Artistas comentam a obra de Heitor Villa-Lobos

50 anos após a morte do compositor, músicos, maestros e compositores avaliam seu trabalho

João Luiz Sampaio, de O Estado de S. Paulo, SÃO PAULO

14 de novembro de 2009 | 16h30

Leia opiniões de vários artistas sobre a obra de um dos nossos maiores compositores, ao se aproximar a data do cinquentenário de sua morte: Heitor Villa-Lobos morreu aos 72 anos no dia 17 de novembro, no Rio de Janeiro.

 

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"Temos depurado nossa percepção do cidadão Villa-Lobos e a obra tem conquistado crescente autonomia pelo seu valor artístico intrínseco. Nos últimos anos tivemos inúmeras publicações, nacionais e internacionais - não raro pesquisas de pós-graduação universitárias - que tem nos possibilitado reler fatos, relacionamentos e também a trajetória artística do compositor através de um olhar mais meticuloso, científico, distanciado da passionalidade que envolveu tanto a vida quanto a criação do próprio mito Heitor Villa-Lobos.

 

O passado se distancia e só pode ser visto com os olhos do presente. Especialmente na última década tivemos avanços relevantes na qualidade da performance musical nacional, o que, indubitavelmente, tem apurado a acuidade técnica e, por vezes o gosto estético, em nosso convívio musical. Esse gradiente de qualidade, presente no exterior, foi desejado e mencionado por Villa-Lobos quando voltou de suas duas viagens a Paris na década de 20. Portanto, quando celebramos 50 anos de sua morte, finalmente começamos a desfrutar da sua obra com mais independência das discussões em torno de posicionamentos questionáveis do compositor em vida. Tanto Benjamin quanto Adorno, entre outros, já nos propuseram reflexões a respeito desse assunto. Portanto, já é hora da obra de Heitor Villa-Lobos falar por si própria.

 

Depoimentos recentes de vários compositores ligados à Segunda Escola de Viena - que nos anos 60 e 70 se opuseram ao nacionalismo musical - expressam em suas reavaliações aspectos positivos sobre a produção villalobiana, destacando mérito e valor composicional à mesma. Nesse momento em que as diretrizes de implantação da disciplina Música nas escolas regulares de todo o país é discutida, a experiência implementada por Villa-Lobos nos anos 30 torna-se referencial, enquanto registro daquela época. Resta-nos saber decodificar o momento sócio-cultural em que vivemos. Concluindo, entendo que ao celebrar esses 50 anos devemos, sobretudo, voltar nossa atenção não só ao compositor brasileiro Villa-Lobos, mas também aos compositores nacionais vivos, responsáveis pelo presente e futuro da música brasileira.

 

Gil Jardim, maestro, autor de "O Estilo Antropofágico de Villa-Lobos"

 

"Villa-Lobos foi o compositor que melhor descreveu e revelou musicalmente a beleza e grandeza do Brasil e dos brasileiros. Hoje ele é ainda mais respeitado e reconhecido como sendo um dos mais autênticos e criativos artistas do século 20."

 

Roberto Minczuk, maestro

 

"Os compositores da geração seguinte a Villa-Lobos, entre os quais incluem-se de Santoro a Guarnieri, e até o próprio Gilberto Mendes, foram de alguma maneira intimidados pela sombra que Villa-Lobos projetava sobre eles. A minha geração, entretanto, já foi formada na corrente que reagia negativamente à escola nacionalista com a qual Villa-Lobos era identificado, de modo que a princípio nós o ignoramos. Entretanto, em meados dos anos 80 começamos a descobrir que Villa-Lobos tinha também muitas facetas revolucionárias e pudemos então recuperar, como influência altamente positiva, diversos aspectos da linguagem de suas obras atonais e continuar a desenvolvê-los sem que isso representasse um peso intimidador, tal como o compromisso nacionalista representou para as gerações precedentes."

 

Rodolfo Coelho de Souza, compositor, sobre a influência da obra do compositor sobre as gerações que o sucederam

 

"Heitor Villa-Lobos é sem dúvida considerado uma das grandes referências da música brasileira, apesar de não conhecermos suficientemente sua obra como um todo - situação frequente no que se refere aos grandes criadores da música brasileira de concerto. Villa-Lobos é até hoje um compositor que gera inúmeras polêmicas, tem uma obra muito extensa, irregular, complexa e multifacetada, que apresenta ainda muitos aspectos a serem avaliados.

 

Por um lado, sua imagem continua sendo a do autor de melodias que se tornaram muito populares, como a Ária das "Bachianas Brasileiras nº 5" e o Trenzinho do Caipira - que é o movimento final das "Bachianas Brasileiras nº 2" -, partes frequentemente incluídas em programações, gravações, e que vêm sofrendo diversas releituras, transcrições e adaptações de todo tipo. Por outro lado, é um compositor quase desconhecido no que se refere ao conjunto de sua obra.

