Arthur Omar abre sua "exposição de câmara"

Em Frações da Luz, sua primeira mostra em uma galeria comercial, o multiartista exibe, em caixinhas fosforescentes, seqüências de imagens de pequeno formato, no limiar entre o figurativo e o abstrato. Quem passar de carro ou a pé na altura do número 655 da Avenida Europa poderá ver uma das novas obras de Arthur Omar. Toda a fachada de vidro da Galeria Nara Roesler (8 m de comprimento por 2 m de altura) está recoberta por 14 imagens ampliadas da série Boquinhas Pintadas. "Apliquei no espaço arquitetônico o mesmo princípio das caixinhas fosforescentes. A instalação vai transformar a galeria numa grande caixa de luz", conta ele.A obra faz parte da nova série de fotografias criada pelo incansável artista plástico, em que o movimento distorce, embaralha e embaça as imagens, até que elas se transformem em abstrações, para em seguida assumir de novo sua forma natural. Ao espectador caberá reconstruir o sentido inapreensível destes corpos e objetos em permanente estado de decomposição.Frações da Luz é a primeira exposição de Arthur Omar em uma galeria comercial em 30 anos de carreira - ele que já esteve na Bienal de São Paulo, no MAM (do Rio e de São Paulo), Bienal de Havana, Centro Georges Pompidou e já ganhou duas retrospectivas no MoMA de Nova York, em 1990 e 1999.Esta individual é também uma mudança em sua produção recente: sai de cena a grandiloqüência das videoinstalações e o impacto das enormes ampliações fotográficas, que dão lugar a pequenas caixas-luz, brilhando discretas no escurinho da galeria, no que pode ser chamado de uma "exposição de câmara". São 23 caixinhas fosforescentes, cada uma delas contendo uma seqüência horizontal (13 cm de altura por 1 m comprimento) de sete fotografias.Na visão do artista, cada imagem é um recorte transversal, uma "seção de tempo", fruto de uma conexão íntima dele com o objeto fotografado. Como uma "foto da aura", em seqüência, estes instantâneos teriam o poder de, senão revelar, pelo menos chegar perto da verdade daquele ser, da maneira única com que ele se mostra ao mundo.Desconstrução - Obsessivo em sua pesquisa, o artista decidiu desconstruir os movimentos. "A única maneira de representar o fluxo de forma convincente é segmentá-lo", diz ele, "em partes que tenham alguma concretude e estabeleçam pequenas diferenças entre si, de tempo e de forma." O objetivo, segundo Omar, é o resgate da experiência intensa que é estar nesse fluxo, um dado da vida contemporânea do qual não podemos escapar.Para ele, o deslocamento de um corpo carrega momentos de invisibilidade, fragmentos que somos incapazes de enxergar. As caixinhas de luz podem ser vistas como uma sucessão de partes do movimento que estavam em suspenso, mas que foram "recolhidas" pela câmera do artista. As caixinhas mostram essas "capturas de objetos": figuras do carnaval, fios girando, corpos, paisagens e decomposições de processos meteorológicos, como o nascer e o pôr-do-sol. "Ao olhar para um personagem, não estou interessado no que ele tem em comum com os outros, nos clichês da sua natureza", diz o artista, "mas na radical diferença que faz dele aquilo que ele é, sua característica singular e não-reproduzível". "Eu busco seres em que esta diferença esteja mais marcada, que ostentem sua singularidade da maneira mais poderosa possível." Arthur Omar assume como uma de suas referências neste novo trabalho as seqüências do movimento realizadas por Eadweard Muybridge (1830-1904) no fim do século 19. Contudo, a aproximação com o fotógrafo inglês se dá mais por oposição que por afinidade. A relação de Omar com Muybridge vem desde 1997, quando ele prestou uma homenagem ao inglês no vídeo Muybridge/Beethoven, que fragmenta as nove sinfonias à maneira de uma seqüência muybridgiana."No início da minha carreira, eu me via como um Muybridge da abstração. Se ele sempre trabalhou sobre corpos, em representações figurativas, eu buscava segmentações de formas abstratas. Ou os momentos em que a forma está em processo de constituição, no limiar da abstração", compara Omar. "Muybridge estava interessado nas frações de movimento que, de outra forma, seriam invisíveis a olho nu. Ele te oferece uma reconstituição cinematográfica. Já meu trabalho opera sobre sobre variações quase imperceptíveis", diz o artista. "Às vezes, elas se apresentam como a mesma imagem repetida, mas não são. Funcionam como pequenas armadilhas para os olhos." O artista brasileiro parte do fragmentário, mas seu maior desafio é reconstruir a experiência, não apenas fracioná-la. Este é último fim de semana para visitar a instalação Fluxus e a exposição de fotografias O Esplendor dos Contrários no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro de São Paulo. O trabalho de Arthur Omar também poderá ser visto durante a 25.ª Bienal, a partir de 23 de março. O artista foi selecionado para o módulo Cidade Utópica e deve comparecer com uma videoinstalação.

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