Arte russa se despede neste fim de semana

A exposição 500 Anos de ArteRussa, em cartaz até domingo na cidade, combina duas rarasqualidades. Além de traçar um perfil significativo da produçãoartística e cultural russa num longo período de tempo,permitindo estabelecer uma série de associações e diálogos entreas várias épocas e estilos representados, ela reúne um grandenúmero de obras-primas que, isoladamente, já constituem ummotivo mais do que suficiente para levar o público à Oca, noParque do Ibirapuera. Convém lembrar que este fim de semana amostra tem um atrativo extra: a entrada será gratuita. Para quem perder essa oportunidade, resta ainda apossibilidade de visitar o painel de cinco séculos de arteelaborado por meio de uma cuidadosa seleção feita no acervo doMuseu Estatal Russo, de São Petersburgo, folheando o catálogo defôlego realizado pela BrasilConnects, a instituição promotora doevento. Infelizmente, o livro, que reproduz todas as obra eainda traz uma série de textos complementares importantes, estásendo vendido apenas na Oca, pelo preço salgado de R$ 220 (issoporque obteve um desconto promocional; inicialmente era vendidoa R$ 280). A mostra tem início com a pintura de ícones, quefloresce em toda a Rússia, com uma grande diversidade de estilose riqueza de elementos sob sua aparente semelhança, entre osséculos 15 e 18. Neste segmento, propositalmente instalado nacúpula do prédio oval projetado por Oscar Niemeyer - de forma acolocar as alegorias religiosas mais próximas do céu - o peso doOriente e da ortodoxia cristã é indiscutível. Mas desde então já se notam alguns indícios de uma dascaracterísticas mais marcantes da potência cultural russa e quese tornará evidente conforme a evolução da exposição: a relaçãoàs vezes contraditória, mas extremamente enriquecedora, entre acivilização ocidental cristã - representada pelas naçõeseuropéias - e o imaginário oriental, levando muitas vezes aestranhas sínteses entre elementos díspares. Salta aos olhos a importância dessa arte religiosa sobreo trabalho de mestres da vanguarda russa, como Marc Chagall. Nãoé à toa que a montagem da exposição o coloca lado a lado com umaseleção de obras populares, como um jogo de marionetes e algunsexemplos de vestuário. Dessa forma, percebe-se como o pintorjudeu soube aliar o desejo de revolucionar a arte darepresentação de seu tempo com uma necessidade de trazer parasua obra elementos da cultura russa e judaica. Chagall não é o único dos mitos da vanguarda russa aestar representado com uma seleção significativa de trabalhos.Aliás, o grande destaque - tanto em termos numéricos quanto emdistribuição física das obras - parece ser Malévich, presentetanto com as abstrações suprematistas da década de 1910, quantonas obras de caráter mais figurativo e um tanto críticas damassificação cultural promovida pelo regime soviético realizadasnos anos 30. É interessante comparar (como fez a curadoria, cujorepresentante pelo lado do Brasil é o historiador NelsonAguilar) esses estranhos ícones sem rosto com as facessorridentes, belas, mas também sem personalidade, das figurasretratadas nos grandes painéis de criação coletivas produzidasdurante o período do realismo soviético. Aliás, a presençadessas obras no País são uma oportunidade única de ver de pertoa face visual do totalitarismo político - que também tem suasversões no nazi-fascismo e, de forma mais tênue, nas tentativasocidentais de mitificar a liberdade de mercado. E nem só de ícones é feita a exposição. Um de seusgrandes méritos, aliás, é revelar ao público brasileiro um poucomais da produção artística deste país distante, que todos sabemser de qualidade, mas poucos conhecem no detalhe. Entre as boassurpresas estão as fascinantes pinturas de Pavel Filónov, queoscilam entre a abstração e a figura, versando normalmente sobreo mundo agrário russo e apresentando uma tal riqueza de detalhesque não deixa opção ao espectador, deslumbrado, senão a depassear sem descanso pela multiplicidade de planos e imagens quecompõem as cenas. Também merecem destaque a seleção de obras simbolistas,como o impressionante auto-retrato Arlequim e Pierrô, deVasily Shukháiev e Aleksandr Iákovlev, que parecem saltar datela com suas fantasias e expressões marcantes. Até mesmo osegmento mais fraco da mostra - dedicado à arte contemporânea -tem seus atrativos, apesar de também ser prejudicado pelocansaço normal, sentido ao final de uma exposição tão ampla. Umolhar lúgubre e conformado diante da situação da Rússiapós-império soviético se mescla a um humor tipicamente eslavo,como no caso da obra Marilyn e o Urso, na qual o símbolo daRússia tira uma lasquinha da coquette sex simbol americana. Nada como a arte para traduzir, nas formas maisdiferentes possíveis, os sentimentos, devaneios e reflexões,muitas vezes inconscientes, mas nem por isso menos realistas, deum povo.500 Anos de Arte Russa - Dos Ícones à ArteContemporânea - Sábado e domingo, das 10 às 21 horas. Oca.Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, tel. 5573-6073. Até amanhã.

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