Grand Palais/Divulgação
Grand Palais/Divulgação

Artista Bill Viola ganha mostra retrospectiva em Paris

Vídeos e instalações cobrem um período de 40 anos de trabalho

Sheila Leirner, Especial para O Estado de S. Paulo / Paris

09 de março de 2014 | 03h00

Desde 1970, Bill Viola usa o vídeo para explorar o fenômeno da percepção como caminho para o autoconhecimento e a compreensão dos mistérios na nossa existência no universo. Seus trabalhos enfocam as experiências básicas do homem e se fundam tanto na arte ocidental e oriental quanto nas tradições espirituais como o zen budismo, o sufismo islâmico e o misticismo cristão. Apesar das 20 peças magistrais (de 1977 a 2013), mais de 30 telas e telões, e quase 7 horas de vídeo – alguns realizados em Hollywood –, a retrospectiva inaugurada esta semana no Grand Palais (em cartaz até o dia 21 de julho) é uma "pequena" amostra da obra monumental que o levou a ser considerado o maior videasta de todos os tempos.

Não se trata de um retrospecto histórico, como estamos acostumados a ver. Segundo o artista e sua mulher Kira Perov, principal colaboradora e diretora do Studio Bill Viola, "esta é uma mostra vista do interior, fundada em sentimentos". De fato, a exposição inteira é uma única instalação organicamente coordenada, onde as peças – quando não são sincronizadas e diretamente interativas – comunicam-se de alguma maneira entre si, formando um só corpo no qual submergimos para depreender os seus significados.

Aqui, estamos num domínio mais complicado e talvez ainda mais rico do que o cinema. O que explica porque, na verdade, os únicos "curadores" de todas as exposições de Bill Viola foram eles mesmos e porque geralmente os autodenominados ou designados "comissários" não precisaram necessariamente ser críticos e/ou historiadores. Bastava que fossem apenas organizadores e "executantes", como é novamente o caso. São raros, mas existem artistas que não precisam de verdadeiros curadores que saibam "pensar" e "olhar" os seus trabalhos.

Bem mais do que uma simples visita, este é um mergulho metafisico (e existencial) no universo do artista e, ao mesmo tempo, uma profunda imersão na linguagem do vídeo como forma vital e completa de arte contemporânea, onde tecnologia, conteúdo e história clássica estão entrelaçados. O percurso, inteiramente obscurecido por exigência de uma cenografia rigorosa, só é interrompido nas passagens de suas três partes, pontuadas por frases do artista e de William Blake.

Quatro décadas da obra deste discípulo pioneiro de Nam June Paik estão representadas. De The Reflecting Pool (1977-79) até The Dreamers (2013), Bill Viola insiste na mesma interrogação sobre a vida, o nascimento, a morte, o renascimento, a transcendência, a fluidez, a recursividade, o tempo e o espaço. A lentidão exasperante dos vídeos é muito significativa. Não é por acaso que a mostra se encerra com Os Sonhadores, onde pessoas dormem embaixo da água. É uma obra que poderia ser autorrepresentativa: o artista, como xamã, recebendo as visões dos seus sonhos para torná-las visíveis aos homens.

Muitos trabalhos possuem claras referências pictóricas ao Quatrocento na Itália e na Holanda, e às paisagens que o artista conheceu de perto. Persistem em tocar na temática essencial da materialidade, luz, quatro elementos, relação do homem com o mundo, percepção e conhecimento. Viola procura um fundo simbólico e mítico comum à humanidade, seja quais forem as particularidades de cada religião. Por isso, as suas imagens não apenas provocam os nossos sentidos para compreendermos o que caracteriza a vida humana, como às vezes constituem uma verdadeira experiência mística que nos leva além dela.

Em 1994, Viola expôs no CCBB do Rio (Território do Invisível) e em 1995 conheci-o na 46ª Bienal de Veneza, onde ele representou os Estados Unidos com a obra Buried Secrets. No ano seguinte, visitei as instalações The Crossing (1996) e The Messenger (recém-criada para a Catedral de Durham, na Grã-Bretanha), ambas na capela do Hospital Salpetrière, em Paris. Todos estes trabalhos extraordinários procuravam símbolos, sons e imagens naturais, iam muito além da sofisticação tecnológica, mas o de Veneza era tão impressionante que quando vi o artista preocupado, sentado num banquinho com a cabeça entre as mãos, não pude me impedir de lhe dizer isto.

Tímido e modesto, Viola respondeu: "Obrigado. Mas existem ainda uns problemas técnicos que não foram resolvidos". Então, ele me pegou pelo braço e entramos no pavilhão americano, onde, num grande painel, projetava-se o vídeo gigante das imagens das gotas que caiam de fato num balde de água no meio da sala. "Está ouvindo o som das gotas que caem?" Era um som normal, um pouco ampliado, de gotas que despencam lentamente, uma a uma. "Não é assim?", perguntei. "Não, o som verdadeiro não é esse." Voltei no dia seguinte. O defeito já tinha sido consertado. Agora, cada gota ressonava como uma bomba!

Aturdida, saí para os Giardini, sentei-me na grama e só então entendi que Bill Viola, por sua compreensão de nossa infinitesimal e efêmera presença no universo, é como Baudelaire e as suas "monadas solitárias", expressão com a qual descrevia as gravuras de Goya. O poeta sempre disposto a ler o grande no pequeno.

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