Arte popular ganha galeria exclusiva

A Galeria Brasiliana, que abre suas portas esta noite em Pinheiros, vem suprir uma importante lacuna num circuito supostamente amplo e diversificado como o paulistano. Trata-se da primeira galeria da cidade a dedicar-se de maneira quase exclusiva à arte produzida pelo povo brasileiro. Com um acervo reunido ao longo de vários anos pelo marchand e pesquisador Roberto Rugiero, o novo espaço conta com obras de mais de 50 autores de vários cantos do Brasil, além de um leque relativamente amplo de trabalhos artesanais, de autoria anônima ou desconhecida, que no futuro ganharão uma exposição especial.Uma das razões que levaram Rugiero a abrir a nova galeria foi o sucesso do núcleo de arte popular da Mostra do Redescobrimento. O interesse principal do marchand é pela arte popular, mas ele também dedica sua atenção a artistas que não podem ser incluídos neste segmento, como Caíto, que, mesmo sem pertencer a essa categoria, se reporta às raízes populares, e Adil Sodré, a quem insiste em chamar de o verdadeiro criador tropicalista do País.Em meio às esculturas e pinturas primitivas que povoam o simpático sobrado da Rua Arthur de Azevedo, encontra-se de tudo. Até pequenas pinturas abstratas de Humberto Guimarães. "Em resumo, procuro mostrar o que os outros não estão mostrando", diz Rugiero, lembrando que começou sua carreira trabalhando com arte contemporânea, ainda nos anos 60.Distribuindo frases definitivas para avaliar este ou aquele artista, o marchand não esconde suas predileções. As grandes esculturas em madeira de Roberto de Almeida estão entre suas preferidas e não estão à venda - pelo menos por enquanto. Há preciosidades no acervo da Brasiliana, assinadas por mestres como Afrânio Castelo Branco, Vidal, Zica Bergami, Nilson Pimenta... Uma das preocupações maiores do pesquisador foi fugir da falsa "arte naive", aquela "arte pequeno-burguesa facilmente assimilável" e que não tem nada de popular.Outro artista de quem fala com orgulho é Ranchinho, um senhor de 78 anos, deficiente físico e mental, descoberto na década de 70. Com um comportamento equivalente ao de uma criança de quatro anos, mas uma impressionante criatividade, Ranchinho vivia nas ruas, como um bicho, até que descobriu a pintura. "Essa água com açúcar maneirista engorda o espírito", ironiza o pesquisador, ao valorizar a verdadeira e diversificada arte de raízes populares produzida no País.Esse caso remete a uma das questões mais delicadas no que se refere à arte popular. Normalmente, os artistas anônimos, que produzem nos rincões desse enorme País, são figuras extremamente frágeis. "O popular é muito frágil, não suporta a pressão do mercado", explica o marchand.Essa pressão pode ter efeitos nefastos, afetando a qualidade da obra (ao levar o artista a produzir mais, com uma qualidade menor) ou fazendo com que o criador seja um dos que menos se beneficiam com a comercialização de sua obra. Sabe-se, por exemplo, que parte do artesanato indígena comercializado como algo sofisticado nos grandes centros é comprado por uma ninharia nas aldeias da Amazônia. Rugiero não revela os preços pagos pelas obras que negocia (cujo valor final pode variar de R$ 20 a R$ 10 mil), mas afirma: "Não faço capitalismo selvagem; vejo esse trabalho com uma grande função social, até porque o artesanato é o ganha pão de muitas comunidades do Nordeste".E vem buscando novas formas de ampliar esse mercado. Entre elas, estão as parcerias internacionais, como a que estabeleceu com o portal de arte "emergente" La Palette (www.lapalette.com). O termo emergente, como as outras terminologias usadas para a arte popular, revela um certo preconceito. Em vez da depreciação do termo primitivo (que se opõe à arte culta), "emergente" têm um caráter colonialista, é uma maneira de o centro sofisticado diferenciar a produção da periferia, que sempre existiu mas só agora emerge a seus olhos. Entre outras coisas, a parceria com a La Palette deverá levar à criação de uma feira internacional de arte popular, ano que vem, nos EUA.Arte Popular Brasileira - De segunda a sexta, das 11 às 19 horas; sábado, até 16 horas. Galeria Brasiliana. Rua Arthur de Azevedo, 520, tel. 3086-4273. Até 23/12. Abertura às 17 horas.

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