Brendan Mcdermid/Reuters
Brendan Mcdermid/Reuters

Artesão do suspense

John Banville, que estará na Flip em julho, volta ao gênero policial em O Cisne de Prata, que ele lança com o pseudônimo de Benjamin Black

Ubiratan Brasil, de O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2013 | 02h12

Admirador da obra policial de George Simenon, o escritor irlandês John Banville decidiu se aventurar pelo gênero. Banville é um artista inquieto - ex-crítico e subeditor do jornal Irish Times, sua meta sempre foi a de escrever uma ficção tão densa quanto a poesia, o que resulta em textos refinados, pontuados por expressões pouco usuais. No romance noir, no entanto, Banville decidiu ser um artesão e, para isso, escolheu um pseudônimo, Benjamin Black.

É sob essa alcunha que ele lançou três livros, dois já editados no Brasil pela Rocco: O Pecado de Christine e, agora, O Cisne de Prata. Em todos, desponta a figura do patologista Garret Quirke que, na Irlanda dos anos 1950, descobre-se preso a uma intrincada teia de romances e adultérios.

Banville, que vem para a Flip em julho, ganhou o Booker Prize de 2005, o maior prêmio literário inglês, pelo maravilhoso O Mar (Nova Fronteira), em que utiliza os detalhes para mostrar como um homem procura viver o presente e o futuro no passado. Influenciado pelo realismo sofisticado do americano Henry James, o autor irlandês habitualmente é associado a mestres da literatura moderna como Samuel Beckett, James Joyce e Vladimir Nabokov.

Ele sempre rejeitou, porém, o rótulo de pós-moderno. Tampouco aceita a noção de inspiração divina - para ele, escritores são pessoas normais, talvez ligeiramente mais obcecadas, como mostra na seguinte entrevista, concedida por e-mail.

Por que o senhor inventou Benjamin Black? O processo de Black é realmente tão diferente do processo de John Banville?

Há cerca de dez anos, um amigo meu, o filósofo inglês John Gray, recomendou que eu lesse os livros de George Simenon. Eu não tinha lido nada de Simenon, achando que ele era apenas o inventor de Maigret. Mas John destacou que o que Simenon chamava de "romans durs" ou policiais de fundo psicológico, mereciam realmente atenção. Li Dirty Snow (A Neve Estava Suja), numa nova edição da New York Review Books, e fiquei surpreso com sua qualidade. Então, procurei todos os livros de Simenon disponíveis em inglês e os li todos. George Simenon era um grande escritor, e pelo menos uma meia dezena destes livros, como Monsieur Monde Vanishes (A Fuga do Sr. Monde) e The Strangers in the House (Estranhos em Casa), são obras-primas da ficção do século 20. Nessa ocasião, eu havia escrito um policial para a televisão que nunca foi produzido e decidi transformá-lo num romance à la Simenon. Foi assim que nasceu Benjamin Black. Sim, os livros de Black são totalmente diferentes e separados dos de Banville. O estilo é diferente, o conteúdo é diferente, a aspiração é diferente. Os livros de Black são obras de artesão, os de Banville são... algo mais.

De onde surgiu Quirke, seu herói?

É impossível dizer de onde saem meus personagens. Eu queria um protagonista que não se parecesse comigo, dentro do possível, e Quirke com certeza é assim, embora seja uma espécie de manifestação do meu Id, no sentido freudiano, Por outro lado, eu não sou freudiano...

Existe uma profunda relação entre literatura e um romance de suspense sobre psicanálise, no sentido de que sempre há, em ambos, uma verdade escondida que deve ser revelada?

Nunca pensei nisso antes. Como disse, não sou freudiano, mas certamente o gênero do romance policial permite ao escritor explorar - ou, para ser menos portentoso, escrever sobre - o lado negro dos assuntos humanos e da personalidade humana. Todo mundo tem um segredo - todo mundo -, embora alguns segredos sejam mais negros e estejam mais profundamente ocultos do que outros. Quirke, um homem com muitos segredos, tem uma compulsão para descobrir os segredos dos outros. A curiosidade, eu acho, é que mais o estimula.

Leonardo Sciascia costumava dizer que o romance policial é um veículo para abordar problemas de identidade. O senhor concorda? Que gênero de policial o senhor gosta?

