Artesanal coreografia

Artistas aceitam o desafio de elaborar três versões de uma mesma obra

HELENA KATZ - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2013 | 02h10

Em tempos nos quais quase não mais existem grupos e a maioria entende que o único caminho possível na dança contemporânea é ser intérprete criador de suas próprias ideias, a discussão sobre o papel da coreografia é mais do que oportuna. Se você está ligado nisso, tem de amanhã até domingo para assistir ao projeto Investigações Dramatúrgicas, que Vanessa Macedo e a Cia. Fragmento estão realizando no Kasulo Espaço de Cultura e Arte, localizado na Barra Funda.

Quem está em cena não é a companhia, mas três artistas convidados reunidos no espetáculo Sem Título: Ângela Nolf, Lavínia Bizzotto e Roberto Alencar. Cada um aprendeu a mesma coreografia de 15 minutos criada por Vanessa Macedo e escolheu como vai apresentá-la. Ao fim de cada apresentação, está programada uma conversa com o público e os mediadores convidados (Rosa Hércoles, Bergson Queiroz, Sílvia Geraldi e Nirvana Marinho).

Em entrevista por telefone, Vanessa, que criou e dirige a Cia. Fragmento desde 2002, conta que tudo começou em 2011, quando convidou alguns artistas para fazerem uma intervenção em uma obra sua que estava estreando, Anjos Negros: "O espetáculo havia sido criado sem eles, e a proposta era que arranjassem um modo de dialogar com a obra, que já estava pronta. Essa experiência me levou a questionar se a artesania do ato de coreografar uma partitura que se fecha produz uma dramaturgia que se sustenta em ambientes diferentes daquele no qual foi criada. Para investigar isso, convidei três profissionais de formações inteiramente diferentes e que nunca haviam trabalhado juntos para lidarem com o meu modo de coreografar e o tipo de vocabulário que venho desenvolvendo".

A coreografia é a mesma, porém cada um vai encená-la do seu jeito. Os três trabalharam juntos de outubro até o fim de janeiro e também com membros da companhia. "Começamos com a metodologia de três duetos, nos quais um membro da companhia manipulava o convidado. Cada um dos três convidados tinha uma 'sombra', era um 'corpo junto'. A intenção foi a de produzir a sensação de, mais adiante, dançar com uma ausência, pois o manipulador desapareceria. Buscava testar os limites entre o que se entende por ser fiel e criar uma maneira própria de realizar o que já está pronto."

Vanessa, que tem uma longa trajetória de atuação em companhia, identifica a possibilidade de ser intérprete criador em uma coreografia fechada. Mas aponta a dificuldade, hoje em dia, em encontrar quem queira trabalhar assim. "Não se trata de repetir a coreografia como se fosse um trabalho braçal somente, mas de buscar o corpo presente a cada vez que se dança, seja uma coreografia ou algo sem partitura desenhada."

Deixando claro que não se trata de um work in progress, mas de um resultado cênico, explica a intenção do projeto Investigações Dramatúrgicas: "Minha pergunta é: que força tem a coreografia 'partiturada' na construção da dança?" Ainda sem resposta, tem uma grande curiosidade: "Será que o público vai reconhecer que se trata de uma única coreografia?"

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