Artistas brasileiros com alma japonesa

O Japão do poeta Haroldo de Campos, o da artista plástica Tomie Ohtake e o do compositor Hans-Joachim Koellreutter não são apenas novas formas de ver o país. São visões que surgem a partir de uma experiência brasileira - que vai gerar novos enfoques criativos para os artistas brasileiros. O trio teria compreendido, reinterpretado e se deixado contaminar pelos mais complexos conceitos da estética japonesa, contaminando também a produção artística nacional com essa cultura ocidental. Partindo dessa premissa, a partir dessa terça-feira, a Fundação Japão promove uma série de eventos que prestam homenagens a esses transcriadores da cultura japonesa que, curiosamente, têm uma forte relação com a cidade de Kyoto: Koellreutter dirigiu lá o Instituto Goethe por sete anos, antes de vir para o Brasil; Tomie nasceu na cidade e Haroldo, um dos mais assíduos tradutores da poesia japonesa no Brasil, reforçou seus vínculos com o país numa viagem que fez a Kyoto nos anos 90. A palavra "yuguen", para Haroldo, pode ser traduzida por "charme sutil" - e seus ideogramas têm conotação de "profundidade", "vago", "misterioso". Ela seria uma espécie de palavra-chave para entender a arte e a criação estética japonesas. Jô Takahashi, que divide a curadoria do projeto com a pesquisadora Christine Greiner, acredita que yuguen define uma estética ligada ao sombrio, ao obscuro. "É a beleza crepuscular anterior ao terror e ao desespero da extrema escuridão", tenta resumir. Para Takahashi, a música de Tom Jobim, por exemplo, é em parte devedora da cultura japonesa, introduzida entre os músicos por Koellreutter. "Águas de Março tem uma métrica semelhante à do hai-kai, fundamentada em números ímpares de sílabas", afirma. Repetições - Christine lança amanhã, na Fundação Japão às 18h, o livro O Teatro Nô e o Ocidente (Annablume/Fapesp, 144 págs., R$ 15). Como explica na introdução, seu livro, prefaciado por Haroldo, usa a dança para mapear o diálogo entre o Japão e o Ocidente. "A quantidade de publicações a respeito dos diálogos Japão/Ocidente é incalculável, mas muitas vezes, bastante repetitiva", escreve Christine na introdução de seu livro. "No entanto, das inúmeras imagens que permeiam o universo nipo-ocidental, preferi escolher apenas uma. Uma imagem cênica, criada por um poeta e dramaturgo (William Butler Yeats) e por um coreógrafo (Michio Ito), que no tempo-espaço do palco tradicional japonês, em 1916, transformou-se no diagrama de um longo diálogo, refazendo-se até hoje", explica ela. Mas o livro de Christine é apenas um dos "atomomentos" do projeto. O primeiro é um seminário, marcado para às 20h de amanhã. O objetivo é aprofundar ainda mais os significados dos conceitos de yuguen. Além da participação de Haroldo e de Koellreutter, o encontro conta ainda com a presença de Darci Kusano, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) que se dedica ao estudo das artes cênicas tradicionais e modernas do Japão. A mediação é de Christine Greiner. O terceiro "atomomento" do dia é a abertura da exposição de trabalhos da artista gráfica e cenógrafa Rachel Zuanon, autora do projeto gráfico de Christine. Rachel expõe painéis com ampliações do que produz em computador e também exibe um vídeo, em torno do tema Nô. Uma outra exposição - a foto-instalação de Maureen Bisiliat - que também abre amanhã, ajuda a compor o projeto Yuguen, com registros fotográficos realizados no Japão. No dia 25 de outubro, quando se encerra essa primeira fase do projeto, ocorre o seminário Ma, com a participação de Bisiliat, da arquiteta Anja Pratsche e da monja Coen Murayama, presidente do templo Busshinji, da seita zen-budista Soto Zenshu. Ma é um outro elemento estético da criação artística japonesa: pode estar relacionado a intervalos de espaços ou de tempo. Daí a presença de Pratsche, que defendeu a tese O Vazio na Arquitetura. Mas a ambição do projeto Yuguen é maior. O objetivo da Fundação Japão, a partir desse evento, é dar início a uma série de projetos a serem apresentados no ano que vem. Um dos planos é criar uma trilha sonora para o projeto, tendo como referência a composição Yûgen, de Koellreutter, com a participação de músicos brasileiros. Outro obejtivo é a criação de um espetáculo de dança, envolvendo elementos da obra de Tomie, da poesia de Haroldo e com eixo musical de Koellreutter. A direção geral deve ficar a cargo de Emílio Kalil e a direção artística, de Alice K, com apoio do Instituto Tomie Ohtake. Ainda dentro do projeto, uma página virtual deve ser colocada na Internet, com todo o "making of" e os resultados de cada etapa do trabalho. Haverá também segundo o planejamento, um livro de registros fotográficos do processo, escrito por Greiner.Projeto Yuguen. Tributo a Tomie Ohtake, Haroldo de Campos e Koellreutter. Espaço Cultural da Fundação Japão (Avenida Paulista, 37, tel. 0--11/3141- 0110). Entrada franca.

Agencia Estado,

03 de outubro de 2000 | 21h08

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