 

Independentemente do fato de Villa-Lobos ser considerado um dos grandes compositores do século 20, ele teve a grande habilidade e o empenho de aproveitar as oportunidades para divulgar sua obra e sua imagem. Ainda em vida, uma parte significativa de suas composições foi editada por grandes casas editorais; fez gravações para as mais importantes companhias discográficas, viu sua música ser executada pelos mais renomados intérpretes de seu tempo e idealizou um grande projeto de educação musical para as massas. Essas estratégias, possivelmente, ainda fazem de Villa-Lobos o compositor brasileiro de música de concerto mais conhecido e gravado em todo o mundo, o que pode significar que seu prestígio se mantém como há cinquenta anos atras".

 

Adélia Issa, soprano, e Edelton Gloeden, violonista

 

"Quero me ater ao visionário educador que foi Villa-Lobos. Seu grande projeto educacional e musical (apresentando em diversas cidades europeias), em que teve destaque o Canto Orfeônico, resultando na compilação do "Guia Prático" (Temas Populares Harmonizados) e que, aplicado na nova geração de 1930, formou um público diferente do que vivenciamos hoje. Villa-Lobos tinha a certeza, assim como eu tenho, de que a educação musical e artística fazia e faz parte da formação intelectual e social de um cidadão, onde o senso crítico e a imaginação são despertados através da música.

 

O resultado da eliminação do ensino das artes nas escolas públicas do Brasil contribuiu para o quadro que vemos hoje: a banalização da violência, o aumento da corrupção política, a decadência do ensino público e a falta de perspectiva do futuro para os mais pobres. Apesar de parecer grandioso, para alguns de sua época o projeto de Villa não era mais nada menos que um vislumbre de uma futura nação, naturalmente talentosa e que, se fosse recheada de conhecimentos, poderia se tornar um povo poderoso e inteligente capaz de competir de igual para igual com o resto do mundo.

 

Villa-Lobos compreendia a essência da música brasileira e sua linguagem. Como intérprete de Villa-Lobos pelo mundo afora, posso sentir através dos olhares e aplausos, a grandiosidade de sua música. Ele traz em sua obras as mesmas sensações de cinco décadas passadas: A alegria e a vivacidade do povo brasileiro. A grande diferença para hoje é que quase não temos mais visionários ou músicos fanáticos engajados na política educacional, desinteressados de favorecimentos políticos ou financeiros ou ligados na mera reprodução e execução musical para um público que tende a desaparecer.

 

A música salvou minha vida e poderia salvar a vida de muitas futuras crianças brasileiras ricas ou pobres. Deixo uma frase de Villa-Lobos que é o cerne da minha vida: "Tudo que se sente na vida, se sente no coração. O coração é o metrônomo da vida."

 

Edna D'Oliveira, soprano

 

"Villa-Lobos é um compositor capaz de conseguir um amálgama de muitas correntes de sua época como: nacionalismo (com peças que utilizam o folclore brasileiro em sua totalidade, do urbano ao ameríndio, passando pelo elemento das danças de ritmo africano), neoclacissismo (Bachianas Brasileiras), experimentalismo (criatividade com relação à orquestração e à estrutura), exotismo e individualismo (em seus títulos, em suas soluções harmônicas, como também em seus procedimentos composicionais). Mais que isto, Villa-Lobos até prediz o próprio minimalismo (Plantio do Caboclo). Na minha opinião, a importância de Villa-Lobos ainda não foi completamente definida. Uma das razões é a dimensão e a variedade de sua obra.

 

Villa-Lobos era muito mais famoso em vida. A sua exuberante personalidade, o seu savoir-faire em matéria de criar uma imagem de compositor exótico, e sua imensa obra foram irresistíveis aos seus contemporâneos. Com o tempo, a dificuldade em encontrar partituras bem editadas restringiu a apreciação de sua obra como um todo. Apesar de Villa-Lobos ser considerado um dos nossos mais importantes compositores, sua obra não é muito conhecida: não há uma orquestra de repertório de Villa-Lobos, por exemplo. O trabalho de intérpretes esporádicos fora do Brasil, com muito esforço e empenho, estão mudando a opinião da crítica especializada e dos produtores de concertos quanto `a qualidade e importância de Villa. É urgente desenvolver uma política cultural visando a disseminação da riqueza da arte brasileira."

