Arte popular é uma alegria de cores e formas

Uma vez que ainda se insiste em tentar disfarçar e até negar o naufrágio visual causado pela confusão entre cenarismo e museologia ocorrida nesta Mostra do Redescobrimento, cabe um novo exemplo em que o sucesso do resultado se deveu única e exclusivamente ao uso inteligente de métodos museológicos para a exibição de obras de arte.O curador Emanoel Araújo fez do segmento Arte Popular, em exibição no Pavilhão Manoel da Nóbrega do Parque do Ibirapuera, outra lição de respeito e destaque ao que realmente interessa: as próprias obras. Não há gigantescas árvores azuis nem oceanos de florezinhas roxas disputando o olhar que deveria ser conduzido para o motivo essencial de uma mostra de arte. Que não é, claro, o ego dos cenógrafos. O visitante da mostra Arte Popular não é forçado a entrar em parques temáticos de pesadelo. E, ao contrário do que pensavam os apologistas da espetaculosidade, nem por isso o público fica indiferente ou deixa de ver o que lhe é oferecido aos olhos. A cegueira, aliás, não é do público e sim de quem lhe subestima a inteligência.Arte Popular é um emocionante tributo à inventividade dos brasileiros mais humildes. Daqueles que, convivendo com carências dramáticas há incontáveis gerações, apartados desde sempre dos confortos e benesses concentradas nas chamadas elites, ainda assim sonham e se expressam em formas tão fortes e belas que tocam de imediato nossa sensibilidade.O início do percurso assinala também o objeto iniciático que costuma nos despertar para o imaginário popular: as miniaturas produzidas pelos ceramistas do Vale do Jequitinhonha. Os bonequinhos singelos de Mestre Vitalino e discípulos fazem bem-humorada crônica visual dos tipos e costumes rurais. Lançam também um olhar arcaizante sobre os ciclos da existência e as profissões urbanas. Reduzidos à dura essencialidade do dia-a-dia, os artistas populares exercitam o território do sonho com prodigalidade de cores e multidão de figuras. Há enorme inventividade no modo como trabalham materiais simples, construindo sofisticadas relações de formas para utensílios os mais banais. A arquiteta Lina Bo Bardi nos ensinou a ver em minúcia e maravilha essas peças do cotidiano popular. Ela as exibiu em mostras antológicas tanto no Museu de Arte Moderna da Bahia como no Museu de Arte de São Paulo, a partir dos anos 60.Obras do cotidiano - Um desses exemplos de inteligência visual popular destacados por Lina está muito bem representado na mostra de Arte Popular organizada por Araújo: a lamparina de óleo. Feita com metal reciclado das coloridíssimas latas litografadas da indústria de alimentos, elas parecem saídas da prancheta de um sofisticado designer. Esguias, podem aproveitar como corpo um funil invertido ou sugerir um avião ao opor dois cones de metal. Argila, tocos de madeira, pregos, fitas, pedaços de pano, linhas para bordar, contas de vidro, cacos de espelho e infinitas reciclagens de sucata. É apenas isso que os artistas populares têm à mão. E é com isso que fazem uma multidão de esculturas, objetos e ornamentos de uma beleza por vezes rude, outras quase tosca, mas que desavergonhadamente afirmam sua boniteza. O cearense Nino escava a madeira para criar engenhosas esculturas que surgem das formas sugeridas pelo material, geralmente um tronco bifurcado. Otaviano Sapateiro faz bichos recortados em papelão pintado e articulado que são uma explosão de cores e figurações. As colunas ascendentes de animais silvestres esculpidos pelo mineiro Artur Pereira lembram modelos ancestrais da história da arte: os monumentos com que a Grécia clássica rememorava as vitórias de seus exércitos, contadas em cenários ascendentes inscritos em colunas. O mesmo autor faz presépios em que a Sagrada Família está rodeada apenas de animais e o Deus menino é exposto a uma multidão de boizinhos, enquanto galinhas e anjos dividem o espaço do telhado da manjedoura. Um segmento da mostra é dedicado ao cangaço e inclui desde armas e roupas dos cangaceiros do bando de Lampião até uma extensa mostra de xilogravura de cordel. Os valentes guerrilheiros do sertão nordestino podem surpreender. Além de usar agudas adagas e sinistras pistolas, gostavam de ostentar bolsas, luvas e cintos profusa e alegremente bordados com flores. Algo que provoca imediato curto-circuito em supostas prerrogativas da indumentária feminina. Na pintura há poucos talentos de destaque. Um dos maiores é o acreano Chico da Silva. Ele criou serpentes e dragões pontilhistas, exemplos eloqüentes