Sérgio Neves/AE
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Arte urbana de Carmela Gross na mostra 'Corpo de Ideias'

Artista apresenta antologia de sua carreira na mostra 'Corpo de Ideias', na Estação Pinacoteca

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2010 | 06h00

Artista apresenta antologia de sua carreira na mostra Corpo de Ideias, na Estação Pinacoteca

 

Os vidros das grandes e belas janelas do quarto andar da Estação Pinacoteca não estão mais vedados. Agora, a cidade é vista de dentro do edifício e tanto a luz quanto a paisagem daquela região do centro de São Paulo entram naturalmente no espaço museológico, instigando uma relação aberta e intensa com um conjunto de obras de Carmela Gross. "Parece que o museu fica ensimesmado", diz a artista se referindo a instituições. Se desde a década de 1960 sempre ocorreu uma relação entre as criações de Carmela Gross com o urbano, seria inevitável que agora, na exposição antológica Corpo de Ideias, que ela inaugura neste sábado, 3, na Estação Pinacoteca, o mundo lá de fora fosse conectado com seus trabalhos.

 

De uma das salas da mostra, onde estão obras importantes da artista como Presunto (grande corpo amorfo de lona estofada) e A Carga - ambas de 1968 e exibidas na Bienal de São Paulo de 1969), A Negra (feita de estrutura de ferro e camadas de tecido), de 1997, vê-se lá embaixo, no pátio térreo nos fundos do prédio, o letreiro luminoso em vermelho Se Vende (com a mesma tipologia das famosas letras do Hollywood Hill), de 2008. Ele está na frente dos trilhos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que se conectam com o trabalho Alagados, de 2000, um caminho articulado de barras de ferro pelo espaço expositivo. "Todo esse embate, esse tensionamento com a cidade, é que possibilita o público a fazer relações", diz Carmela. "Interessava para nós (a ela e ao curador Ivo Mesquita) criar uma espécie de narrativa urbana e esse lugar é muito privilegiado."

 

É que mais do que apenas pela localização no centro da cidade - entre a Estação da Luz e a Estação Júlio Prestes -, entre prédios deteriorados e outros não, entre gente e trilhos, a Estação Pinacoteca está abrigada em edifício histórico, projetado no início do século 20 por Ramos de Azevedo. Ponto de chegada de imigrantes, depósito da companhia ferroviária que se transformou, entre as décadas de 1930 até os anos 1980 na sede do Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), era um centro de tortura na ditadura. Todas essas cargas e camadas se tensionam com a obra de uma artista como Carmela Gross - desde a sua "geração 60", a paulistana, nascida em 1946, une poética e construção em suas criações tão diversas potencializando algo de urbano, com diz, mas, mais ainda, dentro de tudo, um veio político natural.

 

"Toda arte é política, não há como não ser. Pode ser de direita, de esquerda, mais plácida, de alguém que toma partido, ou de quem não toma. Porque ela é produto da consciência humana", sintetiza.

 

Céus. A exposição Corpo de Ideias não é uma retrospectiva de Carmela Gross, mas uma exposição que propõe um percurso elaborado e preciso pela produção da artista desde os anos 1960 por meio de 16 obras, grande parte delas, de caráter instalativo. De um lado estão os trabalhos (já falados) que fazem uma relação direta - e até crua - com o urbano, que têm "a alma das ruas", mas de outro, num espaço leve e "quase voando" - porque na maioria se referem aos céus e ao voar -, estão os que tratam do aspecto conceitual na produção da artista.

 

O título da mostra, Corpo de Ideias, é o mesmo de um trabalho de 1981 da artista em que milhares de cópias heliográficas (em azul) de imagens de enciclopédias ficam sobrepostas sobre o chão. Foi apresentado no ano de sua criação no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP e está agora na Pinacoteca na mesma versão. "A obra refere-se à construção do visível pelo aparecimento de imagens", define o curador Ivo Mesquita.

 

Na parede frontal a esse trabalho está outro que é tão importante na trajetória de Carmela, Projeto para a Construção de Um Céu (1981-81), painel formado por 33 obras que marcam constelações no Hemisfério Sul (o em desenvolvimento) feitas com lápis de cor e nanquim sobre papel, concebidas como objeto da tese do mestrado que a artista defendeu na USP (onde é professora desde 1972). "Foi pensado como uma reflexão sobre o desenho e sobre o que significa projeto", diz Carmela. Fazendo a passagem entre os dois mundos da exposição, há ainda as obras Uma Casa (2006) e Hotel Balsa (2003).

 

 

 

 

Carmela Gross - Estação Pinacoteca. Largo General Osório, 66,

3335-4990. 10h/ 17h30 (fecha 2ª). R$ 6 (sáb., grátis).

Até 11/11. Abertura sábado,3, às 11 horas.

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