Artista brasileiro Cildo Meirelles leva sua arte a Barcelona

Exposição antológica do artista brasileiro chega à cidade espanhola após sucesso em Londres

Camila Molina, enviada especial de 'O Estado de S. Paulo,

10 de fevereiro de 2009 | 19h41

"Houve um momento nas cavernas em que arte e religião podiam ser confundidas. Passa um tempo e o que acontece? O que havia de arte naquela inscrição rupestre se desprende do que havia de religioso", diz o artista Cildo Meireles ao explicar em apenas algumas sentenças a relação do fazer artístico com o homem desde a pré-história até a contemporaneidade. A relação do espectador com a arte também passou por muitas mudanças ao longo do tempo e hoje fica mais difícil não deixar escapar o que há de sagrado na experiência de presenciar um trabalho artístico. Mas em se tratando da obra de Cildo Meireles, a relação entre o público e cada um de seus trabalhos é sempre pura potência. Suas criações se abrem para tantos campos, como o da política com a poética, da estética com o sensorial, que é impossível não ser arrebatado por suas obras. E essa experiência vai ainda mais longe quando se coloca em uma mesma instituição um conjunto de peso de seus trabalhos numa exposição que tem como espinha dorsal reunir grandes instalações criadas pelo artista num percurso que vai de 1967 aos dias atuais. A mostra antológica Cildo Meireles, que fez sucesso ao ser apresentada entre outubro e janeiro na Tate Modern, em Londres, chega agora à Espanha, ao Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MACBA). Desvio para o Vermelho (1967 -1984); Missão/ Missões (Como Construir Catedrais)(1987); Através (1983-1989); Babel (2001); Eureka/ Blindhotland (1970-1975); essas obras poderosas, vistas esparsamente pelo Brasil, estão agora num mesmo percurso na ampla exposição, inaugurada nesta quarta, 11, para o público. A mostra, que tem programação paralela (com palestra hoje sobre a Tropicália, com Arto Lindsay, e biblioteca e arquivos sobre arte brasileira no prédio do Centro de Documentação e Estudos da instituição), ocupa todo o segundo piso do museu e ainda a Capela MACBA - como o nome diz, uma capela do século 16 em frente do edifício central transformada, há dois anos, em espaço expositivo. É nela que Babel, torre circular de seis metros de altura, feita com rádios de diversos tipos e épocas, colocados em frequências diferentes, ganha o seu lugar perfeito. A obra está no fundo da capela, onde seria o altar, imersa numa luz azul - e parece que o espectador tem de peregrinar ao redor da torre para tentar compreender o que se fala (agora em espanhol) em algum daqueles rádios. É errado dizer que esta mostra, em cartaz até 26 de abril em Barcelona, seja uma retrospectiva de Cildo Meireles. Muitas possibilidades de seleções de suas obras poderiam ser feitas, nunca se encerrando uma ideia fechada sobre sua produção, assim como também é natural na trajetória de Cildo ele conceber um trabalho em uma época e o executar depois de anos. No caso desta antologia, com curadoria do crítico inglês Guy Brett, do diretor da Tate, Vicente Todoli, e do diretor do MACBA, Bartolomeu Marì, o critério foi o de reunir um conjunto denso de obras que, na grande maioria, não haviam sido exibidas na Europa (não apenas instalações, mas objetos e desenhos, das séries Espaços Virtuais: Cantos, de 1968; Ocupações, de 1968-1969, e Arte Física, de 1969).  O artista, já tão consagrado no Brasil (e também fora), tem neste momento outro tipo de visibilidade no Velho Continente: chegar a um grande público. Há mais de dez anos fez uma grande exposição no Instituto Valenciano de Arte Moderna (Ivam), teve também uma retrospectiva no New Museum de Nova York (depois exibida em São Paulo e no Rio), mas agora é diferente. Tate e MACBA (este, criado em 1995 no bairro El Raval, área por tanto tempo pobre e revitalizada a partir dos anos 80) são museus grandes e, para se ter ideia, a exposição em Barcelona teve custo de 400 mil. Cildo, que na segunda-feira completou 61 anos (nasceu no Rio, em 1948), conta que as conversas para a realização desta mostra foram iniciadas em 2002 e emenda-se outro fato neste momento, o de ter ganhado em 2008 o Prêmio Velázquez de Artes Plásticas da Espanha. Tantas coisas, mas seu barco corre normalmente. Cildo participa este ano da Bienal de Veneza, como conta, com uma instalação inédita sob o título provisório de Plim-Plim, que "envolve arquitetura e televisores". E já vai também acertando mostras, talvez para 2011, no Museu Serralves, em Portugal, e no Reina Sofia, em Madri, nas quais quer apresentar trabalhos inéditos.

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