Jairo Goldflus/Divulgação
Jairo Goldflus/Divulgação

Arte do retrato: fotógrafo Jairo Goldflus exercita técnica de revelar a essência

Livro 'Público' reúne 142 fotos de personalidades bem distintas como Chico Buarque e Fernanda Montenegro

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2012 | 11h44

Os ídolos do fotógrafo Jairo Goldflus têm uma característica comum: sempre buscaram explorar os desafios oferecidos por essa arte. O americano Irving Penn, por exemplo, cuja assinatura se tornou clássica graças à elegância e ao minimalismo, gostava de isolar seus modelos, tirando-os de seu ambiente natural para registrar as imagens em estúdio, utilizando um fundo artificial. Era ali, Penn acreditava, que se poderia capturar a verdadeira alma do sujeito, fosse um modelo de moda ou o membro de uma tribo aborígine.

O mesmo conceito é utilizado por Goldflus em seu livro Público, obra sobre a arte do retrato na qual reúne 142 fotos, tiradas entre 2004 e setembro deste ano. No foco, personalidades bem distintas, como Chico Buarque, Fernanda Montenegro e Christian Louboutin. Ali, ele tanto segue a linha mais tradicional, com fotos em preto e branco no cenário de fundo infinito, até retratos mais teatrais, produzidos, como o que mostra Cauã Reymond vestido como a roqueira Courtney Love.

"Um fotógrafo se torna algo maior quando consegue mudar conceitos estéticos, linguagens e a forma de se comunicar", afirma ele, apontando, além de Irving Penn, outros profissionais capazes de dar esse passo decisivo: Richard Avedon, Yousuf Karsh e Sebastião Salgado, mestres da fotografia que trabalharam na publicidade. "Cada um com sua linguagem conseguiu resultados impressionantes."

Entre vários trabalhos, Jairo Goldflus notabilizou-se por um ensaio que fez com a mulher, Gabriela Duarte, durante sua gravidez – ali, a gestação é vista com delicada naturalidade. Também se destaca o improviso proposto ao ator Marcos Caruso, que recebeu 15 chapéus e a incumbência de criar o mesmo número de personagens com cada uma das peças. "O fotógrafo de retratos tem a função de ‘fazedor de climas’", acredita. "As pessoas chegam ao estúdio com múltiplas e diferentes expectativas – cabe ao profissional conduzir ao caminho que sua sensibilidade o guia."

Nesse sentido, Goldflus não segue a técnica do ídolo Irving Penn, que, para conseguir imagens expressivas, fotografava o modelo incansavelmente, muitas vezes durante horas, até que ele fosse forçado a baixar a guarda. "Uma imagem nunca sai impunemente daquela pequena caixa preta, ela é feita, mesmo que pequeno, de um momento de consentimento entre o retratado e o fotógrafo", pondera Goldflus. "Sou um curioso, gosto de conhecer, ouvir, falar e trocar pensamentos, fico muito mais tempo conversando que propriamente fotografando em uma sessão, isto não significa que não estamos fotografando. Acredito que as surpresas saem destes momentos de ‘lazer’."

O que faz de uma foto um grande retrato já provocou inúmeras discussões e diferentes conclusões. Em 1859, o poeta e ensaísta francês Charles Baudelaire já questionava: "Um retrato! O que pode ser mais simples e mais complexo, mais óbvio e mais profundo?" Passaram-se os anos e outro francês, o filósofo (e também fotógrafo) Jean Baudrillard desdobraria a máxima de Descartes ("Penso, logo existo") ao formular o axioma "eu sou visível, eu sou imagem". Entre distintas afirmações, o mais correto é pensar que o rosto, elemento essencial do retrato e principal traço físico da individualidade, sempre foi visto como o espelho da alma.

"Para mim, um bom retrato não reside apenas na sua perfeita execução técnica mas sobretudo na possibilidade de entrar na essência do retratado, de atravessar a superfície e chegar ao seu interior. Fotografar pessoas é muito mais psicologia do que técnica", pondera Goldflus.

Por conta disso, ele elaborou uma cuidadosa estratégia para montar o livro, formado, em boa parte, por imagens especialmente clicadas. Também não poupou esforços, como viajar até Bruxelas, na Bélgica, para fotografar uma de suas pianistas prediletas, a portuguesa Maria João Pires.

Em alguns casos, a estratégia exigiu perseverança e um punhado de sorte. É o caso da imagem do navegador Amyr Klink, avesso a retratos – Goldflus passou anos negociando até conseguir fotografá-lo, obtendo um belo retrato do aventureiro coberto de neve. O curioso é que a foto consumiu apenas cinco minutos de trabalho e foi realizada no estúdio do fotógrafo, na Vila Olímpia, em São Paulo. Parafraseando um mestre da imagem, o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004), que dizia que, tal qual um inseto prestes a dar uma picada, o retratista não pode demorar demais, Goldflus revela seu segredo: "Depois de anos de experiência, para fazer um bom retrato hoje só preciso de uma hora de papo e cinco minutos de fotografia".

Questionado sobre o uso do Photoshop, ele é taxativo: "A fotografia tem quer ser auto explicativa e passar alguma sensação, seja ela qual for. Com ou sem Photoshop".

Público

Autor: Jairo Goldflus

Editora: Livre Conteúdo (238 págs., R$250)

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