Arthur Clarke: 'Escrever é hobby; se dá dinheiro, muito bem'

Em entrevista publicada no 'Estado' em 2000, o escritor fala de sua vida e obra em sua casa no Sri Lanka

Entrevista com

18 de março de 2008 | 20h00

A entrevista a seguir foi publicada originalmente no Caderno2 de O Estado de S. Paulo em 11 de novembro de 2000 e traça um retrato do escritor Arthur C. Clarke, morto nesta terça-feira, 18, ao 90 anos, após complicações respiratórias.  ______________________________________________________________________________________________ Arthur Clarke agora viaja pelo ciberespaço  Aos 82 anos, o ficcionista inglês, autor de '2001, uma Odisséia no Espaço', vive no Sri Lanka, publica novo romance e conta que uma das novidades da tecnologia que ele ajudou a criar chega a atrapalhar sua produção literária, pois é imensa a quantidade de e-mails que recebe Sir Arthur C. Clarke está exausto. "Acabo de fazer um vídeo para a TV australiana", diz ofegante, sentado na cadeira de rodas. "Meu secretário-executivo está fora, organizando conferências que darei na ONU. Não posso falar com você por muito tempo." Estava vestido com um sarongue verde e uma camisa havaiana de iatismo. Não calça absolutamente nada. E está prestes a ir tirar a soneca de todas as tardes.  O motivo para o mais famoso futurologista concordar, aos 82 anos, em dar mais uma entrevista ("Estou farto delas", resmunga) é a promoção de seu mais recente livro, The Light of Other Eyes. Logo se torna evidente que Clarke já enjoou desse projeto. "Depois desse, já escrevi três livros", suspira, girando a cadeira para verificar se há correspondência em sua caixa postal eletrônica. Pena que tenha desanimado, porque esse livro não é apenas bom - mas divertido, abrangente e brilhante em algumas partes.  A casa de Clarke no centro de Colombo, capital do Sri Lanka, é rodeada por um alto muro e uma cerca elétrica. Sentado à mesa do escritório, entre três computadores e um gigantesco rádio de ondas curtas, Clarke explica que são todas suas as "idéias" contidas na obra. A maior parte, no entanto, é escrita por outra pessoa - neste caso, por Stephen Baxter, de 42 anos, decano da ficção científica britânica moderna e fã de Clarke. Os dois autores produziram o texto com grande esforço, trocando uma série de e-mails. Contudo, Foi Clarke quem propôs a WormCam, um dispositivo visualizador dotado de localização temporal, que elimina a privacidade, as biografias inventadas e os crimes sem solução.  O livro, com a concepção de uma sociedade incansavelmente voyeurista, inclui uma memorável cena de sexo no ano 2041 sobre um banco. Pergunto quem escreveu as cenas de sexo: "Fui operado de câncer da próstata há dez anos", diz Clarke. "Não tenho o menor interesse por sexo. Mas a gente tem de manter-se em dia com a realidade." Faz uma pausa por um momento. E acrescenta: "Não publique isso."  A HarperCollins, de Rupert Murdoch, está lançando o romance. O malvadão principal é Himal Patterson, magnata megalomaícao da mídia, que inventou as WormCams (que podem ligar um ponto no espaço a qualquer outro) simplesmente como meio de obter as notícias no momento em que ocorrem. Clarke concorda em que "há certos traços de Murdoch" no visionário maquinador Himal. Escândalo Rupert e Arthur são bons amigos. O autor de 2001: Uma Odisséia no Espaço enfrentou o momento mais delicado de sua vida três anos atrás (1997), ao ser atacado pelo Sunday Mirror. Murdoch escreveu um recado "muito simpático’ para ele, prometendo-lhe que os repórteres responsáveis por aquilo jamais trabalhariam de novo na Fleet Street. "É uma pessoa modesta, um tanto tímida", diz Clarke, provocadoramente. "Eu o considero diferente, especial."  O Mirror afirmou que Clarke pagou a meninos para fazer sexo com eles. Apresentou depoimentos dos meninos. A polícia do Sri Lanka, mais tarde, provou a falsidade das declarações, diz Clarke. A matéria saiu duas semanas antes de o príncipe Charles viajar para Sri Lanka, a fim de armá-lo cavaleiro do Reino. O caso foi o ponto mais baixo de sua carreira. Num banquete em sua homenagem, Clarke, que tem uma síndrome de seqüelas da poliomielite, teve de fugir da imprensa mancando, perseguido por um repórter pegajoso do Daily Telegraph. O episódio ainda o deixa transtornado.  "Desaprovo profundamente a conduta de gente que tem envolvimento suspeito com rapazes", diz Clarke. "Tudo isso foi constrangedor para mim. Foi vingativo e muito desagradável. Só posso presumir que se tratou de uma trama para deixar o príncipe Charles constrangido." O romancista foi feito cavaleiro, finalmente, em maio deste ano, durante cerimônia sem pompa, realizada no alto comissariado britânico (equivalente a uma embaixada), em Colombo.  A vida privada de Clarke permanece envolta em mistério. Foi casado por um breve período com uma mulher que conhecera quando mergulhava na Flórida nos anos 50, a norte-americana Marilyn Mayfield, já falecida. Quando lhe perguntam se é gay (palavra de duplo sentido: homosexual e alegre), Clarke sempre sempre dá a mesma resposta chistosa: "Não, apenas cheerful" (alegre, mas no sentido de animado). A resposta possivelmente esteja nos "Clarkives" (Clarquivos, arquivos de Clarke) - vasta coleção de originais e escritos privados, que serão publicados 50 anos depois de sua morte.  