. Uma de suas primeiras propostas é simples mas significativa: vai sugerir a mudança do nome do órgão para "Secretaria das Culturas", negando a idéia de que uma forma de cultura dê conta da diversidade que compõe o Rio de Janeiro e o Brasil. Estadao.com.br - Quais os primeiros projetos para a Secretaria ? Artur da Távola - A primeira atitude que eu pretendo ter é criar as condições para que os teatros, centros culturais e lonas culturais da cidade estabeleçam um horário às 11h30 da manhã, como acontece em várias cidades do mundo, destinado a uma faixa de público, sobretudo da terceira idade, que não pode ou não gosta de sair de casa à noite. Isso criará um público a mais para a atividade, facilitará a locomoção e vai ampliar o mercado de trabalho na área. E quais seriam os projetos a longo prazo? Uma das primeiras medidas é puramente conceitual: mudar o nome da Secretaria da Cultura para a Secretaria das Culturas. Eu já havia levado essa idéia ao presidente Fernando Henrique para o nome do Ministério da Cultura. Um País complexo como o Brasil é repleto de culturas. Eu fui o relator do capítulo de Cultura da Constituição e por ela, a Cultura é concebida como toda e qualquer manifestação da sociedade, seja de caráter subjetivo ou objetivo. Haver uma Secretaria de Cultura supõe uma idéia reacionária de que todos devem participar e obedecer a cultura das elites. Já falei com o prefeito, que deve encaminhar a sugestão à Câmara de Vereadores. Dentre os macro-projetos, eu penso em criar um instituto, que já proponho o nome de Instituto Pixinguinha, dedicado a estudar, ensinar e organizar os elementos da cultura musical carioca. A cultura musical carioca é uma fusão riquíssima, que gerou o choro, a manifestação jazzística da mais profunda brasilidade, o samba, existente desde 1917, a bossa-nova, foi espaço para a Tropicália, foi sede da Jovem Guarda e é um dos carnavais mais importantes do mundo. Portanto, a música do Rio merece ter um instituto dedicado a ela, visando a criação de padrões culturais referenciais, mas que tenham a ver com a identidade cultural brasileira. O que dá um sentido à diversidade é a preservação da identidade. O outro projeto é a criação de uma sala de espetáculo como é a Sala São Paulo, para apresentação de orquestra, balé, coral e ópera. Para isso é necessária uma condição de financiamento regular. Outra idéia é manter em algumas igrejas da cidade concertos de música de câmara e corais de música erudita. Pretendo criar cinco ou seis linhas gerais de Teatro, como teatro clássico, de vanguarda, de comédias musicais, teatro internacional e um dedicado exclusivamente à palavra. O Teatro da Palavra seria o local de apresentação dos repentistas, da literatura de cordel, contadores de história e de poetas. Quais as alternativas para expandir a difusão cultural na cidade?Hoje no Rio acontecem espetáculos isolados, com o patrocínio de empresas privadas, para públicos pequenos, o que me parece um custo alto para um resultado pequeno. Nesse sentido, quero incorporar a idéia de que não existe política cultural na contemporaneidade sem difusão em Rádio e Televisão, sobretudo televisão a cabo. Tudo isso obedecendo a um macro-projeto, de grande alcance, como em São Paulo. A Orquestra Sinfônica paulista e a Sala São Paulo são padrões no País e o Rio, como outro centro irradiador, não pode ficar restrito ao Teatro Municipal, que, por melhor que seja, não abrange a pluralidade que uma política nessa direção impõe. O rádio, por exemplo, é um meio esquecido, mas que tem uma grande disponibilidade de horários. Com o dinheiro que algumas empresas gastam em um espetáculo de música, elas poderiam patrocinar dois ou três anos de um programa regular no rádio. Eu não pretendo abandonar os espetáculos de alto nível, porque eles fazem parte da vida cultural da cidade, mas incentivar a difusão, sobretudo através do rádio. E quanto à carência de equipamentos culturais na zona Oeste e no subúrbio da cidade? A cidade tem um bom equipamento cultural formado por cerca de 11 teatros, cinco lonas culturas, sete centros culturais, os auditórios de muitas escolas, entre outros. Hoje existem cinco lonas culturais no subúrbio e zona Oeste e este número deve chegar a pelo menos 30. A lona cultural é uma iniciativa muito interessante, uma lona de circo que abriga cerca de 400 pessoas e mantém uma programação que não é imposta, mas que permite um recolho da cultura da localidade e dá uma oportunidade para que ali possa haver circulação cultural, eventualmente trazendo algum nome conhecido. A zona Oeste, o subúrbio e os morros cariocas têm manifestações culturais próprias e diversas. Eu penso em criar um sistema barato de publicação de livros, uma editora popular custeada pela prefeitura, que teria um trabalho integrado ao das Lonas. O Prefeito Cesar Maia disse que a Riofilme deveria dar mais atenção aos filmes produzidos no Rio. Há um consenso entre ele e o senhor quanto a isso? Não conversamos a respeito ainda. A questão da distribuição de filmes é de extrema complexidade. A Riofilme é uma empresa que é importante para o cinema brasileiro, com essa priorização acredito que o prefeito queira atrair mais gente para fazer filmes no Rio. Mas a Riofilme tem que estar vinculada ao mercado e o trabalho deve ser ampliado. A política de patrimônio já está definida? O chamado patrimônio material é um dos pontos mais complexos e sérios da Secretaria. O Rio ainda possui setores da cidade que são marcas de um tempo, como a Lapa, Cais do Porto, Saúde e outras com um potencial cultural enorme. Temos que manter uma política muito segura de tombamento, enfrentando os interesses que se movem nessa área. Como estudioso de televisão, como o senhor vê o caso da justiça contra os programas de TV considerados excessivamente violentos ou de forte apelo sexual? Fala- se em censura.... Aí eu não sei se a justiça acertou ou errou porque eu não examinei o caso, mas trata-se de uma decisão de juiz. Censura é uma decisão do Estado, e não é este o caso. O governo não tem nada a ver com isso e não creio que o País esteja ameaçado de censura. E a proibição de empresas tabaqueiras em patrocinar eventos culturais? O País perde com isso? Aqui no Rio perderemos o Free Jazz. Eu tenho impressão que a perda maior seja a perda de vidas. O cigarro adotou uma estratégia de se associar ao esporte e à cultura de vanguarda, para atingir a juventude. Eu votei a favor dessa lei e acho de extrema importância ao País. E quanto ao Free Jazz haverá outro patrocinador. É só mudar o nome.

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