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Artista cria cangaceiro interplanetário

Em O Cabra, quadrinista imagina o mundo com a sombra de um justiceiro sertanejo no ano 3000

Jotabê Medeiros,

12 de dezembro de 2010 | 20h53

No futuro, o coronelismo continuará dominando o mundo, a Igreja continuará acobertando a pedofilia. Mas também sempre surgirá no coração da vida miserável um herói redentor. Pressuposto simples, formato taludo, e eis que um gibi nacional se apresenta como uma agradável surpresa das artes gráficas em 2010. O quadrinista baiano Flávio Luiz Rodrigues Nogueira imaginou como seria se, num mundo pós-apocalíptico, um herói como Lampião andasse pelo sertão fazendo justiça com as próprias mãos (e também com algumas "espingardas" de laser).

 

O resultado é O Cabra, uma história simples de arte limpa que se vale de referências ao cinema de ficção científica, HQs e novelas - uma citação explícita é ao filme Blade Runner - O Caçador de Androides, de Ridley Scott. "Começo meus projetos pela criação do personagem, mais do que pela história em si. Havia feito há muito tempo um desenho de um cangaceiro futurista e, na minha mudança para São Paulo, encontrei o desenho no meio das coisas e resolvi, finalmente, contar a sua história", lembrou o autor.

 

Como em Maus, de Art Spiegelman, os miseráveis são antropomórficos (têm cara de bichos, como calangos). A escolha de um formato já incomum entre as histórias em quadrinhos, o formato standard de um jornal, é outra ousadia do artista. "Compro HQ desde criança e o formatinho sempre me incomodou. Acho que, hoje em dia, a feitura de HQ em papel, para competir com as versões mais tecnológicas, tipo iPad, e aquecer o consumo precisam de um diferencial. Recentemente adquiri dois títulos americanos que me chamaram bastante a atenção: a revista Wednesday Comics e uma edição em homenagem ao Jack Kirby, da Tomorrow comics. Além disso, a republicação do Superman Vs Muhammad Ali me fez pensar que valeria a pena publicar nesse tamanho tão bacana. Eu tenho a edição antiga da Ebal e é um dos xodós da minha coleção. Na agência onde trabalhava e para onde levei os originais de O Cabra para apreciação, um amigo perguntou se seria naquele tamanho. Era o que faltava para minha decisão, já que sou também o editor dos meus títulos", contou Flávio, vencedor do Salão de Piracicaba no ano 2000.

 

Há um bispo pedófilo na história, que é mostrado sem meios-tons. O autor diz que o personagem não é inspirado em ninguém em especial, nenhum figurão. "Ele é apenas um personagem que retrata uma infeliz realidade de que somos testemunhas, que não é de hoje que acontece e que, a meu modo, resolvi criticar e combater, com uma peixeira afiada na mão (risos). Mas não se trata de uma religião ou religioso em especial. Estamos, afinal, falando de uma história de ficção e que se passa no ano 3000. Não sei se daqui pra lá muita coisa vai mudar..."

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