Artista da violência

A escultora colombiana Doris Salcedo exibe em São Paulo uma contundente instalação baseada na morte anônima em seu país

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h09

Uma mesa de madeira está sobreposta a outra e, nesta composição, as duas têm entre si um naco de terra por onde nascem frágeis plantas. É a imagem de uma tumba, a referência à morte que vai se replicando por meio de 120 peças que formam Plegaria Muda (Prece Muda), instalação que a artista colombiana Doris Salcedo inaugura no sábado na Estação Pinacoteca, em São Paulo.

Certa literalidade das obras da escultora reforça sua escolha convicta de ser uma "artista política", como se define, que quer tratar diretamente de uma questão única, a violência. "No mundo da arte, as pessoas não falam de representação, ela se converteu num palavrão. Mas eu tento, sim, representar. Me parece muito importante refletir sobre os atos violentos cotidianos de nossa sociedade contemporânea", afirma Doris Salcedo.

Ao mesmo tempo, há uma delicadeza na contundência das instalações da escultora que, aos 54 anos, é das mais consagradas artistas latino-americanas, com peças exibidas e pertencentes a instituições como o MoMA e a Tate de Londres. "Isso é uma ficção. A realidade de quem sou se dá absolutamente no momento em que estou impotente tratando de pensar uma obra nova", afirma Doris, que diz se incomodar com "guetos", entre eles, o que poderia torná-la uma "celebridade estúpida" - tanto que ela preferiu não ser fotografada quando recebeu a reportagem do Estado.

Plegaria Muda, que vem sendo apresentada desde 2008 em mostras itinerantes iniciadas no México, tem como base episódios da vida em uma Colômbia "brutal", "subdesenvolvida", "pouco sofisticada" e até "catastrófica", enumera a artista. Para se ter mais ideia sobre o universo de suas obras, ela exibe permanentemente no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, o trabalho Neither, no qual grades de metal estão incrustadas nas paredes brancas da galeria tal qual "feridas" - peça de bela composição gráfica, sobre liberdade e proteção, que tem como referência campos de concentração nazistas.

"A sociedade se industrializou e o Holocausto é o elemento que nos permite pensar, pela primeira vez, na morte industrializada. Toda a simbologia que gerou é absolutamente importante e ela está sempre presente na minha obra, vinculada com elementos específicos da realidade colombiana", diz Doris Salcedo.

Agora, enquanto monta sua obra de tumbas dos "mortos sociais" na Estação Pinacoteca, a escultora viu, contente, a conexão entre seu trabalho e o prédio onde funcionou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops). "Arthur Danto (crítico de arte e filósofo americano) disse que construímos monumentos para o que queremos lembrar e memoriais para o que queremos esquecer. Esses espaços são essenciais e estou feliz por mostrar minha obra aqui."

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