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Lee Siegel
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Arte e realidade

NOVA JERSEY - Ainda precisamos da arte? Embora me horrorize, a pergunta me ocorre cada vez mais. Primeiro, devo dizer que, sem a arte, minha vida não teria sentido. O que a leitura de literatura séria, o desfrute de artes plásticas e teatro sérios fizeram por mim quando eu era criança foi me ensinarem a não aceitar os dados concretos da vida. A arte é um testemunho de todas as barreiras que a sociedade erige diante do indivíduo. A arte nos diz que coisas não precisam ser do jeito que são. Ela nos diz que nada, nem classe, nem dinheiro, nem pedigree, pode esmagar um dom natural. Ela nos diz que, apesar de meros mortais, podemos criar do nada algo belo e duradouro.

Lee Siegel,

31 de março de 2013 | 02h00

E para além de considerações sociais e ou materiais, a arte fala mais fundamentalmente para a nossa solidão, para a nossa mortalidade. O laço de iluminação formado subitamente, em silêncio, entre nós e uma obra de arte fala de uma qualidade que é durável para além do tempo, para além da compreensão racional. Ele significa que mesmo se não houver nada depois desta vida, há uma vida dentro e em torno de nós cujas riquezas indescritíveis, incomensuráveis, são infinitas.

Há 30 anos, conheci aqui, no contexto americano, pessoas de todas as idades que se dedicavam à arte com uma necessidade apaixonada por suas gratificações. Hoje, eu sinto que há cada vez menos pessoas assim. Talvez minha percepção da crescente insignificância da arte seja uma consequência de minha meia-idade, quando as questões práticas da vida se tornam mais profundas que as profundidades da vida. Mas mesmo pessoas mais jovens parecem ansiar por algo mais real do que aquilo que a imaginação costumava fornecer.

Há uma citação maravilhosa da poeta polonesa Wislawa Szymborska: "Todos os melhores têm algo em comum, um respeito pela realidade, uma concordância com seu primado sobre a imaginação". Eu sempre achei que isso significava que a arte maior - Shakespeare e Tolstoi; Rafael e Goya - descobre a verdade, não a fabrica. Creio que o que está faltando hoje na arte, neste país, é esse primado da realidade sobre a imaginação.

Em literatura, há uma abundância de linguagem fantasiosa, estilo pretensioso, conceitos elaborados e mecânicos. O mesmo vale para as artes visuais, nas quais as realizações do passado pesam de tal forma sobre o presente que boa parte do que se faz é uma derivação consciente, um pastiche ou uma imitação inconsciente. Todos falam hoje da artista conceitual Sherrie Levine, que já está por aí há décadas, e que ainda tira fotos de fotos famosas. O mais alto elogio que ouço do muito elogiado romancista Jonathan Franzen é que sua prosa lembra a ficção de John Updike. Mesmo na cultura popular, no sensacionalmente popular American Idol, por exemplo, todos os concorrentes estão copiando alguém original em vez de tentarem eles próprios oferecer alguma coisa original.

Porque a arte é hoje tão humilde, tão derivativa, tão assombrada pelo que veio antes, cada vez mais pessoas parecem estar se voltando para o literal para encontrar uma saída para sua sede de realidade - aquela sede de realidade que era saciada pela arte. E talvez, também, a liberdade um dia obtida pela imaginação tenha sido, histórica e relativamente falando, conquistada pelos avanços sociais. Cada vez mais pessoas nascem com a liberdade que outrora só era obtida, espiritual e intelectualmente, por imersão na grande arte.

Seja qual for a razão para o definhamento da arte, os resultados são fascinantes. Existe hoje um novo tipo de vínculo ativo entre realidade e imaginação. Cada vez mais, obras de arte se baseiam em eventos reais. E cada vez mais, obras de não ficção ou documentais são feitas com poder imaginativo.

Uma das forças principais por trás disso é a empresa de televisão a cabo HBO, que é uma espécie de boemia errante contemporânea. As séries de televisão Família Soprano, Boardwalk Empire ou Girls, filmes da HBO como o recente Phil Spector - sobre o produtor musical condenado pelo assassinato de uma jovem -, a despeito de todas as diferenças entre eles, têm em comum aquele primado da realidade sobre a imaginação de que falou Szymborska. Embora sejam obras de arte popular, têm o poder da realidade transformada pela imaginação que os públicos outrora experimentavam quando liam Guerra e Paz - ambientado durante as Guerras Napoleônicas - ou assistiam a Ricardo III - sobre um monarca real. Com o risco de parecer excessivo, as criações da HBO têm o poder dos grandes artistas da Renascença italiana ou setentrional, que também pintavam a partir da realidade, transfigurando-a diante de nossos olhos.

Como chamar esse novo e ainda florescente estilo de arte? Talvez pudéssemos chamá-lo de arte baseada na realidade, em vez de arte realista. Eu a vejo crescendo ao meu redor - no novo livro sobre cientologia de Lawrence Wright, que se alça ao nível de arte, e do mais recente filme do diretor Paul Thomas Anderson, O Mestre, que parece ser inteiramente sobre cientologia, e que é uma obra de arte que nos prende com o poder da realidade.

O sociólogo francês Auguste Comte dividiu as épocas em duas categorias: orgânica e crítica. Épocas orgânicas são tempos de grande criatividade em que um movimento artístico após outro brota, se desenvolve, e abre espaço para o seu sucessor. Como já escrevi, não houve um movimento artístico nos Estados Unidos, em qualquer forma de arte, nos últimos 30 anos. Em vez disso, um espírito crítico dominou a cultura, um espírito expresso por paródia, pastiche, imitação e absoluto desprezo pela arte pregressa. Mesmo os reality shows da televisão, com todas suas maledicências e desfigurações da vida real, é um pleito enfastiado por mais realidade.

A época crítica dos Estados Unidos tem sido a rebelião contra a arte por pessoas que ansiavam por realidade, como alguns grupos de pessoas neste país ansiaram outrora por liberdade. Agora, a realidade parece estar tendo um retorno nos Estados Unidos, apesar de a política do país estar se tornando cada vez mais irreal.

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