'Artforum' ganha edição especial nos seus 50 anos

'Artforum' ganha edição especial nos seus 50 anos

Dedicada à arte contemporânea, revista é a porta-voz do que há de mais relevante na área

NATHALIA LAVIGNE - ESPECIAL PARA O 'ESTADO' ,

04 de setembro de 2012 | 03h10

NOVA YORK - Uma prateleira de proporções modestas quase não é notada quando se entra na sala de Anthony Korner, publisher e sócio majoritário da revista Artforum. Ela não parece tão atraente diante da vista do 19.º andar do prédio na Sétima Avenida de Nova York, contemplando o rio Hudson e detalhes arquitetônicos que parecem novidade observados daquela altura.

Mas a paisagem logo vira pano de fundo quando Korner começa a folhear os livros na pequena estante. São cerca de 50, com todas as edições da revista publicadas a cada ano. Ali estão desde os primeiros números, feitos ainda em São Francisco por jovens com muitas ideias e nenhum tino comercial para levar o negócio adiante, e algumas das capas que fizeram história.

Porta-voz do que há de mais relevante na arte contemporânea, trampolim para artistas em início de carreira e espaço em que crítica e mercado convivem sem interferências, a revista completa 50 anos em 2012. No início deste mês, a edição comemorativa chega às livrarias com mais de 500 páginas e textos assinados por cerca de 75 artistas e críticos sobre a relação entre arte e tecnologia e o que mudou neste meio século.

"Quando comecei a fazer a revista, a redação tinha cinco mesas, cinco ramais de telefone e uma máquina de escrever manual. É curioso como a tecnologia se desenvolveu tão rápido", lembra Korner. Hoje, junto com Charles Guarino, Knight Landesman e Danielle McConnell, ex-diretora comercial que entra para o time de publishers nesta edição, eles ocupam o andar inteiro do prédio na Sétima Avenida e comandam uma equipe de 60 pessoas, incluindo as redações da Artforum e da Bookforum, revista de literatura criada em 1994.

Recentemente, o grupo lançou um aplicativo com um roteiro dos principais museus e galerias do mundo. Em outubro, a publicação terá nova versão para celular e iPad. O site, com cerca de um milhão de visitantes por ano, também ganha cada vez mais importância, mas a revista impressa ainda é a queridinha dos publishers. "Mesmo com a tecnologia, a imagem na página ainda tem uma qualidade muito superior."

Enquanto folheia alguns dos primeiros números, ele também observa o volume de cada livro. Os tamanhos indicam as épocas de vacas magras dos anos 1990, quando houve uma das piores crises do setor, ou a bonança dos últimos quatro anos, com edições recheadas de anúncios dos principais museus e galerias do mundo.

"Em 2001, imaginávamos que passaríamos por uma fase ainda pior do que a dos anos 1990, mas nem o 11 de Setembro afetou tanto nosso trabalho", lembra o empresário inglês que, há 33 anos, trocou as oscilações de um banco de investimentos pelas variações do mundo da arte - ele comprou a Artforum em 1979.

É bom esclarecer que os maus momentos nesta área não correm em paralelo às regras econômicas. Em tempos amargos para a economia americana, a crise passou longe do mercado de arte - e a situação comercial da Arforum parece ir muito bem. Com uma circulação de 50 mil exemplares, a publicação segue alheia a qualquer crise no ramo editorial. Basta ver o tamanho das edições impressas, com mais de 300 páginas e uma impressionante quantidade de anúncios que garantem dois terços da receita da revista (a outra parte vem dos cerca de 25 mil assinantes).

Korner garante que a publicidade é consequência do sucesso da Artforum. "Só há tantas galerias querendo anunciar porque temos credibilidade."

É quase impossível separar o surgimento da publicação e seus primeiros anos da ebulição cultural americana daquela época, quando movimentos como o Minimalismo e a Arte Conceitual surgiam e sobrepunham-se com rapidez e voracidade. "Havia um incrível 'zeitgeist' nos anos 1960 que passava da pintura à escultura, do teatro à literatura e à música pop. Uma ótima época para se criar uma revista como esta", analisa o historiador e crítico Robert L. Pincus, do Museu de Arte Contemporânea de San Diego.

Também é o momento em que a crítica de arte começa a se firmar como uma disciplina acadêmica, ajudando a legitimar a produção contemporânea e a criar uma lógica de mercado. Mas os capítulos mais relevantes da história da Artforum aconteceram a partir dos anos 1980, com a revista já sob o comando de Anthony Korner. Foi quando ela ganhou boa parte da roupagem que tem até hoje, com uma cobertura internacional e as fronteira entre "high art" e "low art" propositalmente embaralhadas. A principal responsável por essas mudanças foi Ingrid Sischy, editora-chefe entre 1980 e 1988.

Mais de 20 anos depois de ter deixado a revista, a jornalista ainda fala animada sobre quando a noção de um espaço aberto para discussões, sugerida pelo nome Artforum, fez mais sentido do que nunca. "A ideia principal era abrir as fronteiras. E a primeira coisa que fizemos foi torná-la mais internacional."

O projeto de abertura incluía também uma nova maneira de classificar a arte contemporânea. Uma das edições mais marcantes da fase foi a capa de fevereiro de 1982, na qual uma modelo aparecia com uma peça do estilista japonês Issey Miyake. O tema da edição era justamente sobre as fronteiras invisíveis entre a alta cultura e a cultura de massa - naquela época, dizer que a moda tinha qualquer coisa de arte poderia soar absurdo.

O mesmo número trazia ainda um trabalho de Andy Warhol criado especialmente para a revista, assim como um minidisco com a gravação de uma música da artista performática Laurie Anderson, também inédita e feita exclusivamente para a edição.

Ingrid também esteve presente em outro momento importante da Artforum, quando uma crítica da histórica exposição sobre arte primitiva do MoMA, em 1984, provocou polêmica sem precedentes, com réplicas e tréplicas em várias edições. Do crítico inglês Thomas McEvilley, o artigo sugeria que a mostra seguiu um viés paternalista ao tratar os objetos simplesmente como ícones visuais, como se a arte primitiva se resumisse às iconografias que inspiraram a arte moderna. "Foi importante apontar que essas peças não eram apenas objetos formais, tinham funções históricas."

Leveza. Na década de 1980, o texto se tornou mais palatável - o que logo ficou para trás quando a italiana Ida Panicelli assumiu a edição, em 1988. Em 1992, sob o comando de Jack Bankowsky, um dos fundadores da Bookforum, a linguagem voltou a ficar mais leve. Mas, nos últimos anos, o tom rebuscado voltou a ser motivo de crítica.

Respeitada no circuito da arte contemporânea, a atual editora-chefe, Michelle Kuo, defende uma revista mais leve e retomou a ideia de convidar artistas para criar trabalhos exclusivos. "É possível tornar o conteúdo acessível para um público leigo sem diminuir o nível intelectual. Mas isso não é algo que conseguimos fazer ainda", admite Korner.

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