Gosto do trabalho de Sciascia, mas não sei se ele está certo quanto à busca de identidade. Busca da identidade de outros talvez. Os escritores de romances de suspense que gosto são os que não se imaginam psicólogos. Raymond Chandler, Dashiell Hammett, James M. Cain, Richard Stark são os que mais admiro.

Muitos escritores acham que o romance, como visto hoje, mesmo nas suas formas menos convencionais, deve muito à novela policial, que sempre manteve a necessidade de categorias muito claras: personagens, pesquisa, ação, conclusão. O senhor concorda?

Sim, é o que penso. Veja, por exemplo, o trabalho de prosa de Beckett, com certeza na sua fase intermediária. Beckett foi um aficionado dos romances noir franceses e seu trabalho de ficção reflete isso. Molloy é sob muitos aspectos uma história de detetive, até mesmo com uma reviravolta, uma maravilhosa reviravolta, nas últimas sequências. E veja How It Is, um dos seus textos mais severos, em que no fim descobrimos que o narrador, que durante toda a história refere-se a diversos outros personagens, na verdade está sozinho na lama. É um final tão surpreendente quanto inóspito como numa ficção policial. E depois temos Dostoievski...

O senhor acha que os escritores têm uma obrigação moral para com seus personagens e seus leitores?

Claro que não. A única obrigação que o escritor tem é de se esforçar para escrever obras-primas. O artista é amoral e tem de ser assim. Por outro lado, o trabalho artístico é um objeto moral, pela simples razão de que ele representa o melhor que o artista pode realizar. E naturalmente é inteiramente honesto - uma obra de arte desonesta é impossível.

Qual a função da violência na sua obra?

Na realidade existe muito pouca violência nos meus livros de Benjamin Black. Na verdade, suspeito que há mais violência nos romances de Banville. Veja, por exemplo, O Livro das Provas. O aspecto mais desalentador na ficção noir é que no romance policial tem de haver um crime. Essa é uma limitação que considero frustrante. Tenho a ambição de escrever um romance que não envolva um crime. Cheguei perto disso em Elegy for April, em que não existe nenhum cadáver e a suposta vítima no centro da história pode não estar morta, de maneira nenhuma.

O senhor se vê como um escritor político ou acha que os escritores são criaturas necessariamente políticas?

Certamente não. Você não pode misturar política e arte. Se tentar, ou a arte é prejudicada ou a política é ruim. E mesmo que considere que a ficção policial não é arte - como disse antes, veja meus livros de Benjamin Black como obra de artesão -, não acho possível um escritor de ficção policial ser conscientemente político. Os romances dos anos 1970, de Wahloo e Sjowall, por exemplo, podiam ser excelentes, mas são fatalmente imperfeitos por causa da determinação dos autores de serem "relevantes" para a política da sua época. Imagine um romancista na virada do século passado procurando comentar a Guerra dos Bôeres - quem leria os seus livros hoje? Pense no livro de Norman Mailer, Why Are We in Vietnam? Até o título é um desastre.

O que o senhor acha: o livro-objeto é realmente perfeito? Que complementos vê entre o livro clássico e a oportunidade oferecida pela mídia digital como nova maneira de leitura?

O livro é uma das maiores invenções da humanidade, um objeto que é prático e também belo. Não consigo ler livros usando a nova tecnologia - preciso ter o objeto físico em minhas mãos, portanto, não estou habilitado para comentar a respeito. O aparelho Kindle me parece algo inteiramente sem alma. Mas talvez eu esteja muito velho e profundamente arraigado aos meus hábitos.

O jornalismo narrativo americano é muito similar à ficção nos livros e se inspira no arco narrativo clássico. O senhor acha que ainda existe lugar para a narrativa deliberadamente literária? Que caminhos deverá seguir ou mudar no caso do jornalismo?

Muitos romances sem muita pretensão são jornalísticos nos seus métodos e muitos jornalistas medianos usam a ficção como modelo. Acho que existem menos bons jornalistas do que bons romancistas - mas então bons romancistas não interessam muito, não é? Quase todo mundo consegue escrever um bom romance, se colocar muito empenho nesse trabalho. Mas poucos, muito poucos escritores conseguem produzir um bom romance, e quase nenhum consegue realizar uma obra-prima.

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