Arte do Chelpa Ferro opõe homem e máquina

O grupo de artistas Chelpa Ferro, uma das manifestações mais instigantes surgidas no cenário das artes brasileiras nos últimos anos, inaugura hoje em São Paulo uma exposição com 12 trabalhos inéditos que oferece ao público um estranho, variado e infinito banquete de sensações visuais e auditivas.Essa mostra pode ser vista como uma bem-humorada e inteligente ilustração do embate entre pólos antagônicos: homem x natureza, industrial x orgânico, artificial x natural. Mas também entre o homem do passado e o contemporâneo, o lúdico que depara com o tecnológico, o confronto do ser humano com a máquina.Na verdade, mais que uma disputa, a obra do Chelpa Ferro promove uma reconciliação - como fez o artista alemão Joseph Beuys em Bateria de Capri (1985), uma de suas obras mais geniais: uma lâmpada elétrica com soquete acoplada a um limão. Pelo alto grau de experimentação, criatividade e ousadia, quem for ver as obras do Chelpa vai lembrar muito de Beuys, assim como dos dadaístas, de Picasso, Picabia, Duchamp e do músico alemão Stockhausen.Não por acaso, uma das obras mais poéticas da exposição parte de uma idéia bastante simples, como uma brincadeira de criança: um copo d´água apoiado sobre um alto-falante, por sua vez ligado a uma máquina que permite variações de freqüência sonora. As vibrações do alto-falante constroem desenhos dinâmicos na superfície da água, como se o espectador estivesse diante de um pequeno mar ou um deserto agitado pelo vento forte. Conforme muda a freqüência da máquina, muda o desenho dentro do copo.Outra obra é formada por um galho de árvore fixado à parede, no alto, do qual pendem dezenas de vagens com sementes secas. O galho está conectado a um pequeno motor que, acionado, faz balançar as vagens, recriando um barulho de chuva ininterrupto. Já Sistema N.º 1 coloca alto-falantes sobre aquários cheios d´água, alguns contendo caramujos. A obra reproduz uma música experimental composta pelo grupo, reunião de sons naturais e eletrônicos.Também serão expostas duas esculturas de resina de poliéster negra, criadas a partir de embalagens de produtos eletrônicos. As formas, no meio caminho entre o orgânico e o industrial, remetem ao universo do cineasta David Cronenberg, não por acaso um artista que também pensa as relações entre o homem e a máquina. Surgido há sete anos, o Chelpa Ferro é um "grupo colaborativo" de arte. A proposta é reunir pessoas de áreas diferentes para criar, tendência que esteve em baixa nos últimos 15 anos, mas que agora volta com força ao circuito - e se faz presente de maneira decisiva na coletiva Panorama, em cartaz no MAM-SP, com os grupos Atrocidades Maravilhosas, Camelo, Clube da Lata, Mico, Apic e o próprio Chelpa Ferro, além das organizações independentes de artistas Agora/Capacete, Alpendre e Torreão. O Chelpa é formado por quatro integrantes: Luiz Zerbini e Barrão (artistas plásticos cariocas que surgiram nos anos 80), o produtor musical Chico Neves e o editor de imagens Sérgio Mekler. "Todas as obras que criamos são debatidas em conjunto, democraticamente. Eu não sou músico, mas dou palpite no trabalho do Chico Neves", conta Zerbini."A tecnologia criou ferramentas que deixaram mais frouxos os limites entre as áreas de criação artística. Como os gráficos sonoros do Pro Tools, em que eu posso "ver" as notas e mexer com elas como se fossem símbolos gráficos."No começo, eles faziam apenas música, apesar de nenhum deles ser músico. Os primeiros shows foram no projeto CEP 2000, no Rio, idealizado pelo poeta Chacal. Em um deles, reuniram 14 guitarras no mesmo palco. "A idéia era fazer de improviso total, não tinha ensaio, só passagem de som. Era bem barulhento. Mas é claro que havia um lado performático também", lembra Barrão. Em 1997, eles lançaram um disco pelo selo Rock It! A música do grupo, que contém muitos ruídos industriais e eletroeletrônicos, é também uma escultura sonora, que constrói diferentes camadas e níveis por onde o espectador viaja, não só com os ouvidos, mas com o corpo todo.Lia Menna Barreto - No mezanino da Fortes Vilaça, a artista Lia Menna Barreto, do Rio Grande do Sul, expõe duas obras: um tapete criado com 7 mil lagartixas de borracha e um objeto de parede feito com centenas de borboletas falsas. A artista, que já declarou: "Eu dou vida às coisas inanimadas", desta vez troca os sapos, cobras, ratos, aranhas e escorpiões por animais menos assustadores. Ela constrói duas tramas artificiais, em que novamente vem se unir um olhar infantil e lúdico a um estranho componente de crueldade.As lagartixas são unidas umas às outras por meio de um ferro de passar roupa, que derrete sua parte traseira, numa rede infinita que aprisiona os pequenos répteis. O resultado causa um misto de atração e repulsa. Há um sentido de movimento latente, como se os animais estivessem constantemente buscando escapar da trama, mas aprisionados para sempre. Lia Menna Barreto chama a atenção para o aspecto construtivo desses novos trabalhos: "Essas duas obras não têm fim. Elas podem ir aumentando infinitamente, como uma coisa viva. Eu só parei porque chegou o dia de trazê-las para a galeria." O relevo de borboletas, supercolorido, ela vê como uma pintura. "Elas ficam em latas, separadas por cor: todas as primárias, mais laranja e verde", explica ela. "Então eu vou escolhendo as cores, dentro de cada lata, e unindo uma borboleta à outra, como se estivesse usando tinta e pincel." Chelpa Ferro e Lia Menna Barreto. De terça a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 17 horas. Galeria Fortes Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 30/11. Abertura hoje, às 20 horas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.