Arte popular brasileira seduz os franceses

Arte popular não é algo ultrapassado, pobre, ou apenas sinônimo de uma produção tosca, de baixa cultura. Como mostra a exposição Art Populaire, inaugurada ontem na prestigiosa Fundação Cartier, de Paris, a criatividade expressa por meio da arte e do artesanato continuam encantando, mostrando que têm muito a ensinar aos ditos artistas de elite da contemporaneidade. Um dos eixos centrais da exposição é mostrar como a busca da beleza, o desejo de realizar uma obra capaz de seduzir começa a ser retomado por meio da recuperação das tradições e costumes populares. Nada mais diferente do que a mostra de arte pop, encerrada esta semana no Beaubourg, que resgata uma produção datada e restrita, que em vez de buscar as raízes e a espontaneidade, aliou-se aos standards visuais da sociedade de consumo.Mesclando a obra quase anônima de artesãos como Mestre Vitalino - morto em 1962, mas cujas peças continuam a ser "produzidas" e vendidas na Feira de Caruaru como que colocando em xeque a questão da autoria artística - com intervenções de artistas badalados do circuito internacional, que se alimentam da expressão e da riqueza simbólica ou estética da arte popular, como Chris Burden e Liza Lou, a exposição reúne interessantes exemplos de criação pessoal e comprova que o imaginário popular está entre as principais fontes de inspiração artística. "Ela simplesmente agrada ao povo; não precisa de um discurso, de uma explicação", resume Hélne Kelmachter, uma das curadoras do evento. Para confirmar o caráter coletivo e amplo da mostra, os organizadores optaram por não realizar um texto teórico sobre o tema, mas publicar no catálogo questionários feitos com cada um dos artistas.A produção brasileira é um dos pilares fundamentais dessa curadoria, que reúne artistas das mais diferentes origens, com especial atenção aos brasileiros, africanos e indo-americanos. Ao todo são 37 artistas, representados por cerca de 130 obras, a maioria desconhecida do público francês. É o caso, por exemplo, de Arthur Bispo do Rosário. "É impressionante pensar que alguém como ele produziu mais de mil obras, com uma radicalidade e uma intuição que são uma grande lição de arte contemporânea", diz Hélne.Entre os brasileiros também estão Ana do Baú, Isabel Mendes da Cunha, Antônio de Oliveira, Zé Caboclo, Manuel Eudócio Heleno Manuel, Maria de Caruaru, Luiz Antônio, Adalton Lopes, Nhô Caboclo e Marcos Cardoso. Este último, mais vinculado à arte culta, exibe um trabalho repelente e sedutor: uma bela cortina de contas que, na verdade, é feita de milhares de bitucas de cigarro.A questão do acúmulo está em várias outras obras expostas. A americana Lisa Lou, por exemplo, lança mão da técnica de bordado para construir uma cena de piquenique toda feita de contas coloridas, que levou três anos para ser confeccionada, com a ajuda de vários colaboradores (uma forma de resgatar outro aspecto interessante da arte popular, a tradição de produção coletiva). Ao ser convidado a produzir uma obra especialmente para a mostra, o também americano Chris Burden deu corpo à sua memória, construindo um barco de guerra com galões de gasolina que guardou por 25 anos, na esperança de um dia transformá-los em arte. Mike Kelley, por sua vez, inspirou-se numa técnica tradicional canadense e fez magníficas "pinturas" com a colagem de botões, badges e outros pequenos objetos que colecionou a vida inteira. "Vemos uma reciclagem não só de material, mas de lembranças", observa Hélne.Principalmente na representação africana, há uma seleção impressionante de pinturas, como a bela festa popular retrata numa gigantesca tela por Moke, pintada com grande sucesso de público nas ruas de Kinshasa, já que era grande demais para caber num ateliê. Ou o interessante comentário de costumes do congolês Cheik Ledy, que pinta mulatas com enormes traseiros, enfatizando a obsessão crescente com sexualidade ou faz críticas bem-humoradas à degradação provocada pela bebida e prostituição.Mas é entre os americanos de origem indígena que estão os trabalhos mais críticos e conseqüentes, que falam do abismo cultural e econômico existente numa sociedade falsamente democrática como a dos EUA. Surpreendem e chocam o público obras como a da ceramista Roxanne Swentzell, que em uma de suas figuras de caráter autobiográfico literalmente descasca sua pele "índia", ou as cerâmicas de Diego Holly Romero, que associa uma tradicional técnica de potaria para denunciar a exploração e a fetichização sexual do índio pelo branco.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.