 

Sonia Rubinsky, pianista

 

"O passar dos anos nos leva a reinterpretar, a compreender melhor, fenômenos culturais, criações artísticas, personagens. À medida que vamos adquirindo experiências, nosso horizonte se amplia e a posição desses elementos se movimenta nesse cenário - ora ocupando espaços de mais destaque e importância, ora o contrário. No meu mais de meio século de carreira e constante contato com a obra de Villa-Lobos, posso afirmar que o respeito inicial que tinha por seu trabalho transformou-se numa profunda admiração. Estudando recentemente obras do inicio de sua carreira entendi a diferença de Villa para os outros e também a razão de sua importância na música do século 20 como um todo. Ele não começou orquestrando maracatus ou lundus para a sala de concertos afim de conferir-lhes 'status cultural' e nem fez 'média' com a cultura espontânea de seu país. Dotado de profundos conhecimentos da música que se fazia no início do século na Europa, Villa-Lobos armou uma guerra entre a matéria prima nacional e o know-how composicional da música do Ocidente. A dupla visão critica que ele teve como ninguém dos dois fenômenos - a tradição herdada versus a força telúrica - é que, a meu ver, conferiu à sua obra originalidade e uma dimensão maior, universal. Hoje se sabe com clareza que Villa não foi um provinciano. Não era um bajulador dos tais 'valores humanos' ou 'belezas naturais' de seu país, que ele amava de paixão. Sabemos, também, que a 'média' que fez com o execrável ditador Vargas - este que, em vez de copiar os princípios da democracia americana, deixava-se encantar com as alegorias e métodos dos nazi-fascistas - tinha o sentido de implantar o ensino musical nas escolas afim de alfabetizar musicalmente as gerações seguintes, preparando-as para enfrentar a emergente máquina de comunicação eletrônica, que ele chamava de 'música de repetição' e a qual muito temia (sábia premonição!)Por essas razões, 50 anos após sua morte, afirmo, sem vacilar, que ele foi o mais importante músico brasileiro do século 20. Aliás, o mundo também acha, pois, ele é o mais executado compositor brasileiro no exterior, mais que qualquer outro artista popular nosso."

 

Júlio Medaglia, maestro

 

"O Villa foi o compositor que colocou o Brasil no cenário internacional. Antes dele Carlos Gomes e Nepomuceno fizeram seu papel, mas o enorme carisma e visão do mundo transformaram-no em um dos maiores agitadores culturais e divulgadores de nossa cultura em seu tempo. Em sua época sua presença forte desencadeou uma série de alterações na vida musical do país, não só no terreno da composição propriamente dita mas também na área educacional especialmente enquanto foi diretor da Superindendência de Educação Musical e Artistica. Acho que a grande diferença entre sua imagem da época e a de hoje é justamente a sua ligação com o Governo Vargas. O uso da música como poder de manipulação de massas, que por alguns pontos de vista são bastante questionáveis, hoje em dia, na minha opinião, não fazem mais tanta diferença. Sobrevive sua obra extensa, polêmica, forte, carismática e diversificada. Com muita "brasilidade" mas também com enorme universalidade. Ainda é um de nossos maiores "cartões de visita 'no exterior'."

 

Luis Gustavo Petri, maestro

 

"O problema de Villa-Lobos para os compositores brasileiros é que ele continua um marco a superar, muito difícil. Ele se tornou, sem dúvida, o maior nome do Brasil no exterior, conforme admitia Gilberto Freyre, um nome entre os maiores da música do século 20, ao lado de Bartok, Stravinsky. Muitos compositores brasileiros ainda querem ser o novo Villa-Lobos. Da minha parte, admiro até hoje a inventividade, a modernidade de sua linguagem. Não me interesso pelo seu brasileirismo e sim, ao contrário, pelo seu cosmopolitismo, seu ecletismo tropicalista pós-moderno avant la lettre. No início fui muito influenciado por ele. Depois, junto com meus colegas do manifesto música nova, a coisa que a gente queria, realmente, era exatamente não ser um novo Villa-Lobos. Hoje em dia, eu sinto que estou voltando para ele, de certo modo. É a sua sombra, ainda, pairando sobre a gente".

 

Gilberto Mendes, compositor

 

"Acho que a nova geração já não carrega estes traços marcantes de Villa Lobos embora a sombra de seu nome internacionalmente ainda paire por sobre nós - o fetiche daquele vindo do hemisfério sul na década de vinte e que segundo a critica Anais Fléchet para os franceses tratava-se da revelação do "outro", um outro radical e brutalmente diferente do europeu civilizado Mas afinal quem foi Villa Lobos? Um gênio, visionário, charlatão, transgressor, nacionalista, marqueteiro. Creio que uma força da natureza. Erza Pound disse que um escritor (isto se aplica também ao compositor) se divide em três categorias: 1 aquele que inventa e portanto muda a história, 2 aquele que é um mestre e consegue captar com maestria e até melhor as ideias daquele que inventou 3. Aquele que copia. Parece que Villa Lobos foi um misto de tudo isto. Difícil de catalogar, ele extrapola 'rubricas'."

 

Jocy de Oliveira, compositora

 

 

 

 

 

 

 

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