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Arte, pompa e circunstância

Em 6 de maio de 1527, Roma foi invadida e saqueada pelas tropas do imperador Carlos V

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 02h00

Há uma relação complexa entre os fatos objetivos e o mundo da criação artística. A tentativa de associar, por exemplo, o Barroco do século 17 à prolongada crise econômica e política daquele momento é, em geral, problemática. Examinando caso a caso, a ligação automática entre a historicidade que cerca o artista e sua obra – o binômio causa-efeito entre o criador e sua época – é, quase sempre, pouco clara. 

As exposições universais, especialmente as de Paris (1889 e 1900), são tidas pelo senso comum como um momento de intenso otimismo. Não obstante, há muita arte, filosofia e literatura de pessimismo brutal. Isso emerge claramente em quadros como O Grito, de Munch, em quase toda a obra de Van Gogh, no filósofo Nietzsche e até em Gustave Le Bon (La Psychologie des Foules). Otto Weininger escreveu o pesado Sexo e Caráter e suicidou-se logo depois (na casa que fora de Beethoven, em Viena). Fora do circuito mais conhecido, pintores como Beckmann, Hodler, Alfred Kubin, Ensor e tantos outros quase impossibilitam falar em Belle Époque artística. Em meio a tantos pensadores e criadores com a tônica “noir”, as potências europeias estavam no apogeu da riqueza e influência imperialista. Paris remodelada brilhava e Londres era a cidade mais rica do mundo. 

Vamos ao vício preferido do historiador: o caso concreto. Há exatos 491 anos, no dia 6 de maio de 1527, Roma foi invadida e saqueada pelas tropas do imperador Carlos V. A cidade viveu momentos de terror. As obras da Basílica de São Pedro foram transformadas em estrebaria pelos mercenários do Império Habsburgo. Tesouros foram saqueados em larga escala. Ao visitar a Stanza della Segnatura, no Vaticano, um professor de arte italiana mostrou-me um vandalismo do qual eu nunca ouvira falar: a palavra Luther (Lutero) feita a canivete sobre o afresco de Rafael (A Disputa do Santíssimo Sacramento).

No caos do “Saque de Roma” (Sacco di Roma), o papa Clemente VII refugiou-se na fortaleza-castelo de Santo Ângelo. A Guarda Suíça viveu um dos seus momentos mais heroicos na defesa do bispo da Cidade Eterna. Com o sacrifício da maioria dos guardas na retaguarda, Clemente pôde correr pelo “passetto”, a estreita via na muralha que une o Vaticano a Santo Ângelo. A guarda papal retirara das tropas invasoras o prêmio mais valioso: o resgate pelo sequestro da mais alta figura da hierarquia católica. Refugiado no antigo mausoléu de Adriano, Sua Santidade assistiu de camarote aos incêndios e violências que se prolongaram bastante. O imperador Carlos V, rei do país de ortodoxia total, neto dos reis católicos (Fernando e Isabel), inimigo dos luteranos que atacavam a Igreja de Roma e que morreria em um convento como frade, oh! escárnio supremo, acabava de desferir uma coronhada na testa do papado. Sejamos justos em distribuir contradições: até o poderoso cardeal Pompeo Colonna, inimigo jurado do Santo Padre, estava entre as tropas invasoras. 

O chamado Renascimento já tinha sofrido dois abalos com a morte de Leonardo da Vinci (1519) e Rafael (1520). A Reforma religiosa ao norte dos Alpes trouxera as guerras de religião e ambas ajuntaram mais nuvens densas no céu claro do otimismo que havia dominado o século anterior. O Saque de Roma seria mais um choque para o mundo do equilíbrio, de simetria e das proporções áureas que a Península Itálica vivia havia muito. Sim, foi um incidente de forte impacto, mas não foi o primeiro. Já há sintomas de reversão de um Zeitgeist com a morte de Lorenzo de Médici em 1492 e, acima de tudo, com o início das guerras na Itália, em 1494. A península observava o óbvio: já não era uma grande player no jogo internacional. Ser a herdeira de Roma não garantia mais nada. O equilíbrio precário das cinco potências (Veneza, Milão, Florença, Roma e Nápoles) e seu mosaico de ducados e repúblicas estava rompido havia muito. Até o austero Erasmo ironizaria, um ano depois do saque, o provincianismo pretensioso dos italianos na obra Ciceronianus

É tentador usar os episódios para explicar as raízes do Maneirismo, a mudança na arte que traria os nomes de Pontormo, Bronzino, Beccafumi, Giulio Romano e Parmigianino para o primeiro plano da criação artística. Mesmo um gigante do Renascimento, o “il divino Michelangelo”, que sobreviveu muito mais do que seus antigos rivais de Roma e Florença, seria atingido pela terribilità. Entre o teto da Capela Sistina que ele pintou entre 1508-1512 e o afresco ao fundo (O Juízo Final) terminado em 1541, há uma transformação radical. O homem Adão sendo criado por Deus na primeira etapa dá lugar a uma humanidade com medo, acabrunhada pelo cumprimento da profecia do capítulo 25 de Mateus. A trilha sonora dos afrescos do teto seria um madrigal do Renascimento. A música-tema do Juízo Final era o terrível Dies Irae, com letra que promete fogo e destruição acompanhados de um juiz implacável que condena muitos à danação eterna. Entre um e outro momento, estava o Saque de Roma. 

“Eu sou eu e minha fortuna”, teria dito o filho de Carlos V, Filipe II. Ortega y Gasset adaptou a ideia para “eu sou eu e minhas circunstâncias”, querendo mostrar um cruzamento entre uma certa estrutura da consciência e uma mutabilidade a partir de fatores circunstanciais. Inegável que a arte contenha os traços das circunstâncias no momento da sua produção. Reduzi-la a um espelho de biografia ou de uma crise econômica é deixar de pensar no ato criador em si. No fundo e sempre, a centelha artística guarda um mistério elevado e impenetrável. Sim, o Saque de Roma causou uma cesura na consciência europeia. Ninguém pode negar isso. Porém, lembremos sempre, muitas cidades do mundo foram saqueadas e destruídas com igual ou maior violência. Da maioria só emergiram dor e ruínas. De Roma continuou fluindo muito fogo criador. Há algo no fato, há algo anterior ao fato e há algo que transcende o fato em si. O resultado da complexa combinação é chamado de... arte. Bom domingo para todos vocês! 

PS: agradeço aos meus amigos Flavia Galli Tatsch e Luiz Marques Filho o debate sobre as ideias do artigo. A erudição de ambos abre muitos horizontes para meu crescimento intelectual. 

 

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