Artista condensa trajetória de 20 anos na mostra <i>Camiri</i>

Pensamentos e experiências dosúltimos 20 anos de trajetória do artista carioca Nelson Felix secondensam em uma única mostra, Camiri, que pode ser vista até11 de fevereiro no Museu Vale do Rio Doce em Vila Velha, noEspírito Santo. É uma exposição de peso, uma das maisimportantes do atual cenário contemporâneo. De forma inovadora,mas natural no caminho de sua pesquisa, Nelson Felix realizou nogalpão do museu uma intervenção feita de 39 vigas de ferro,colocadas paralelamente, de forma horizontal e depois de formatransversal, atravessando as paredes do espaço e impedindo que ovisitante se desloque pelo local, e 3 grandes peças de mármorede Carrara. O museu é, dessa maneira, distorcido pelo artista. Aobra se transforma em algo único e denso, para ser olhado e nãotransitado. Mas esse é apenas um de seus pontos, o primeiro dadovisível de um trabalho de forte raiz conceitual. Quando Nelson Felix foi convidado pelo diretor do MuseuVale do Rio Doce, Ronaldo Barbosa, para fazer uma mostra nainstituição, não poderia imaginar a ponta de acaso queenvolveria o processo e seria fundamental para toda a concepçãoda exposição. Em 1986, Nelson Felix iniciou um projetoenvolvendo "questões de tempo e de longas distâncias", fixado emquatro pontos geográficos diferentes, estipulados por relaçõesentre coordenadas de latitudes e longitudes. Os trabalhos GrandeBudha, Mesa e Vazio Coração formam, juntos, uma Cruz na América. Grande Budha, o primeiro, está localizado no meio dafloresta no Acre e é composto por seis garras de latão fixadasao redor de uma árvore. Com o tempo, indefinido, as garraspenetrarão na árvore. Seguindo a mesma idéia, Mesa, localizadono Rio Grande do Sul, é feito de uma chapa de aço colocada sobretocos de eucalipto. Ao lado da Mesa, foram plantadas mudas defigueiras. Com o tempo, "o eucalipto apodrecerá, as árvoressustentarão e deformarão o plano da chapa". Por fim, os doistrabalhos da série Vazio Coração são formados, materialmente,por duas esferas de mármore colocadas em dois pontos àbeira-mar: na costa Nordeste brasileira e na costa do Pacíficoda América do Sul. A breve descrição acima é para chegar à mostra atual:Camiri, na Bolívia, ponto localizado na latitude de 23 graus,é o centro da Cruz na América, basta ver em um mapa. Em linhareta, coincidentemente, o Museu Vale do Rio Doce, no EspíritoSanto, está localizado na mesma latitude de Camiri. E 23 graus étambém a angulação de inclinação do eixo da Terra com o do Sol,como explica Felix. Camiri, por ser o centro da Cruz na América, já eraantes mesmo do convite para expor no Museu Vale do Rio Doce uminteresse para Nelson Felix. Mas a referência direta a Camirisó aparece no título dessa atual exposição e no catálogo damostra (com texto crítico de Ronaldo Brito e entrevista feitacom o artista por Nuno Faria), principalmente, por meio de duasfotografias. O artista se deslocou até a Bolívia e lá fez umafoto do céu de Camiri e outra de seu chão. "O deslocamento é,portanto, abstrato, não existe nada físico dele", diz Felix. Eapesar de a questão do deslocamento ser tão forte nesse projeto,que envolve anos de pesquisa, coordenadas, viagens, pontosdiferentes da América do Sul, quando se trata do espaço físicodo museu, no galpão, não há a possibilidade de se deslocar porcausa das vigas de ferro. Descida para materialidade Tanto conceito e tantahistória para se deparar com uma mostra potente visualmente, deforça estética e formal. "Aqui no galpão está o auge do processo o escultórico mesmo, o clássico de museu", afirma Nelson Felix."É a situação pós-conceito, quando se desce para a matéria e setransforma em obra, o mais difícil de tudo", completa o artistacarioca, nascido em 1954. O visitante terá dois acessos para entrar no galpão emque está Camiri. No primeiro deles, na primeira sala, ovisitante terá poucos metros até se deparar com dois grandescubos vazados, feitos em mármore italiano de Carrara, levementeinclinados. São o primeiro dado do escultórico. "Soucontemporâneo, mas tenho respeito pela tradição clássica da arte Só uso mármore grego e romano na minha escultura", afirma Felix O artista ainda completa que nem mesmo se trata de esculpir aspeças, mas de retirar o mármore para escavar a forma, como se setratasse da estatuária (mais uma vez a tradição). Depois desses dois cubos, começa já uma série de vigasde ferro, colocadas horizontalmente, tomando de parede a paredeessa primeira sala do galpão. Por uma pequena fresta, uma porta,é possível ver - e apenas ver - mais uma outra série de vigas,colocadas da mesma maneira, na continuação do galpão. A alturaem que foram instaladas as vigas faz formar uma linha entre alinha do horizonte e o chão. No outro extremo do galpão, pelo outro acesso, ovisitante vai encontrar um conjunto de vigas inclinadas a 23graus e um grande anel feito em mármore. Tanto cubo quanto anelsão formas simples, como diz o artista. "E o anel carrega umsimbolismo, a relação da união. É uma forma inteira", completaainda ele. Uma das vigas atravessa essa escultura e sai pelaparede do galpão, indo para o exterior. Em outro prédio do museuestão expostos mais de 20 desenhos sobre todo esse processodortista. Neles fica clara a idéia de que não é o caso de oprojeto morrer nessa exposição única, pelo contrário, tem aindamuito a expandir - nos papéis aparecem menções a outros pontosgeográficos para além da América: o Mar da China, Yucatán eAustrália. A descida do conceito para a arte nessa mostra deNelson Felix não se trata apenas de transformá-lo emmaterialidade, mas também em interação e monumentalidadearquitetônica. Oito anos de museu O Museu Vale do Rio Doce, instaladona antiga Estação Ferroviária Pedro Nolasco, às margens de umafaixa da bacia de Vitória - tel. (27) 3333-2484 - em Vila Velha,município vizinho de Vitória, comemora com "Camiri" os seus oitoanos. Dirigido por Ronaldo Barbosa, vem se firmando como umaimportante instituição para a arte contemporânea. Basta citarque recentemente teve mostras especiais de Cildo Meireles (suaexposição Babel, apresentada primeiro em Vila Velha, estáatualmente em cartaz em São Paulo, na Estação Pinacoteca),Eduardo Frota e Mariannita Luzzati. Em sua história, o museu, que não possui acervo de artecontemporânea, já recebeu 650 mil visitantes, 65% deles dasclasses C e D - principalmente por força de suas açõeseducativas. A Companhia Vale do Rio Doce, que mantém o museu,destinou em 2006, segundo Barbosa, uma verba anual de R$ 1,5milhão para custeio e projeto educativo e outra de R$ 1,5 milhão incentivada por meio da Lei Rouanet, para a realização de trêsmostras e um seminário internacional.

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