Arte reflete o social e o político

As exposições de Lilian Amaral e Frederico Dalton, que serão inauguradas nessa quinta-feira à noite, no Paço das Artes, só têm a ganhar com o fato de estarem sendo exibidas conjuntamente. Os dois artistas seguem caminhos distintos, desenvolvem uma poética bastante particular, mas se encontram naquilo que pode se considerar o ponto central de suas pesquisas: o interesse em refletir artisticamente nossa cultura social e política. E para chegar a isso, partem de dois espaços típicamente populares: a praia e a favela.Dalton conta que redescobriu a praia quando retornou de uma temporada de estudos na Alemanha e que hoje ela é um elemento essencial em seu trabalho. "Na praia os dramas estão expostos, ela é um teatro urbano", explica. Tudo começa com imagens captadas ao longo dos longos e agitados dias de verão e que vão sendo retrabalhadas, associadas com outras cenas ou objetos, devolvendo-lhes a vida e a pulsação, mas de maneira sutil.Muitas vezes esse é um processo demorado. As duas séries apresentadas no Paço foram construídas a partir de imagens captadas no verão de 98. Em O Sonho - Hélice de Mãozinhas, o artista propõe uma pesquisa mais formal, que remete às origens do cinema.A obra mais tocante - e na qual há um discurso político direto - é A Menina do Saco, a imagem projetada de uma linda garota negra que, em vez de aproveitar a praia, carrega um pesado saco de lixo de forma incansável ao longo da sala (graças ao uso de um projetor rotativo, que provoca algumas interessantes distorções de perspectiva ao longo do trajeto). "Ela pode passar a vida carregando esse saco sem chegar a lugar nenhum", lamenta o artista, confirmando um forte interesse em usar a arte para discutir questões como a miséria.Já a pesquisa de Lilian Amaral foge um pouco do padrão de trabalhos apresentados pela Temporada de Projetos - forma encontrada pela instituição para mostrar as obras de artistas emergentes, selecionados a partir da análise de portfólio. Não se trata apenas de uma pesquisa plástica pessoal, mas de uma obra construída a partir de um forte envolvimento com a comunidade da favela Heliópolis. Se as fotos e parte das idéias que geraram a exposição são de autoria da artista e educadora Lilian Amaral, essa obra intitulada Alegoria do Caos (que se subdivide numa série de intervenções) é na verdade uma criação coletiva em processo, que também tem como autores os Josivan, Dejanilton, Gleidiane e Keluir, representantes genuínos da geração Heliópolis, que se sentiu profundamente incomodada pela forma como a mídia retratou sua história no ano passado e que está descobrindo a arte como forma de se comunicar com a sociedade que está além das ruelas pobres da favela. Uma das constatações de Lilian é que esses nomes estranhos são índices de individualização, numa sociedade em que o sobrenome deixa de ter valor.Prova disso é a colcha de retalhos feita com pedaços das roupas dessas crianças, costurados pelas próprias crianças e adolescentes, enquanto contavam para o grupo suas próprias histórias. Como escreve Maria Alice Milliet, "estimular em cada pessoa a posse da própria identidade, esse é o trabalho do qual Lilian Amaral participa, em parceria com a comunidade". E para isso é necessário saber ouvir, saber dar voz a essas figuras anônimas.Lilian confessa que no início do trabalho possuia uma visão romântica da favela, mas só encontrou uma massa compacta de cimento, tijolo e laje. A vida, quando havia, estava por trás das grades e gaiolas. E a cor só foi sendo descoberta aos poucos na fachada de um bar, no lixo... O lixo, jogado à céu aberto, nos leva rapidamente de volta à imagem da menina incumbida de recolher os dejetos da praia dos bacanas, na sala ao lado. Afinal, nada melhor do que a arte para nos fazer refletir sobre o que está à nossa volta.Lilian Amaral e Frederico Dalton. De segunda a sexta, das 13 às 20 horas; sábado e domingo, das 14 às 19 horas. Paço das Artes. Avenida da Universidade, 1, tel. 813-3627. Até 12/11. Abertura na quinta, às 20 horas

Agencia Estado,

18 de outubro de 2000 | 20h49

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