Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Arte e vida: flagrantes e reflexões

Contribuições para a discussão sobre a ambiguidade das criações interativas

Análise: Rodrigo Naves, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2010 | 00h00

Parque Ibirapuera, dia 25 de setembro. Uma menina de mais ou menos 5 anos senta-se ao piano e começa a tocá-lo meio desajeitadamente, mas com ritmo. Logo em seguida dois rapazes se põem a percutir um surdo e um tarol. Aos poucos, meio tateantes, os três jovens vão aproximando suas batidas e por alguns instantes se estabelece entre eles uma cumplicidade fugaz e tocante. A cena se dá dentro de Dengo, enorme instalação de Ernesto Neto que ocupa toda a sala principal do MAM.

A uma centena de metros dali, no prédio da Bienal, alguns senhores ensinam aos visitantes os passos do "danzón", um ritmo de origem cubana. Os dançarinos são pessoas de idade e encanta a leveza com que conduzem parceiros bem mais jovens, que aos poucos se deixam levar por eles, ganhando graça e desenvoltura. Essa performance foi concebida pela argentina Ana Gallardo e tem lugar um pouco além da rampa de acesso ao primeiro andar.

No piso de cima, jovens circulam pelos meandros de um penetrável de Hélio Oiticica. Investigam seus espaços, perdem-se, reencontram-se. Depois sentam-se e conversam despreocupadamente. Um pouco adiante, outros visitantes descansam numa espécie de cama gigante, também projetada por Ernesto Neto e que a curadoria batizou de "terreiro".

Centro de São Paulo, dia 26 de setembro. Na Rua Álvares Penteado, um grupo de samba atrai clientes para uma loja do Magazine Luíza. Pessoas sobem e descem a rua descuidadamente. De repente, uma mulher transforma seus passos numa cadência ondulante, seus gestos se suavizam, ginga por um breve instante e, no alto, uma de suas mãos se move em espiral, como a revelar o que a música fez com seu corpo.

Na praça da Sé, um morador de rua vestiu um de seus cães com a camiseta de um candidato a deputado federal. Sentado sobre as patas traseiras, com o tronco levantado, o cachorro se transforma momentaneamente num centauro invertido (cabeça de animal, torso de homem) e interrompe a cacofonia da praça com uma presença inverossímil, que logo volta a se dissolver na confusão do lugar.

Ao lado da catedral, um senhor idoso está todo vestido de branco. Diz ser o profeta João Batista. Na cabeça, uma velha toalha faz as vezes de turbante. À sua direita, um enorme cartaz fala sobre o final dos tempos. Traz como título, em latim, a expressão "ecce agnus dei" (eis o cordeiro de Deus). O homem cercou o espaço que ocupa com margaridas brancas. Mal se move. Diante da catedral vários fotógrafos procuram o melhor ângulo para retratar a fachada do templo.

Algumas observações. Acredito que as semelhanças entre as duas séries de eventos apontadas acima vão além das descrições feitas por mim, embora não negue sua importância relativa. Todos os acontecimentos envolvem pequenas revelações, pausas que interrompem o fluxo e a solidez da realidade, momentos em que a fluência da vida adquire um sentido renovado. Realmente estou convencido de que existem dinâmicas sociais que nos fazem manter a perspectiva de uma convivência mais justa e rica, para além das palavras de ordem e dos movimentos estritamente políticos. E esses acontecimentos singelos são apenas a manifestação fugidia desses processos mais amplos. A diferença entre as duas séries reside sobretudo na mediação institucional - bienal, museu etc. - dos fatos narrados no início, com as consequências trazidas por ela.

Como essa aproximação entre arte e vida tem sido uma tônica nas discussões sobre arte contemporânea, penso que seja interessante levantar algumas questões sobre ela. Em princípio, as práticas proporcionadas por artistas como Ernesto Neto e Ana Gallardo - apenas dois exemplos entre inúmeros outros - poderiam ir além de um simples enlevo momentâneo. Por chamar a atenção para os gestos dos participantes, elas teriam a capacidade de ampliar nossa percepção do dia a dia e de nos preparar para intervirmos nele de maneira mais lúcida.

Por outro lado, receio que a forte inscrição institucional desses eventos contribua para colocá-los num plano incompatível com a vida cotidiana. Assim, a arte e suas práticas seriam confinadas à esfera da fantasia e da imaginação, adquirindo em tudo um estatuto diverso do mundo da vida - confundidas com a existência diária e, ao mesmo tempo, segregadas dela pelos limites pouco palpáveis da Arte. Com isso a dimensão emancipatória da própria realidade social se veria reduzida, já que ela poderia ser vista como privilégio de uma camada social específica - os artistas -, e assim sem dúvida o tiro sairia pela culatra.

Mas haveria outro ganho em trabalhos artísticos como os mencionados no início. Diferentemente do que ocorre nas reações e comportamentos espontâneos - a segunda série de eventos que mencionei -, as práticas artísticas suporiam uma dimensão mais objetiva, para além da intimidade de certas experiências individuais, que tendem a se esgotar em si mesmas. Ou seja, a vantagem da arte sobre a espontaneidade cotidiana diria respeito à possibilidade de suas experiências serem compartilhadas por mais gente, por serem reiteráveis, ainda que se abdicasse de um controle que conduzisse sempre aos mesmos resultados.

No entanto, a recusa à produção de objetos de arte, justamente para que nada se interpusesse entre arte e vida, não acabaria levando a uma situação em que algo próprio à experiência estética - o juízo, a crítica - se tornaria praticamente impossível? Afinal, a ausência de realidades diferenciadas (objetos de arte) estabelece um envolvimento tão estreito entre projeto e participantes que esse grau de cumplicidade tende a impedir uma possibilidade real de avaliação e até da existência de critérios.

Dimensão lúdica. Desde o minimalismo, a arte vem pretendendo transpor - e com resultados notáveis - a dimensão estética para uma relação que se daria entre obra e observador, em lugar de restringi-la a relações internas aos trabalhos de arte. Em muitos casos - a produção mais recente de Anish Kapoor, de Olafur Eliasson, de Ernesto Neto e tantos outros - essa inclinação conduziu a uma dimensão lúdica em que objetos e observadores tendem a quase se fundir, diluídos pelo alto envolvimento sensorial conduzido pelos trabalhos de arte. Ou seja, o restabelecimento de uma aproximação excessiva - como a apontada no parágrafo anterior - em que o observador pode se ver entregue de mãos atadas às propostas dos artistas.

Acredito que essas ambigüidades de vertentes importantes da arte recente precisam ser realmente discutidas. A aparente renúncia de muitos artistas contemporâneos a uma atividade diferenciada termina por vezes a elevá-los à condição de supercidadãos, criaturas inespecíficas que teriam o dom de intervir nos interstícios da sociedade, colocando tintura em episódios que os demais mortais deixariam passar ao largo. Mais: ainda que a própria arte se mostre aí submetida a todo tipo de autocrítica e autolimitação, sempre fica o sentimento de que a essa abdicação de seus poderes subjaz uma intenção muito mais ambiciosa: a reafirmação do caráter religioso e místico da arte, esse sim capaz de abolir quaisquer limites entre instâncias sociais, profissões, materiais e instituições.

RODRIGO NAVES É CRÍTICO DE ARTE, AUTOR DE O VENTO E O MOINHO E DO LIVRO DE FICÇÃO O FILANTROPO.

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