Artistas

Queimem os entediados artistas que duvidam de nossas verdades, acabem com eles!

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2020 | 03h00

Por que conservadores odeiam artistas? Por que a cultura entrou em rota de colisão com os ideais do Poder? Por que as leis de incentivo eram o alvo preferido da campanha eleitoral, para demonizar a classe artística? 

Porque, sim, somos vagabundos, e incomodamos. Atrapalhamos. Somos do contra. Preguiçosos, queremos patrocínio, como Mozart, Beethoven, Bach, Chopin, para não trabalharmos, não nos alistarmos, covardes que somos, fujões e beberrões.

Farrearmos, nos entupimos de entorpecentes e paixões estúpidas e malditas, e compomos depois de um pacto com o capeta umas bobagens que logo serão esquecidas, diferentemente dos grandes generais, coronéis, capitães, os verdadeiros heróis da pátria.

Somos inúteis escritores, poetas, viciados, degenerados. Merecemos a masmorra, a tortura, a censura, a Inquisição.

E, por sermos vagabundos, temos tempo de sobra para pintar o teto da Capela Sistina, a Santa Ceia numa parede, esculpir Davi, buscar o sorriso enigmático de Monalisa, representar o horror da guerra em Guernica, pintar o vento, com o Van Gogh, esvaziarmos os cofres públicos para atentarmos contra os bons costumes.

Somos uns inúteis, passamos um tempo precioso e com a grana de outrem fazendo da vida, poesia, questionando a existência, provocando, subvertendo, tornar desconfortável o que era para ser enaltecido.

Questionamos Deus, sexo, tabus, miséria, escravidão, inventamos cores, invertemos formas. Narramos histórias em que baleias gigantes se vingam da caça implacável por seu óleo valioso, que iluminava cidades, ganância que quase as exterminaram. 

Narramos vinganças de Godzillas modificados por desastres nucleares criados pelo progresso, de gorilas gigantes que queriam ficar em paz na floresta, de dinossauros que não tinham nada que ser ressuscitados geneticamente. 

Mostramos cavaleiros lutando contra delírios, mulheres entediadas no casamento, adúlteras, herdeiros que não encontram um sentido na vida, cangaceiro que se apaixona por outro, homens que se transformam em mulheres, que se perguntam “se Deus não existe, tudo é permitido”, e que anunciam que nada faz sentido se a essência vier antes da existência.

É vagabundo, sim, quem escreve, aos 16 anos, “lá ia eu, de mãos nos bolsos rasgados, meu paletó também se tornava um trapo, sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal, caramba!, a sonhar amores destemidos! O meu único par de calças tinha furos. Pequeno Polegar do sonho ao meu redor. Rimas espalho. Me hospedo sob a Ursa Maior. Os meus astros no céu me dão trovões...” 

Vai trabalhar, francesinho vagabundo, andante, que não queria se casar, fugiu da escola, andava seduzindo, provocando sem rumo, e ainda namorou um homem bem mais velho. Revolucionou a poesia. Inventou o modernismo. E daí? Mais útil aquele que inventou o canhão, a dinamite, a cadeira elétrica. Com as quais, se enriqueceram.

Vagabundo e pretensioso o cara que fez do bidê, arte, da banana e Sopa Campbell, artes, da arte abstrata, arte, de um quadro cheio de riscos, arte, da pichação, arte, do grafite, arte, da HQ, arte. 

São uns bêbados, drogados, comunistas, libertinos, fazem recitais com orgias, é o fim da Civilização Ocidental, é a barbárie! 

Pilantra o autor que pintou o tédio no balcão de bar, que cantou pedindo a liberação da maconha, que disse que era mais popular que Jesus Cristo, que pelado na cama pediu paz. Pilantra, pretensioso, vagabundo, inútil, devasso, hedonista, má influência, desprezível, pária, fumou coisa proibida, cheirou todas, perturba a ordem, deve ser banido, censurado, exilado, queimado, como uma bruxa. 

Ressuscitem o inquisidor. Desenterrem a guilhotina. Acendam as fogueiras. Queimem tudo. Não suportamos o questionamento, a dúvida, o avesso. Nossa verdade sólida está em livros sagrados, nas escrituras. Queimem tudo o resto!

A pátria e a família em primeiro lugar. Cancelem figuras proeminentes do pensamento corruptor. Nada de dança que provoque a libido, que nos faça sentir. Não queremos sentir, queremos trabalhar, plantar, minerar, extrair riquezas do solo, construir, aumentar a renda, fazer negócios.

Onde já se viu fotografar homens pelados, casais se beijando, garimpeiros exaustos, a floresta se queimando, consumida pelo progresso?

Queimem os entediados artistas que duvidam de nossas verdades, acabem com eles! Pelotão de fuzilamento. Cortem a língua dos poetas, furem os olhos dos pintores, esmaguem o crânio de escritores, fechem teatros e cinemas, quebrem as editoras. 

O Estado não tem nada com isso. O Estado não quer arte, artista. O Estado quer crescer, ampliar! Quer pão. Deixe o Estado trabalhar.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

 

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