Arthur Omar transforma anônimos em ícones

Na origem, eram retratos em preto-e-branco de pessoas anônimas, maioria de instantâneos tomados durante o carnaval para o projeto Antropologia da Face Gloriosa, o mais conhecido work-in-progress de Arthur Omar, cujo início se deu em 1972. Agora, nas novas fotos da série Pele Mecânica, a cor é aplicada e saturada de tal forma que acaba por dissolver as partes constitutivas de cada um daqueles rostos. Bocas, narizes, dentes, olhos e pele perdem sua materialidade e se apresentam ao espectador como elementos fluidos, no limiar do desaparecimento. São esses trabalhos inéditos do artista carioca que serão exibidos no Foto Arte 2003, megaevento que ocupa 20 galerias, museus e espaços culturais de Brasília a partir do dia 16 de julho. As obras de Omar vão ser expostas no Espaço Cultural Contemporâneo Venâncio, mais conhecido como Ecco, o ativo centro coordenado por Karla Osório Neto na Capital, e que paralelamente também inaugura individuais de Miguel Rio Branco, Brígida Baltar, Enrica Bernardelli e Julio Grinblat. No total, os diversos locais integrantes do Foto Arte 2003 abrigam obras de cem artistas, caso de Alair Gomes, Cláudia Andujar, Cássio Vasconcelos, Rubens Mano, Rafael Assef, Vik Muniz, Waltercio Caldas, Vicente de Mello, Milton Marques, Alex Flemming, Nino Rezende e Luzia Simons, entre outros. Em Pele Mecânica, Arthur Omar, apoiado pela tecnologia, ataca o rosto como uma paisagem a ser transformada pela ação do artista, um campo de batalha onde as cores, impregnadas na pele, mesclam-se e criam improváveis zonas de intersecção, momento em que fica evidente o artificialismo cromático que o artista busca de maneira deliberada. Entre outros recursos, Omar cria cores "novas", não catalogadas pela escala de referência Pantone. É interessante notar o assombro nas expressões dos personagens fotografados, como se assumissem súbita consciência de terem sido capturados em seu anominato. A cor, neste caso, carrega estes rostos de insuspeitada dignidade, oferecendo a eles um lugar no mundo. "Na contramão do que fazia Andy Warhol e outros artistas da pop arte, eu transformo em icônicas figuras que não o são. A Antropologia da Face Gloriosa possui as suas próprias Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor, os seus John Kennedy e Elvis Presley. Investidas de cor, são as minhas figuras emblemáticas." Segundo Arthur Omar, também podemos ver esta sua recente experiência como um mergulho no universo cromático musical. "Não à toa, eu batizei cada um destes grupos de imagens de coros angelicais, alguns com até cinco, oito vozes, cada um com uma cor diferente. Há também imagens solistas. Eu descobri que são anjos, porque são figuras que não nos desejam. Eles não olham para a câmera, e assim reafirmam sua conexão com um mundo diferente do nosso", afirma o artista. LisboaPhoto - As imagens de Pele Mecânica chegam a São Paulo até o fim deste ano, em exposição na Galeria Nara Roesler. Antes disso, é a vez de Portugal receber os trabalhos de Arthur Omar. No dia 4 de junho começa a primeira edição da Bienal de Fotografia de Lisboa, a LisboaPhoto, que abre as portas para uma individual do artista. No Pavilhão de Portugal, serão exibidas 150 imagens em preto-e-branco da Antropologia da Face Gloriosa - uma delas escolhida para ilustrar o cartaz de divulgação do evento promovido pela prefeitura lisboeta.

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