Artista plástico Nuno Ramos ganha prêmio de literatura

Romance 'Ó' vence Prêmio Portugal Telecom; em 2.º lugar, João Gilberto Noll, e em 3.º, Lourenço Mutarelli

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

11 de novembro de 2009 | 20h22

Artista plástico e escritor, Nuno Ramos foi o primeiro colocado na sétima edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura por seu livro Ó (Editora Iluminuras, 289 páginas, R$ 44), recebendo o prêmio no valor de R$ 100 mil. Quarto e mais radical livro de Nuno, reconhecido internacionalmente como um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira, Ó é uma obra híbrida em que vários gêneros literários se cruzam, do ensaio à prosa poética, passando por referências autobiográficas. Traz as marcas das leituras preferidas de Nuno, do alemão W. G. Sebald (1944-2001) ao austríaco Thomas Bernhard (1931-1989), passando pela filosofia do francês Montaigne (1533-1592) e do norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882).

 

O segundo lugar ficou com João Gilberto Noll por Acenos e Afagos (Record) e o terceiro prêmio com Lourenço Mutarelli, por A Arte de Produzir Efeito Sem Causa (Companhia das Letras). Eles receberam, respectivamente, R$ 35 mil e R$ 15 mil. As dez obras finalistas foram selecionadas por 11 jurados e quatro curadores. Foram classificados, além dos mencionados, os livros Cinemateca, de Eucanaã Ferraz, Heranças, de Silviano Santiago, O Livro dos Nomes, de Maria Esther Maciel, e quatro livros de escritores portugueses: Ontem Não Te Vi em Babilônia, de António Lobo Antunes, Aprender a Rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares, Cemitério de Pianos, de José Luis Peixoto, e A Eternidade e o Desejo, de Inês Pedrosa.

 

Nuno Ramos, após receber o prêmio por Ó, anunciou para 2010 um livro de poesia, afirmando que vê com naturalidade a migração para a arte literária, uma vez que seu trabalho visual faz uso frequente das palavras como meio de expressão. Primeiro jornal a publicar uma crítica sobre seu livro premiado, o Estado, em sua edição de 14 de setembro do ano passado, observou que a grande questão do livro tinha muito a ver com o universo formal das obras visuais de Nuno, buscando uma correspondência para a ambivalência desses trabalhos, em que a matéria densa se dissolve como o desfazer dos corpos.

O problema filosófico que Ó propõe é linguístico. As palavras vão grudando ao corpo do autor e imprimindo nele uma forma de escrita "que ninguém lê e depois se apaga sozinha", a despeito de sua matéria pastosa, espessa, que remonta à noite dos tempos, quando tribos ancestrais teriam dividido os homens entre seres linguísticos e proscritos mudos, inadaptáveis e que, por serem pouco gregários, teriam sido extintos.

 

Condenados a observar os outros em seu exílio involuntário, passivos em sua exclusão, eles desenvolvem uma sensibilidade extraordinária para ler o mundo ao simples toque de uma pedra. Ó fala de sentimentos como esse, de modo fragmentado. É um livro em que as palavras constroem uma narrativa arquitetônica brutalista, obrigando o leitor a uma provação regeneradora que incorpora a experiência do "outro".

 

Acenos e Afagos, de João Gilberto Noll, desenvolve, de certo modo, uma trama em que a alteridade também é a grande questão. O modelo evidente é o austríaco Musil - e, mais especificamente, Um Homem Sem Qualidades - considerando que o escritor gaúcho trata igualmente de uma dessas vidas minúsculas marcadas pelo excesso de experiências e falta de espírito de um corpo à deriva, libidinoso. Noll não compareceu à cerimônia de entrega do prêmio, sendo representado por Luciana Villas-Boas, diretora-editorial da Record.

 

O terceiro lugar do Prêmio Portugal Telecom, Lourenço Mutarelli, acompanha, em A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, a trajetória de um jovem que vive uma existência marginal após perder o emprego e a mulher, oscilando entre sanidade e loucura. A referência mais próxima para definir a atmosfera do livro é o russo Dostoievski (1821-1881). Mutarelli conhece bem a realidade dos que vivem comendo as migalhas de uma sociedade opressora, que condena à afasia jovens como o Júnior de A Arte de Produzir Efeito Sem Causa.

 

Na análise da curadora do Prêmio Portugal Telecom, Selma Caetano, a escolha de autores como Nuno Ramos, João Gilberto Noll e Lourenço Mutarelli revela que os jurados optaram por premiar "escritores que reinventam a literatura brasileira de língua portuguesa".

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