Arte Russa por Savitsky

The Desert of Forbidden Art mostra a odisseia de coleção de telas valiosas desconhecidas no Ocidente

Ellen Barry, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2011 | 00h00

Os cinéfilos de Nova York tomaram conhecimento, na semana passada, da estranha história de Igor V. Savitsky, um colecionador obsessivo ao qual é atribuído o mérito de ter salvo dezenas de milhares de obras de arte anteriormente nas mãos das autoridades soviéticas, depois de obrigarem os artistas a adotar o Realismo Socialista nos anos 30.

O documentário americano The Desert of Forbidden Art (O deserto da arte proibida), tentará chamar a atenção internacional para a realização que absorveu toda a vida de Savitsky: um museu localizado no deserto no interior do Usbequistão que abriga uma das maiores coleções da arte de vanguarda russa. Até agora, o museu era conhecido principalmente por jornalistas e amantes da arte que regressavam da remota cidade de Nukus um tanto atordoados e com uma história incrível, como se tivessem entrado na caverna de Ali Babá.

Não parecia o momento para uma medida repressiva do governo. No entanto, no fim do ano passado, autoridades usbeques deram abruptamente ao Museu de Nukus apenas 48 horas para desocupar um dos dois edifícios de exposições, para que os funcionários empilhassem as centenas de telas frágeis e de trabalhos em papel no chão do outro espaço. Desde então, o prédio está vazio, e seu destino é desconhecido, enquanto mais de 2 mil obras não podem mais ser vistas no local, conhecido mais formalmente como o Museu Estatal de Arte do Karakalpakstan. A diretora do museu, Marinika M. Babanazarova, que guardou zelosamente a coleção durante 27 anos, não teve permissão para ir aos Estados Unidos em viagem que incluiria a exibição do documentário na National Gallery of Art, em Washington.

No ano passado, os funcionários da equipe de Marinika foram submetidos a 15 sessões de averiguações do governo, nas quais tiveram de explicar várias vezes os motivos de suas viagens ao exterior e a natureza dos seus contatos com estrangeiros, ela contou. "Precisamos provar que estamos fazendo algo bom para o país, que não somos uma gangue de bandidos", disse ela, que dirige o museu desde a morte de Savitsky, em 1984. "É uma grande satisfação receber o reconhecimento internacional. Por outro lado, sermos honestos complica a nossa vida."

Os representantes do Ministério do Exterior e da Cultura do Uzbequistão não responderam às perguntas por escrito que o jornal The New York Times lhes enviou no mês passado.

Na década de 90, quando jornalistas e diplomatas ocidentais descobriram o museu, pareceu o início de um conto de fadas do mundo das artes. Expostas em molduras simples estavam obras do mais alto nível, referentes a toda a variedade de estilos do início do século 20. A coleção de Savitsky prometia preencher um capítulo que faltava na história da arte, com a produção de artistas soviéticos em grande parte esquecidos, que estavam explorando novos rumos antes do início dos anos 30, quando o regime de Stalin condenou a "decadente arte burguesa" em favor de imagens idealizadas de operários e camponeses.

Alguns artistas acataram a ordem; outros foram trancafiados como dissidentes; e sua obra acabou indo parar em sótãos e depósitos. E lá teriam permanecido não fosse Savitsky, que convenceu suas famílias a confiar-lhe as telas que levou para Nukus, a cidade que elegeu como seu lar, depois de visitá-la durante expedição arqueológica.

"É uma coleção extraordinária porque conta a história de uma fase desconhecida da vanguarda russa", lembrou John E. Bowult, diretor do Instituto de Cultura Moderna Russa da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles.

O mundo exterior tomou então conhecimento da descoberta. Em 1998, depois que The New York Times publicou um longo artigo sobre o museu, um grupo de 85 artistas e estudiosos fretou um avião em NY para ver a coleção. Curadores da Alemanha e da França organizaram mostras de partes do acervo na Europa e museus dos EUA e da Rússia seriam os próximos a exibi-la.

"Os colecionadores do Ocidente começaram a chegar em seus aviões particulares, carregando malas de dinheiro", contou Marinika aos realizadores do filme. "Evidentemente, eles tinham muito bom gosto. Eles queriam as melhores peças."

Seus amigos sugeriram que ela vendesse algumas pinturas, pelo menos para dar melhores condições de preservação ao restante da coleção. Mas ela recusou, em parte com medo de que uma venda levasse o governo a leiloar os melhores trabalhos.

Muitos anos mais tarde, a coleção continua intacta, mas também escondida dos olhos do público. Depois de algumas exposições na Alemanha e na França na década de 90, o Ministério da Cultura do Usbequistão recusou todos os convites para exibir a coleção no exterior, informou Marinika M. Babanazarova (com a exceção de três pinturas agora expostas na Holanda).

Não há explicação dessa política, mas talvez reflita a persistente ambivalência dos usbeques em relação à influência imperial russa. Independente desde 1991, o país promove formas de arte nativas como tecelagem e gravura. As obras da coleção de Savitsky - muitas delas de autoria de russos étnicos - não se enquadram nessa campanha.

"Apesar de toda a publicidade, a coleção ainda é invisível", argumentou John E. Bowult. "É uma pena. Há muitas pinturas extraordinárias de artistas praticamente desconhecidos que merecem ser divulgadas."

As autoridades usbeques deram intermitentemente apoio à coleção. Em 2003, o presidente Islam A. Karimov foi a Nukus inaugurar um novo edifício do museu e Savitsky recebeu honras póstumas oficiais. No ano passado, o Ministério do Exterior do país financiou um documentário sobre a Coleção Savitsky, que será exibido nas embaixadas usbeques na tentativa de atrair turistas para Nukus.

Não obstante, em novembro, quando Marinika estava fora da cidade, as autoridades retiraram todas as obras de arte, alegando que o edifício da década de 50 seria demolido segundo um projeto de reurbanização. David Pearce, presidente da organização não governamental Amigos do Museu de Nukus, afirmou que um vice-ministro da Cultura lhe garantiu, no fim do ano passado, que o Estado ia construir um novo espaço para substituir o que seria demolido e que ficaria pronto até o fim deste ano. Mas os meses se passaram sem nenhum progresso evidente.

Conflitos. Os defensores do museu - entre eles atuais e antigos diplomatas ocidentais - não têm ideia do que o governo planeja. Alguns acreditam que Marinika entrou em conflito com as autoridades por causa de sua ferrenha defesa da coleção ou de seu contato com estrangeiros. "Temo que se trate de ignorância e mesmo de um círculo vicioso", disse Amanda Pope, diretora com Tachavdar Georgiev, do novo documentário americano. "Ninguém explica."

O Deserto da Arte Proibida fala das várias ameaças à coleção, inclusive a de que as melhores pinturas desapareçam em mãos de particulares. Os diretores esperam também que seu filme leve à exibição das obras no Ocidente.

Diante do anúncio da projeção do trabalho, na sexta passada em NY, autoridades do Usbequistão interrogaram reiteradamente Marinika. Segundo a diretora do museu, essa desconfiança pode refletir simplesmente a estranheza diante da história fantástica de Savitsky e sua coleção de valor extraordinário guardada no meio de nada. "Elas não acreditam que algum excêntrico Savitsky a tenha reunido e que depois um novo grupo de excêntricos queira preservar a coleção", disse. "Para alguns desses funcionários, algo não faz muito sentido nessa história." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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