A gente desconfia que Clarke não foi pessoa de fácil convivência, coisa que acontece com a maioria dos obsessivos brilhantes. O escritório é hoje um templo para ele. Há fotos de gente famosa que já se esperava ver ali (o astronauta Buzz Aldrin, o ator de Jornada nas Estrelas, Patrick Stewart) e fotos inesperadas (Elizabeth Taylor). Na parede, há fotos da Lua e de descidas da Apolo. A enorme estante é dedicada às obras do próprio escritor.  Clarke foi criado numa fazenda em Minehead, condado de Somerset, no sudoeste da Inglaterra, e logo se tornou extraordinariamente famoso. Escreveu mais de 80 romances, que venderam 50 milhões de exemplares. Em 1945, aos 28 anos, redigiu um ensaio para o Wireless World, em que criou o conceito de satélites de comunicações. Sua fama alcançou um vertiginoso apogeu nos anos 50 e 60, quando se tornou realidade a era espacial que confiantemente antecipara. Então veio 2001: Uma Odisséia no Espaço, história escrita por Clarke e filmada em 1968 por Stanley Kubrick, que o transformou num nome amplamente conhecido. Hobby Pensou em chegar a isso? "Jamais pensei chegar a um sucesso medianamente razoável. Escrever foi sempre um hobby prazeroso. Se rendeu dinheiro, muito bem." O sotaque ainda é nitidamente do oeste interiorano. Antes de rodar a cadeira para ir tirar a sesta, conta que as maiores influências em sua carreira foram H.G. Wells e o semi-esquecido contemporâneo Olaf Stapleton. Para sua tristeza, não conheceu Wells pessoalmente. Na pré-adolescência, Clarke - aluno precoce do ginasial - lia Guerra dos Mundos sentado a uma banqueta na biblioteca escolar. "Com certeza o bondoso administrador precisou destruir o livro depois, tão sujas eram minhas mãos, por causa do trabalho na roça", relembra o escritor.  Devorou revistas de ficção científica e O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle ("um clássico do gênero"). Leu também Júlio César, sonetos de Shakespeare, The Pickwick Papers, a Bíblia, poetas georgianos e A. E. Housman. Ainda não conseguira ler Hamlet. "Não li T. S. Elliot, menos ainda Larkin", acrescenta. Depois de deixar o ginásio, Clarke conseguiu emprego na repartição nacional de auditorias. Ao começar a guerra, já estava redigindo documentação técnica - e seus primeiros contos de ficção científica.  Quando evacuaram sua unidade civil para a Baía de Colwyn, no norte de Gales, a perspectiva era o recrutamento; em vez disso, passou a integrar a equipe secreta de cientistas que trabalhavam no radar. Os dias deixavam sobrar muito tempo de folga para escrever. "Eu era um covarde empedernido. Nunca me expus ao perigo. Ficamos muito longe da ação", recorda Clarke. Quando a guerra terminou, matriculou-se no King’s College de Londres, para fazer matemática e física. Para mostrar-me uma fotografia dos tempos de universidade em 1947, chama um de seus assistentes. De óculos, Clarke é fácil de reconhecer instantaneamente: calvície começando, braços cruzados, terno pesado e gravata de listras. Em quatro anos mais, tornar-se-ia escritor profissional.  Clarke deixa claro que está farto da minha presença. Precisa falar com Alastair Cook em seguida, diz. Às tardes, desce ao clube para uma partida de tênis de mesa. Vive no Sri Lanka desde 1956, quando fez uma parada no que então era o Ceilão para dar uns mergulhos aproveitando as férias. Não sai muito nestes dias e passa a maior parte do tempo na casa que divide com Hector, seu sócio comercial. Serve de avô para as três filhas de Hector, Cherene, Tamara e Melinda, que descreve como "as meninas dos meus olhos".  Desde que as duas meninas mais velhas viajaram para estudar na Austrália, Clarke confessa que as coisas ficaram ‘um tanto solitárias’. Para cuidar da correspondência dos fãs e dos pedidos de entrevistas, tem sete assessores - incluindo um secretário particular, apolítico, chamado Lênin. Possui um chihuahua de estimação chamado Pepsi. "Estou surpreso por você não ter sido atacado pelo meu chihuahua assassino", diz. É uma existência excêntrica de solteirão, artificial e egoísta, mas agora, aos 82 anos, por que não? Pouco antes das despedidas, dá meia volta na cadeira de rodas e se dirige até sua escrivaninha com aqueles três computadores e o mouse Logitech enorme.  Precisa verificar a correspondência eletrônica de novo. Muitas manhãs, ao acordar, o romancista enfrenta uma sobrecarregada caixa postal eletrônica, repleta de mensagens de fãs, amigos, cientistas, colegas escritores, jornalistas, agentes de publicidade e excêntricos.  É um correspondente eletrônico compulsivo. Muito do que é o século 20 - a corrida espacial, as alunissagens, os satélites, laptops e mesmo os e-mails - parece inconcebível sem sir Arthur C. Clarke. Nestes dias, entretanto, no contexto de uma geração que perdeu o interesse por viagens espaciais, não se pode evitar pensar que a tecnologia que ajudou a criar o escravizou de certa maneira. "A última coisa que escrevi foi um artiguelho de 500 palavras. Não é fácil escrever porque gasto um tempão cuidado dos e-mails."

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