Aveda/Divulgação
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Artesão da Palavra

Um dos maiores letristas do País, Aldir Blanc faz 65 anos sem receber devidamente por suas autorias

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2011 | 00h00

"Às vezes, de madrugada, eu cruzo comigo mesmo, mas finjo que não me conheço. Nem eu sei direito quem é esse tal de Aldir, sei que é um sujeito neurótico, quieto, grilado. Sem demagogia, eu encaro como uma homenagem ser um ilustre desconhecido." O depoimento é de Aldir Blanc, o Bardo da Muda, da Tijuca, que amanhã completa 65 anos, envolto em uma situação corriqueira entre grandes nomes do cancioneiro nacional: o descaso.

Cabotinismo e inflação do próprio ego definitivamente não fazem parte do caráter de Aldir. Considerado por muitos, entre eles Dorival Caymmi, que o batizou de "ourives do palavreado", como um dos maiores letristas do País, ao lado de nomes como Chico Buarque e Paulo César Pinheiro, Aldir tem quase 500 composições suas gravadas, pelo menos dez músicas de aberturas de novelas - fora os temas de personagens ao longo das tramas -, mas mesmo assim há anos começa diversos meses do ano com as contas no vermelho.

A exemplo de grandes compositores do passado, como Nelson Cavaquinho, Cartola, Noel Rosa e tantos autores do Estácio, que vendiam seus sambas a troco de alguns vinténs, Aldir também já teve de se desfazer de algumas de suas crias. Para se ter uma ideia, por apertos financeiros ele teve de vender para a Rede Globo os direitos sobre o termo "Globeleza" (que aparece no samba de Franco e Jorge Aragão) e sobre a famosa vinheta que antecede os jogos de futebol transmitidos na emissora. Há cerca de três anos ele não recebe nem mais um tostão por isso.

Injustiças sobre sua remuneração à parte, atualmente tem colocado a cabeça para pensar em projetos menos usuais. Em relação às composições, ele tem trabalhado com João Bosco (seu parceiro mais constante em toda a carreira), o pianista Cristovão Bastos e o cavaquinista Jayme Vignoli. "Eu e o João (Bosco) temos conversado e trocado muitas ideias. Não sentamos necessariamente para compor, mas é só querer, essas coisas vêm que nem enxurrada. Mas temos pensado em projetos mais ambiciosos e inéditos. O samba você compõe, grava no disco, depois ele é pirateado, cai na internet, não vende mais... Então, vamos logo fazer uma ópera (risos)", brinca Aldir.

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