Artérias da pedra e outros veios

Poemas do volume no qual trabalha atualmente o paulista Mario Chamie - ainda sem data prevista de lançamento -, após bem-sucedida incursão na prosa ficcional com Pauliceia Dilacerada (2009)

, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

AS ARTÉRIAS DA PEDRA

A pedra não filosofa.

Ela bloqueia no seu bloco

de pedra o pensamento

e a sua corda.

A pedra não acorda as coisas

nem dá corda

para metafísicas plangentes.

No seu bloco bloqueado,

a pedra dispensa a ânima

e o ânimo do fluxo líquido

das correntes.

A pedra não corre.

Ela se estaca

e se adensa

no lugar em que se assenta.

Quieta,

a pedra é menos lição

e mais experiência.

Contra ela batem coisas,

batem ventos

e batem outras pedras

diversas.

Mas ela não se move

nem se dispersa

em sua imóvel

siesta.

Nem no sono de sua siesta,

a pedra regurgita por dentro

algum pétreo

som de estômago.

Ou algum flúor

indômito

de qualquer ânsia

de vômito.

A pedra não metaboliza

nem expulsa seus alimentos

nos íntimos arcanos

de seu templo.

Ela concentra nos intestinos

de sua natureza

a cúpula fechada

e a argamassa espessa

de sua igreja.

Isto porque a pedra

mais dorme

do que come.

E o sono dela não é nem sonso

nem elétrico.

Seu sono de pedra

não é o sono épico

ou lírico

de um homem que sonha leve

e aceso.

Bem ao inverso,

seu sono,

de chumbo eterno,

é um sonho paralítico

e paquidérmico.

Tanto que,

silêncio calmo,

as artérias da pedra

são átomos

que, dentro dela,

não se explodem,

compactos que são

em seus ásperos

conformes.

Pois esta é a ciência

de seu nome: - a pedra

não tem as artérias

das árvores,

nem as artérias de nosso corpo

plantado nas veias

de nossa carne.

Dessa ciência,

a diferença nasce,

magna e plena,

entre a pedra

(com o minério esquivo

do seu todo exposto)

e a nossa carne

(com o mistério vivo

no peso de nosso corpo).

Por isso,

a diferença da ciência

da pedra

está no confronto

pronto de suas artérias.

E a diferença é esta:

- As artérias da pedra

só se fixam no todo

dos seus átomos exangues

e impávidos.

Assim inerte,

a pedra inscreve

o império

de seu monólogo fechado.

- As artérias do corpo,

ao contrário,

só se movem na carne

do nosso sangue

e seus intrépidos coágulos.

Assim ativa,

a carne aviva

o espelho

de seu diálogo sangrado.

A CHÍCARA

Chícara posta sobre a mesa.

Ela traz em sua alça

a nostalgia dos dedos.

É preciso muita mão

para alçar

a chícara à altura dos

seus penedos.

Não que o penedo seja

alguma

montanha que se busca.

A questão não é assim

difusa.

Antes de tudo, há a

chícara em si:

é porcelana, é louça?

É plataforma de formas

sobre o pires?

É a borra do café que

pousa para a leitura

dos elixires

de alguma sorte

sem rumo?

A chícara em si é e não é

o dado bruto de um

vácuo, cujo núcleo

não é o mundo

vago de uma sede vaga

e seca.

O oco da chícara dita

outra regra

sobre a mesa: -

a regra da ausência cheia

que, vazia, se preenche

por si mesma.

LIVRO ABERTO

A rua é um livro aberto.

O olho minúsculo de um pássaro

é um livro aberto.

A porta fechada de um quarto

é um livro deserto.

Tenho escrito palavras

de muitos livros refeitos

que, surdos e quietos,

tecem límpidos e claros

os seus herméticos enredos.

Na rua leio o que soletro.

No minúsculo olho de um pássaro

não leio o que vejo,

embora pássaros e ruas

me ensinem o que percebo.

Me ensinam, por exemplo,

o desterro aberto e refeito

de todo livro relido,

se atrás da porta fechada,

refaço o seu silêncio desfeito,

releio o meu silêncio perdido.

Nome: Mario Chamie

Idade: 77 anos

Origem: Cajobi (São Paulo)

Principais obras: Objeto Selvagem (Quiron/MEC, 1977), A Quinta Parede (Nova Fronteira, 1986), Caminhos da Carta (Funpec, 2002), A Palavra Inscrita (Funpec, 2004) e Pauliceia Dilacerada (Funpec, 2009)

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