daquele universo inquietante que aproxima lucidez e delírio, razão e inconsciente. Antonio Poteiro é outra presença importante, assim como as telas geometrizadas de Alcides Pereira dos Santos. Carlos Lousada faz uma alegre e bucólica Rebelião no Presídio. A data da tela (1961) explica boa parte da cordialidade entre detentos e guardas retratada no episódio. Carrancas - Há um belo conjunto de carrancas (figuras de proa) esculpidas para proteger os barcos do rio São Francisco. As fisionomias apontam para a diversidade de influências culturais que esses barcos fazem conviver ao longo das populações ribeirinhas. Há rostos que remetem a índios e outros com traços tão marcadamente negróides que nos lembram máscaras tribais africanas. Faltou um levantamento mais amplo da arte popular no País. A mostra está excessivamente focada na produção do norte-nordeste e sudeste. Mesmo nessas regiões faltaram exemplos de expressões importantes como as colchas de retalhos geométricos criadas no Ceará e que não destoariam ao lado da op-art ou da arte construtiva. Colchas que, aliás, foram magnificamente exibidas na mostra O Desabusado Mundo da Cultura Popular, curadoria de Dodora Guimarães para o Centro Dragão do Mar (Fortaleza, 1998).Faltaram peças de arte popular do sul, por exemplo. Faltaram os artistas têxteis da região da fronteira gaúcha, onde se produz refinados cobertores de lã crua em teares manuais ou tramas de tiras de couro cru (tentos) para a confecção de utensílios de montaria. Sem falar no trabalho de gravação em prata de lei para cabos de facas e antigos adornos de rédeas e selas.Parte dessa ausência deve ser creditada à falta de acervos regionais públicos dedicados ao estudo e exposição dessa produção, gradativamente espoliada e degradada pelo comércio massivo de souvenirs turísticos. A arte popular do norte e nordeste foi beneficiada pelo estudo e colecionismo sistemático, principalmente à partir dos anos 60, liderados por Lina Bo Bardi e outros apaixonados defensores dessa forma de expressão, como Clarival do Prado Valladares, Lélia Coelho Frota, Cesar Aché e o colecionador Jacques Van de Beuque. Coube, no entanto, a Mario de Andrade, quando diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, a iniciativa de uma expedição (1938) destinada a coletar peças de arte popular e registrar músicas. O foco foi, também naquela ocasião, o norte-nordeste. O momento mais feliz de toda a montagem da exposição Arte Popular da Mostra do Redescobrimento talvez seja aquele em que o curador faz confluir as visualidades de quatro das mais fortes manifestações das crenças e festas religiosas do Brasil: os ex-votos, o maracatu, as máscaras de cavalhada e o bumba-meu-boi. Ex-votos - A religiosidade dos ex-votos (peças esculpidas em madeira ou cera no formato de órgãos ou membros que teriam recuperado a saúde por atendimento divino às preces dos fiéis) ganha uma monumentalidade tocante. Ao mesmo tempo, oferece belo espetáculo de formas, exploradas em composição semelhante às gravura de cordel. Pouco antes no percurso da mostra, somos confrontados com a versão contemporânea dos ex-votos, captada pelo fotógrafo Antonio Saggese: instantâneos humildes de fiéis curados, ofertados aos santos em oratórios caseiros, por vezes ornados de imprevistas interferências, como asas de insetos da luz. Os estandartes, os adornos de cabeça ornados de espelhos e fitas do maracatu imprimem uma forte visualidade ao conjunto, sublinhada ainda mais pelos coloridos bumba-meu-boi, fantasias em formato de boi destinadas a vestir bailarinos rodopiantes e brincalhões.As máscaras de cavalhada são uma alegria só. Moldadas em papel machê, ornadas de chifres, com sorrisos amplos e cores intensas, elas parecem saltar diabolicamente da altura onde foram colocadas, fazendo contraste com as terrosas imagens de santos católicos situadas junto ao chão. É nessa correlação de obras e seus significados simbólicos que reside uma boa museologia. Algo que cenografia alguma pode realizar, porque ela será sempre postiça ao que está sendo dito. Cenografia é um recurso do teatro e que deveria ser mantido nele. Nesse aspecto, é preciso concordar com recente declaração feita pelo italiano Ezio Frigerio, o autor das geladas árvores azuis que sepultaram a pintura que deveria ser a atração do segmento Olhar Distante. Ele declarou textualmente ao Estado: "A verdadeira cenografia é desenvolvida no teatro". Defendamos todos, portanto, a verdadeira cenografia.

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