Arte no futuro do pretérito

Sesc remonta mostra com pioneiros do filme experimental

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2013 | 03h14

Em 1973, os artistas experimentais se comunicavam no futuro do pretérito, como se estivessem falando de formas ainda não inventadas de uma perspectiva histórica do já ocorrido. Era a época dos filmes em super- 8 e 16 mm, dos audiovisuais montados com diapositivos, de performances registradas de forma precária e obras conceituais que usavam a tecnologia disponível na ocasião (xerox, off-set), antes do advento do vídeo e do computador.

Visionária, a crítica Aracy Amaral organizou, então, uma mostra pioneira desses trabalhos, reunindo jovens artistas (hoje internacionalmente reconhecidos) nessa Expoprojeção 73, montada no histórico Grife (Grupo de Realizadores Independentes de Filmes Experimentais), criado por Abrão Berman. É essa mesma mostra que o Sesc Pinheiros abre amanhã, rebatizada de Expoprojeção 1973-2013, com uma palestra inaugural, hoje, às 19 horas, da curadora de mídia do MoMA de Nova York, Barbara London (leia entrevista ao lado).

Há 40 anos, quando a mostra original foi montada, alguns dos artistas participantes estavam morando fora do País, autoexilados como Hélio Oiticica (em Nova York) e Antonio Dias (em Milão). A crítica Aracy Amaral se correspondia com os dois. Foi por meio deles que descobriu outros pioneiros das novas mídias, como o mineiro Raymundo Colares (1944-1986), autor de filmes provocadores em super-8, como Gotham City e Trajetórias (1972), que ela guardou todos esses anos em sua casa. Outros trabalhos tiveram menos sorte, como os de Hélio Oiticica (1937-1980) e do fotógrafo Miguel Rio Branco. Neyrótica (1973), realizado pelo primeiro, está em fase de restauro e não será exibido. A obra de Rio Branco foi extraviada. Em todo caso, ainda restam 42 dos originais, entre eles obras de Anna Bella Geiger, Ana Maria Maiolino, Antonio Dias, Antonio Manuel, Cildo Meireles e Lygia Pape, todos com carreira internacional.

"Muitos desses trabalhos experimentais tratam do meio urbano, da velocidade e da sensualidade, como Lama, de Maurício Andres Ribeiro, mas também da repressão, como o audiovisual Natureza (hoje intitulado Os Desaparecidos), de Luiz Alphonsuns, que faz alusão à violência do regime militar na época", observa Aracy Amaral. Ela divide a curadoria da mostra com o professor mineiro Roberto Moreira S. Cruz, consultor da coleção de filmes e vídeos do Itaú Cultural. O curador selecionou obras referenciais de artistas das quatro últimas décadas, de Regina Vater (autora do filme-instalação Conselhos de uma Lagarta, de 1976, a Ricardo Carioba, autor de Horizonte Negro (instalação inédita de 2013), passando por videoinstalações dos anos 1990 do paulista Tadeu Jungle (SPSPSP)e do mineiro Eder Santos (Trem da Terra).

Com o advento da tecnologia digital, hoje é (quase) tudo possível. Em 1973, os artistas tinham de usar a imaginação para conseguir os efeitos imaginados que os precários equipamentos não permitiam. "Raymundo Collares, nos nove minutos de Gotham City, percorre as ruas de Nova York com um canudo ótico feito de lâminas de acetato colorido com o qual transforma a paisagem urbana à medida que roda o filme", conta Aracy, que vai doar as obras de Collares em seu poder à Cinemateca Brasileira.

Também em Nova York, Oiticica rodou outro filme experimental, Agripina é Roma-Manhattan (1972), versão mais que livre do poema O Guesa Errante, de Souzândrade (1833-1902), que também viveu na cidade e escreveu sobre um índio que chega a Nova York e encontra o inferno reconfigurado na Bolsa de Valores. Sobre suas experiências na metrópole, Oiticica trocou várias cartas com a crítica Aracy Amaral. Algumas estão expostas junto a outros documentos enviados por artistas radicados fora do Brasil, entre eles Antonio Dias. "Antes da internet, o correio era nossa única forma de comunicação", diz. "A dificuldade para estabelecer contato com os realizadores foi grande ." Isso limitou o formato da mostra original, mas não impediu que o crítico argentino Jorge Glusberg tivesse notícias da Expoprojeção e a levasse para o Centro de Arte y Comunicación de Buenos Aires, em versão reduzida, em dezembro de 1973.

Foi uma forma de exportar para a Argentina, então enfrentando sua primeira eleição geral convocada por Lanusse, uma mostra de jovens revolucionários que usavam a arte como veículo de mensagens políticas, como Antonio Dias, Antonio Manuel, Cildo Meireles, Rubens Gerchman e Vergara. A curadora destaca na mostra um trabalho do último, Fome, em que Vergara coloca sementes de feijão em cada uma das letras da palavra "fome" e registra a evolução da planta até que ela acabe com ela. Cildo usava, então, garrafas de Coca-Cola para imprimir palavras de ordem (Yankees, Go Home) de sua série Inserções em Circuito Ideológico.

A mostra de 1973 serviu também para criar uma ponte entre Rio e São Paulo, favorecendo o diálogo entre os nomes citados e os paulistas Claudio Tozzi e Marcelo Nitsche.

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