Arte feita de razão e emoção

Waltercio Caldas em duas mostras simultâneas no Rio

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

Salas e Abismos. A relação da obra com o ambiente              

 

 

 

 

 

Quase 40 anos depois de participar de seu primeiro salão de arte, Waltercio Caldas abre duas exposições no Rio. Na Galeria Anita Schwartz (Gávea) está sua produção mais recente. E no Museu de Arte Moderna, o espaço em que o artista plástico carioca estudou - nos anos 60, com Ivan Serpa, quando ainda era um jovem que buscava diálogo com a obra dos que o instigavam - e debutou, no Salão de Verão de 1971. O museu agora abriga trabalhos de momentos marcantes de sua carreira, como as bienais de Veneza de 1997 e de 2007.

A galeria da Gávea foi totalmente ocupada por suas esculturas de médio e grande porte, além de trabalhos em papel. Tudo inédito para os brasileiros. A abertura ao público será no dia 16.

A ideia é que curadores e colecionadores estrangeiros que estejam no País para a Bienal (25/9 a 12/12) passem pelo Rio para ver Waltercio, que está no acervo de alguns dos principais museus do mundo e também nas ruas, com esculturas em espaços públicos.

A mostra do MAM, aberta a partir de hoje, reproduz Salas e Abismos, exibida com sucesso no Museu Vale, em Vila Velha (ES), até fevereiro - em quatro meses, foram mais de 20 mil visitantes, segundo sua produtora, Suzy Muniz. Em ambas, a discussão da relação da obra com o ambiente em que está inserida.

"Não é uma retrospectiva, tanto que em 40 anos participei de 32 salas, e aqui só 12 estão contempladas", explicou Waltercio na semana passada, no MAM. "A única coisa que me move é o espectador. É de certa forma para o desconhecido que os artistas trabalham. Talvez nossa única função seja melhorar esse desconhecido", adiantou.

Ao Rio, Salas e Abismos veio com mais trabalhos. Quatro são os últimos módulos da série que ele concebeu para a Bienal de Veneza de 97. Outros três - O Jogo do Romance, Quarto Amarelo e Esculturas para Todos os Materiais Não Transparentes - complementam o que foi a Vila Velha.

São trabalhos que misturam projeções, música e objetos. Se no Quarto a tinta que recobre parte da parede curva do espaço expositivo se expande e hipnotiza o olhar, as Esculturas intrigam por confundir o espectador: sete pares de semiesferas de madeira, granito, mármore, bronze, alumínio e ônix ficam dispostas no chão de modo que nunca se consiga ver as faces achatadas das duas, só de uma.

Chicletes. Doze ambientes vão repercutindo um no outro. Na entrada está o mais recente de todos, Silêncio do Mundo, instalação toda negra; em seguida se chega à claridade total de A Velocidade (1983), em que foram usadas mais de 6 mil caixinhas de chiclete, colocadas sobre duas paredes brancas paralelas.

"Em vez da relação cronológica, optei pela poética entre as obras. Meu trabalho não se move assim, e sim pelo adensamento de núcleos. Hoje, me dou a liberdade de tratar de temas dos anos 70, de modo atual. Esse é um aspecto fundamental: trabalhar com o tempo como matéria maleável", disse ainda.

Uma afirmação que o norteia, atribuída a Lygia Clark, é "cérebro também é víscera". O que significa dizer que pensamento e emoção não só podem, como devem andar juntos, na vida e no fazer artístico. "Um artista que não é capaz de enfrentar a tensão que existe entre pensamento e sensibilidade deveria abandonar a atividade, porque é nessa junção que reside a possibilidade da arte."

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