Artigas o nascimento de uma nação

Longa de César Charlone retrata o mito do herói da independência uruguaia

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2012 | 03h10

"Pobre do povo que precisa de um nome ou um homem", diz José Artigas em certo ponto do filme Artigas - La Redota, que integra o 7.º Festival do Novo Cinema Latino-Americano e tem sessão no Memorial da América Latina no sábado, às 21 horas. Militar uruguaio considerado herói nacional por lutar pela independência de seu país, Artigas é praticamente um pai da pátria e é, no mínimo, irônico que o próprio questione a validade da necessidade que os povos têm de criar mitos em quem depositar a honra de uma nação.

É destas, e de outras, colocações livres do diretor César Charlone e do roteirista Pablo Vierci que se faz este longa que investiga quem foi afinal José Gervasio Artigas (1764-1850), líder crucial na batalha contra os colonizadores espanhóis pela emancipação do Uruguai. Projeto que integra a série Libertadores, da Televisão Espanhola (TVE), com as produtoras Wanda e Lusa Films, sobre os grande heróis latino-americanos em ocasião dos 200 anos das guerras de libertação, Artigas tinha tudo para ser mais um "filme histórico chato", como diz Charlone.

Mas caiu nas mãos deste uruguaio que faz cinema brasileiro, Como bem diz Gunzán Larra (vivido por Rodolfo Sancho, outro personagem do filme (que faz o militar, e espião infiltrado pela coroa espanhola, que planejava assassinar Artigas), a verdadeira riqueza de um povo não é o ouro e a prata que os colonizadores vieram buscar. É seu povo e sua mistura. Qualquer semelhança com o caldeirão étnico brasileiro não é mera coincidência.

E é no caos formado por um povo composto de índios, gaúchos, paisanos, militares desertores, africanos, que está a beleza da população que precisa de Artigas para formar uma nova nação, que "será o que quiser, será americana".

É também no olhar de um pintor incumbido de retratar a figura de Artigas a pedido do governo do Uruguai em 1884, 34 anos após a morte do herói, que se forma este país e esta história. "O pintor, Juan Manuel Blanes tinha sido contratado para pintar, e criar, uma figura do Artigas. Mas como saber como ele era de verdade? A única referência que tinha era um retrato feito 72 anos antes justamente por Gunzán Larra, que se disfarçou de jornalista para se infiltrar em La Redota, o acampamento, o refúgio e a república utópica criada por Artigas e seus companheiros", explica Charlone, que, fazendo jus à afirmação inicial, em vez de depositar em um mito, ou um único herói, escolhe a arte (no caso, o pintor Blanes) como protagonista de seu filme. "É o único da série Libertadores, que também inclui Tiradentes, Simón Bolívar e San Martín, em que o protagonista é um artista", diz o diretor.

Em tempos em que os Libertadores estão mais associados ao campeonato de futebol que às figuras históricas, a escolha de Charlone é, no mínimo, simbólica. "Se a gente observar as nações mais antigas, ou talvez mais maduras, como Japão, as escandinavas, a francesa, no que o povo deposita sua pátria? Não é em um salvador, mas na cultura em geral, na arte... O que restou da França? O que é mais forte? A imagem de Napoleão ou a herança da arte francesa? Da Alemanha? É a arte que fica", defende ele, que foi buscar também na arte, a sétima arte, a inspiração para estruturar seu roteiro. "Pedi licença a Apocalipse Now para criar a figura de Larra, este inimigo que começa a história repetindo todos os clichês que se costumavam repetir quando o assunto eram os rebeldes que ousavam se levantar contra as coroas ou as colônias. Aos poucos, ao conviver com a profusão de tipos, culturas, línguas e ideias que integram o grupo de Artigas, vai formar a própria opinião."

Assim faz também o espectador, que forma sua opinião a respeito de um herói, no mínimo, controverso. "A figura de Artigas, assim como o quadro que Blanes pinta, é criada na cabeça de cada um. É quase um personal Artigas. Sua figura e sua importância já foram evocadas tanto pela direita quando pela esquerda uruguaias", diz o diretor, que chegou a pensar em não lançar o filme nos cinemas do Brasil. "Estamos numa fase ruim de público. E o preconceito com o filme histórico é grande. Pensei em lançar direto em DVD, mas a Panda Filmes, de Porto Alegre, vai distribuir. Passa em agosto em Gramado e em seguida deve estrear. Fiquei feliz."

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