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Milton Hatoum
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Arte e exílio

Vale a pena passar na Estação Pinacoteca e ver as obras de Mona Hatoum, uma das mais importantes artistas contemporâneas. Mona nasceu em Beirute e é filha de cristãos palestinos (de Nazaré), que se exilaram no Líbano.

Milton Hatoum , O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2015 | 02h06

No clássico ensaio Reflexão Sobre o Exílio, Edward Said assinala que "logo depois da fronteira entre 'nós' e os 'outros' está o perigoso território do não pertencer, para o qual, em tempos primitivos, as pessoas eram banidas e onde, na era moderna, imensos agregados humanos permanecem como refugiados e deslocados... O exílio, ao contrário do nacionalismo, é fundamentalmente um estado de ser descontínuo. Os exilados estão separados das raízes, da terra natal, do passado".

Deslocamentos territoriais, instabilidade e incerteza encontram na arte de Mona Hatoum sua expressão estética e política. Desde os vídeos e performances dos anos 1980, a obra da artista, ao explorar o território da ambiguidade, é um convite à reflexão e à leitura crítica sobre o nosso tempo, reflexão e leitura que constituem o verdadeiro território da arte. Assim, os objetos estendidos no chão (tapetes, mapas, esteiras) perdem sua aparente estabilidade e se transformam em elementos instáveis, adquirindo outros significados.

Em um dos livros sobre o trabalho de Mona, o crítico Michael Archer notou que nas instalações da artista "o chão - mais especificamente a terra onde pisamos - serve de apoio não apenas à nossa presença corporal, mas também a atitudes e crenças. Essa terra ou esse chão torna-se incerto".

Nessa exposição, um mapa dos territórios palestinos ocupados é elaborado com barras de sabão feitos artesanalmente numa fábrica de Nablus. O espectador pode supor várias coisas sobre o material que forma esse "mapa" em alto relevo. Na verdade é uma escultura que poderia ser dissolvida, desfeita, apagada. Os cubos de sabão, de cor marmórea, lembram pedras, elementos da natureza que resistem ao tempo, mas também à agressão e à humilhação. Não por acaso essa instalação foi exposta numa pequena galeria de Jerusalém, em 1996.

Em outra instalação, um tapete persa com áreas puídas, escavadas ou rebaixadas formam um mapa-múndi conflagrado. É notável também o ambiente escuro em que uma luminária preta com pequenas figuras vazadas gira sem cessar, projetando nas paredes e no teto imagens de soldados e explosões. O movimento circular e incessante dessas imagens num ambiente noturno lembra um pesadelo, mas nos parece dizer que esse pesadelo é o mundo que nos tocou viver.

Há obras mais antigas, que circularam pelos principais museus de arte contemporânea dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa. Por exemplo: a instalação Measures of Distance e o pôster Over My Dead Body, duas das obras mais conhecidas da artista.

A primeira é um vídeo em que se misturam uma carta enviada de Beirute pela mãe de Mona, fotografias que a artista tirou de sua mãe, e a gravação de uma conversa entre mãe e filha. As medidas da distância - feitas pelas vozes, palavras escritas e fotografias - resultam num diálogo em que estão implicados o afeto, a identidade, o corpo, a política.

No pôster Over My Dead Body a imagem de um soldadinho armado escalando o nariz do rosto da artista gera um forte efeito visual, entre o humor e a ironia. Humor e ironia finos e sutis, que convidam o espectador a pensar, algo muito diferente da provocação bruta e direta.

Em 2010, Mona conheceu um grupo de mães amparadas pela Associação de Assistência à Criança e ao Adolescente Cardíacos e aos Transplantados do Coração (ACTC). A artista sugeriu a essas mães que desenhassem e bordassem seus sonhos e desejos. O resultado é a belíssima instalação Sonhando Acordado: um conjunto de mais de 30 fronhas bordadas, desenhadas e pintadas pelas mães de crianças e jovens da ACTC. De algum modo, esse trabalho coletivo dialoga com a instalação Doze Janelas, exposta no Museu de Arte de St. Gallen (2013). Ambos têm em comum o trabalho manual, elaborado por mulheres que exercitam sua arte.

A instalação Doze Janelas foi feita com a colaboração da ONG libanesa Inaash, que ajuda mulheres palestinas que vivem em campos de refugiados no Líbano. São 12 tapetes bordados em tecido, cujas figuras geométricas e coloridas formam desenhos também belíssimos.

Nas duas instalações, a artista trouxe ao espaço dos museus as obras de mulheres desconhecidas, dando vida a um trabalho individual, a uma arte íntima que vem de uma tradição secular e até milenar, mas aponta para o futuro: lugar dos sonhos e desejos por uma vida melhor, mais digna.

A obra de Mona constrói pontes imaginárias entre o passado e o futuro, mas sempre com uma janela aberta para as tensões e conflitos do tempo presente. Aliás, Janela é uma obra ao vivo, pois projeta numa das paredes da Estação Pinacoteca os sons e imagens da vida lá fora, no Largo General Osório.

Por fim, convém lembrar que o edifício da Estação abrigou um dos mais terríveis centros de tortura durante a ditadura. No térreo funciona o Memorial da Resistência de São Paulo. Para os que ainda não o conhecem, vale a pena visitá-lo para entender como funcionavam as atividades mais obscuras do terror do Estado.

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