Artificialidade teen

Malhação, no ar há 17 anos, sofre por não retratar o real universo do adolescente

GABRIEL PERLINE, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2012 | 03h11

Paranormalidade, mistério, favela, pagode e faculdade. Temas e cenários incomuns para a novela Malhação. E foi nesse universo que Ingrid Zavarezzi, autora da 19ª temporada da trama, encerrada na sexta-feira passada, tentou fazer o que a TV Globo anuncia à exaustão nas últimas semanas: uma nova Malhação.

Não deu certo. A temporada teve o pior registro de audiência da história no dia 20 de fevereiro, quando marcou 9 pontos no Ibope. Sinal vermelho na emissora. Era o momento de resgatar o bom e velho dramalhão teen que justifica seu espaço na grade desde 1995. "Já previa que isso fosse acontecer. Na época em que fiz o planejamento, expliquei que iria mudar muito a história. As pessoas não estavam esperando por esse tipo de produto, nesse horário e com esse nome. Em Malhação, as pessoas estão esperando a boa e velha Malhação. Não tinha um enredo em torno de um colégio. Foi uma coisa que a gente pensou e viu que não dava para continuar insistindo, porque o público não estava gostando, então resolvemos mudar. Mudamos, sem nenhuma perda de coerência, e trouxemos a trama para um enredo com mais jeitinho Malhação de ser. Rapidamente recuperamos essa audiência e caminhamos em crescente até o fim", disse a autora ao Estado.

Ricardo Linhares foi escalado para ajudar Ingrid a retomar o estilo tradicional da novela e, juntos, conseguiram recuperar o público perdido. Com pico de 22 pontos no Ibope, investindo nos romances e dramas familiares, a história voltou a agradar ao canal e à audiência. "Tive o desafio de renovar um produto que está há 17 anos no ar. Havia o público tradicional, que gosta de ver sempre a mesma coisa, e um novo público, que exigia algo diferente. Meu argumento foi baseado em um seriado noturno para jovens, que falaria a língua desse grupo. A direção da Globo achou que valeria adequar esse pensamento para a novela. Mesmo com o estranhamento causado no início, acabou dando uma 'sacudida' no formato e chamou a atenção. Mas toda história requer fidelização e esse horário em que Malhação está no ar é muito difícil, pois as pessoas estão chegando em casa", justificou.

Quem foi o grande vilão para a queda da audiência? "A classificação indicativa me prejudicou muito. Retratar o cotidiano do adolescente sem mostrar drogas, sexo, alcoolismo e brigas foi muito difícil. Busquei o caminho transversal, com brigas sem sangue, reuniões em bares com os personagens bebendo suco...sso trouxe uma certa artificialidade ao produto. Gostaria de fazer um programa para jovens em que pudesse falar com um pouco mais de liberdade", desabafou Ingrid.

Os filmes exibidos na Sessão da Tarde também foram apontados por Ingrid como colaboradores negativos para um bom registro de audiência. "Quando eu pegava algo como uma Lagoa Azul pela frente, sabia que teria problemas. Sempre ficava de olho para ver qual bomba me iria aparecer (risos). Tinha dias que eu pegava o Ibope na casa dos 11 pontos e em poucos minutos superava a barreira dos 20, entregando um bom público para a novela das 6. É muito cruel um produto tão curtinho conseguir essa façanha nesse horário."

Embora a repercussão do enredo não tenha sido favorável, Ingrid se diz satisfeita com o trabalho. "Faço um balanço positivo, porque foi tudo muito diferente. Terminei minha participação em Malhação muito feliz. Ganhei um elenco excelente para a história. Foi um grande presente." Novos trabalhos em vista na Globo? "Ainda não deu tempo para pensar no que vou fazer na TV. Meu contrato vai até abril de 2013, mas estou aqui para o que for necessário. Sou workaholic e não consigo ficar parada. Quero mergulhar de cabeça em um projeto que tenho para o cinema."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.