Artista francês mostra sua obra em Brasília

O artista francês Bernar Venet, de 59 anos, sempre foi um péssimo estudante de matemática, mas foi nessa ciência que buscou inspiração para a pintura mural, um gigantesco painel de 50 metros repleto de equações, que está exposto desde o mês passado no Teatro Nacional de Brasília. O Brasil é o primeiro País a conhecer a nova obra do artista.Venet ganhou notoriedade nos Estados Unidos e na Europa produzindo esculturas monumentais em aço retorcido simbolizando linhas indeterminadas em forma de arcos e retas, como a lança de 62 metros de altura e 75 toneladas que instalará no Arco do Triunfo, a partir de novembro, numa alusão ao repouso das armas. Ele define essas obras como "verdadeiras instalações de esculturas", porque no futuro poderá apresentá-las de outras maneiras. Uma escultura é composta por quatro arcos que podem ser dispostos de diferentes formas no chão. Às vezes, mais torto ou em paralelo.Há 34 anos morando em Nova York, Venet quer chocar os telespectadores com os painéis, levá-los a pensar "algo novo", que eles olhem e se assustem com a obra. O artista insiste que não espera ser compreendido. "Se fosse tão fácil de compreender significaria que a proposta artística seria menos original do que eu gostaria que fosse", afirma. Do contrário, revela, ficaria decepcionado.Diagramas transcritos - O painel com equações matemáticas é um trabalho muito novo, apesar de conservar alguma relação com as obras de Venet realizadas nos anos 60. A diferença é que naquela época o trabalho era muito conceitual. Agora, ele usa as equações matemáticas pela própria estética e por sua beleza. Para um matemático, os diagramas transcritos no painel serão compreendidos. "Eu não entendo nada, os diagramas só me interessam pela estética."Com bastante humor e calma, Venet explica que a seleção das equações foi aleatória. Em casa, ele mantém uma biblioteca plena de livros de matemática. Vê semelhanças entre a sua relação com a matemática e a de alguns homens tímidos com as mulheres: não conseguem se comunicar com elas, mas podem fazer um belo retrato delas.Precursor - Foi totalmente por acaso, trabalhando com diagramas em outras peças, que ele viu a beleza da questão matemática e começou a explorá-la. Hoje, é reconhecido como precursor da arte conceitual no mundo. No Museu de Arte Moderna de Nova York, o trabalho dele situa-se entre o surrealista Marcel Duchamp e o dadaísta Franz Picabia.O que interessa para Venet é mostrar um trabalho nunca antes apresentado na história da arte. Ele lembra que a geometria já foi uma questão bastante explorada pela arte, mas nunca se usou o diagrama matemático em si. Com o painel, ele quer fazer despertar a beleza dos diagramas. Venet ressalta que, no contexto matemático esses diagramas têm um sentido, mas, ao ser deslocados para o contexto artístico, o sentido passa a ser outro.O artista acha que está ampliando a possibilidade do domínio da arte. Numa retrospectiva sobre a arte, Venet lembra que antes só se podia fazer retratos e pinturas figurativas. Os primeiros abstratos foram incompreendidos: as pessoas diziam "imagina, é preciso descrever alguma coisa, você está rabiscando e isso não é arte". Ele não se interessa por continuar fazendo arte abstrata, mas apenas o que seja totalmente novo. "Por que não fazer uma paisagem matemática?", indaga. Com base no processo da história da arte e avaliações próprias, Venet acredita que daqui a alguns anos ele vai virar um clássico também, porque esse tipo de arte que faz será uma coisa normal.Até o dia 24 de setembro, a paisagem na área externa do teatro permanecerá alterada pelas esculturas de Venet que pesam 20 toneladas. No mezanino do teatro, o visitante poderá ver a pintura mural com as equações matemáticas. A exposição também inclui uma sala de áudio, onde poderá ouvir CDs com sons do processo de criação do artista e montagem dos trabalhos. Por exemplo: barras de ferro caindo no chão e carrinho de mão passando sobre cascalhos.

Agencia Estado,

10 de setembro de 2000 | 19h48

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