Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Arte em novo endereço

Raquel Arnaud abre sua galeria em março, com a exposição da Série Negra, a obra mais radical de Waltercio Caldas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

Há exatamente 40 anos ela estava trabalhando ao lado do professor Pietro Maria Bardi (1900 -1999), então diretor do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Foi lá que a marchande Raquel Arnaud, após a morte do pintor Lasar Segall (1891-1957), seu sogro, hoje representado por ela, aprendeu lições de colecionismo e noções do comércio de arte. No dia 29 do próximo mês, Raquel, que mantém há 30 anos seu Gabinete de Arte, abre uma nova galeria com seu nome, na Rua Fidalga, 125, elegante endereço da Vila Madalena, bairro onde já funcionam galerias como a Fortes Vilaça e a Millan. E escolheu para abrir o espaço, projetado pelo arquiteto Felippe Crescenti, o escultor Waltercio Caldas, um dos principais artistas de seu time - que tem nomes como o venezuelano Cruz-Diez, Arthur Luiz Piza e ainda o escultor Sergio Camargo (1930-1990). "Hoje são 21 artistas, alguns trabalhando com novas tecnologias, o que justificou a ampliação e a mudança de endereço da galeria", diz a marchande.

O carioca Waltercio Caldas é, hoje, um dos artistas de maior prestígio no circuito internacional de bienais, graças a seu trabalho provocativo e ao mesmo tempo de inegável importância histórica na arte contemporânea. No ano passado, por exemplo, ele expôs esculturas e desenhos na exclusiva galeria de Denise Renée, em Paris, que lançou os grandes nomes da op art e vende os trabalhos de Mondrian na Europa. Na nova galeria de Raquel Arnaud, Waltercio, que expõe atualmente em Madri, vai mostrar cinco trabalhos da Série Negra, iniciada há cinco anos. Dessa série, mostrada anteriormente na Christopher Grimes Gallery de Santa Monica, Califórnia, um dos trabalhos foi vendido para o Museu do Texas e outro para um colecionador paulista.

De Paris, onde prepara novos trabalhos - entre eles um livro de artista para a centenária editora espanhola Polígrafa -, Waltercio falou com o Estado sobre a nova série, cujas obras têm os simples títulos de O Som, O Mar, O Espelho, A Paisagem, O Rio. São nomes apenas evocativos, pois se trata de uma das mais complexas séries do escultor, uma síntese de seu trabalho anterior em que o granito, o aço inoxidável, o vidro e fios de lã se relacionam em obras de grande impacto.

"A relação entre os materiais, como eles interagem, é o que me interessa", resume Waltercio. Se existe outro escultor ao qual pode ser comparado, este é o romeno Brancusi (1876-1957), por causa do caráter elusivo da obra de ambos. As peças de Waltercio resistem à classificação justamente por estarem amalgamadas com a história da arte. Na Série Negra, o título é quase um comentário irônico da proposta do artista, que usa o polimento do mármore negro para transformá-lo num espelho.

Nesse aspecto, Brancusi deve ser de novo evocado por ter igualmente criado esculturas em que elementos contraditórios buscam certa harmonia e o mármore reflete a luz. Também na obra do romeno a pedra não deixa de ser pedra por buscar a função do espelho, nem a base pode ser considerada apenas um elemento formal. Ela representa, como a mesa da Série Negra, uma forma evanescente, metafísica, a "alma" da qual emerge a matéria.

"Desde as primeiras experiências que fiz, nos anos 1970, com veludo negro, busquei a introspecção, reivindicando, de certa forma, uma subjetividade, mas não por meio da expressão", diz Waltercio, que teve agora a chance de exercitar seu lado Goeldi - vale dizer, intimista - ao ilustrar o livro A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio. "Foi uma experiência que me deu muita alegria, especialmente por ser uma obra centenária tão atual." Ele também destaca a tridimensionalidade das ilustrações - o aspecto morandiano e principal da obra de Waltercio Caldas, dedicada à eliminação da fronteira entre o bidimensional e o tridimensional.

Waltercio foi escolhido entre 15 artistas internacionais para realizar uma instalação na Feira de Basel, em outubro e, a convite da família do compositor Tom Jobim, projeta uma escultura que será instalada no Rio. Na nova galeria de Raquel Arnaud, o andar térreo (300 metros quadrados) será ocupado pelo acervo do escultor Sergio Camargo, com quem a obra de Waltercio dialoga, e o primeiro andar (200 metros quadrados) será ocupado exclusivamente pelos cinco trabalhos da Série Negra. O próximo escultor a expor na galeria será José Resende, em agosto.

QUEM É

WALTERCIO CALDAS

ESCULTOR

Nascido há 65 anos, o artista carioca foi aluno de Ivan Serpa e começou sua carreira como cenógrafo, em 1968, numa peça de Ionesco. Expondo desde 1973, tem esculturas públicas no Uruguai e na Noruega. Sua obra se caracteriza pelo olhar erudito do autor sobre a história da arte, usada como matéria em esculturas alusivas a nomes como Mondrian e Morandi.

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