Arte denuncia passado nazista

Álbum devolvido à Alemanha reúne fotos de pinturas do século 19 que Hitler queria para o seu museu em Linz

Michael Kimmelman, The New York Times, BERLIM, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

Robert Edsel, autor de The Monuments Men, veio a esta cidade outro dia com um pesado álbum de couro verde chamado Gemaldegalerie Linz XIII. Dentro estavam fotografias em preto e branco de pinturas alemãs do século 19, na grande maioria obscuras. Era um dos volumes desde há muito desaparecidos, catalogando o nunca construído Führermuseum em Linz, Áustria.

A partir de 1939, nazistas e comerciantes de arte roubaram e adquiriram milhares de pinturas, esculturas, tapeçarias e outros objetos de coleções privadas na Europa e as armazenaram. Hitler ajudou a traçar os planos arquitetônicos, que cresceram de forma megalomaníaca para incluir teatro, casa de ópera, hotel, biblioteca e uma esplanada para desfiles. As fotos o mostram, lápis na mão, olhando extasiado para a maquete do museu.

"E assim eles estão sempre voltando para nós, os mortos", escreveu o romancista alemão W. G. Sebald em Os Emigrantes. "Às vezes eles voltam do gelo mais de sete décadas depois e são encontrados na beira da morena, uns poucos ossos polidos e um par de botas com sola pregada."

Ele estava recordando um alpinista havia muito esquecido, cujos restos uma geleira na Suíça subitamente libertou 72 anos após o homem ter desaparecido.

Mas Sebald na verdade estava descrevendo o passado, que sempre retorna inesperadamente, sacudindo-nos de nossa amnésia histórica. Uma editora alemã, a Berliner Verlag, acabou de lançar um livro de fotos da Berlim no pós-guerra que, de certa forma, ficaram mofando em seus arquivos. Conheço um homem na Espanha que acumula fotos e outras relíquias da guerra: um hipnótico grupo de instantâneos e cartas de soldados, e documentos manuscritos de Hitler. O álbum de Linz apareceu não faz muito tempo nos arredores de Cleveland.

Suvenir. Um veterano de 88 anos, John Pistone, o recolheu em 1945 quando perambulava pelo Berghof, o retiro de Hitler nos Alpes Bávaros. Como outros soldados, queria um suvenir para provar que estivera ali. Ele não sabia o que era o álbum, e só tomou conhecimento do seu significado quando um técnico, que instalava uma lavadora em sua casa, notou o volume numa prateleira, e foi pequisar na internet e depois ligou para Edsel.

O escritor Robert Edsel chefia a Monuments Men Foundation for the Preservation of Art, organização dedicada à preservação do legado dos cerca de 350 soldados aliados encarregados de procurar tesouros culturais na Europa. Tem 53 anos e não é o tipo de pessoa que recebe um "não" como resposta, e persuadiu Pistone a ceder o volume ao Museu Histórico Alemão em Berlim, que conserva outros álbuns de Linz. (Eles são 20; ainda faltam 11.) Hitler era presenteado com os álbuns nos Natais e no seu aniversário. Eles exibiam reproduções das últimas obras de arte que haviam chegado ao museu. Os livros eram um museu-em-espera virtual.

Colecionar arte foi sua obsessão durante anos; sua equipe tinha de aturar solilóquios noturnos, Hitler fazendo uma lengalenga sobre arte enquanto a Alemanha ruía ao seu redor. "Eu não comprei as pinturas que estão nas coleções que acumulei ao longo dos anos para meu próprio benefício", ele escreveu em seu breve testamento, pouco antes de encostar uma pistola na cabeça, "mas só para a criação de uma galeria em minha cidade natal de Linz".

Uma maquete de Linz já havia sido levada para o bunker em Berlim para que estivesse entre as últimas coisas que ele veria. O álbum de Pistone contém reproduções de pinturas alemãs e austríacas do século 19, a arte que Hitler mais admirava. Ele pode ter comprado parte dessas obras com os royalties de Mein Kampf.

Obscuros. São cenas bucólicas sentimentais de pintores em grande parte obscuros. Os melhores quadros são de Adolph von Menzel e Hans Makart, com cuja depreciação pela crítica Hitler perversamente se identificava.

O tempo atenuará o mal, ou não. Esta semana, Edsel sugeriu que novas curiosidades como o álbum de Pistone apareceriam agora que os últimos veteranos sobreviventes estão morrendo.

"O valor emocional não se transmite de uma geração para outra. As pessoas não herdam paixões." Um suvenir particular se torna a chance de outra pessoa vender algo no eBay, ainda que autoridades alemãs e americanas insistam que peças como o álbum de Linz são propriedade cultural que não deve ser vendida. O que ele quis dizer é que no processo de passagem de uma geração para outra, o objeto ganha nova vida.

Em uma cerimônia na terça-feira, o Volume XIII foi entregue ao Museu Histórico Alemão em Berlim, juntando-se aos outros álbuns de Linz em exposição. O júri se retirou para deliberar se a "quantidade desproporcional de tempo e energia", como disse o chefe da investigação sobre o saque de objetos de arte dos Aliados, que Hitler dedicou ao recolhimento de objetos de arte desviou recursos da Alemanha do esforço de guerra, apressando seu fim, ou, ao contrário, se sua obsessão por Linz, e por colecionar arte, em certa medida o motivava a seguir em frente.

Os historiadores que resolvam. Enquanto isso, há ainda os 11 álbuns não computados. Presumivelmente, eles ainda estão por aí, como os ossos polidos de Sebald.

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