Arte para mudar a cidade

Artistas de diferentes nacionalidades preparam intervenções no centro

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2012 | 03h11

A ironia como arma. É munido de um olhar sarcástico que o coletivo argentino Doma cria obras de intervenção no espaço urbano. A partir de hoje até o o dia 29, o grupo de quatro artistas exibe uma de suas obras em São Paulo. Vai instalar, no Vale do Anhangabaú, uma estrutura geométrica gigante: um prisma que servirá tanto para refletir a luz externa quanto para acolher visitantes.

"Todas as obras que realizamos com o Doma se caracterizam pela ironia, pela paródia que fazemos de diferentes temas", comenta Julian Manzelli, um dos integrantes do coletivo. "Neste caso, a ideia foi criar uma espécie de templo geodésico absurdo, que faz um culto à geometria. É, de certa maneira, uma reflexão sobre essa questão da espiritualidade."

Além do Doma, outros quatro artistas ou coletivos - provenientes diferentes países - vão ocupar os arredores do Anhangabaú: Goma, Felipe Sztutamn, ZoomB e UrbanScreen. Promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil, a mostra Urbe tenta intervir no cotidiano do centro com obras de arte públicas.

Os argentinos realizam intervenções urbanas desde 1998. Começaram tomando a paisagem de Buenos Aires: cobriram empenas com estênceis. Transformaram ruas e praças com projeções e instalações. Hoje, o Doma já exibiu sua arte por cidades como Santiago, Berlim, Nova York, Barcelona.

Antes de conceber o trabalho que será exposto no Anhangabaú, os artistas conheceram a região central de São Paulo. Para formar a figura geométrica, os artistas utilizaram placas triangulares. É entre cada uma dessas placas que pequenos orifícios deixarão passar projeções de luz que irrompem no entorno.

A peça, que fica suspensa do chão, deve provocar distintos efeitos visuais, explica Manzelli. "Tudo depende de como a luz do Sol atravessa a obra durante o dia." Outra possibilidade do público relacionar-se com a criação é conhecendo seu interior. "É certamente uma outra maneira de apreender. Quem estiver dentro vai ver como as sombras se projetam na figura e ter a experiência de subir até o interior desse templo."

Com a intenção de incentivar a participação de quem estiver de passagem pelo local, o Doma também prevê a presença de pessoas que vão interagir com a obra. Toda a trajetória revela a intenção de impactar o espaço urbano e transformá-lo, de alguma maneira. Em uma paisagem caótica como a paulistana a tarefa não é tão simples. Ciente disso, o grupo não acalenta a pretensão de atingir as massas. "Não vamos fazer algo que mude a cidade", diz o artista. Mas quer ter impacto sobre alguns poucos e chamar a atenção para pontos cruciais da atualidade. "Provocar um pouco as pessoas a olhar para o momento histórico que vivemos."

Museus e galerias também já receberam as peças concebidas pelo coletivo. Eles, no entanto, continuam a preferir as ruas. "Quando surgimos, nos pareceu mais interessante fazer algo na rua, para todo mundo, do que fazer lobby para entrar nas galerias", diz Manzelli. "Hoje, este foi um movimento que cresceu. Não por acaso os grandes museus do mundo começam a dar espaço a esse tipo de arte."

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