Arte de Henfil ganha 1.ª grande retrospectiva

Um dos mais importantes cartunistas brasileiros, Henrique de Souza Filho, o Henfil, ganhou merecida retrospectiva de sua obra na exposição intitulada Henfil do Brasil, que já passou pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio e de Brasília, e chega neste sábado à unidade paulistana, onde fica aberta à visitação até janeiro. É a primeira grande retrospectiva dos trabalhos do artista. "Na verdade, esta é a primeira exposição dele deste porte", explica Júlia Peregrino, uma das curadoras da mostra. Até hoje, a exposição foi visitada por mais de 100 mil pessoas. Em São Paulo, o público terá acesso a mais de 400 desenhos, livros, revistas e impressos, garimpados em meio a um acervo de 15 mil originais produzidos por Henfil e mantidos por seu filho, Ivan Cosenza de Souza. "Por causa da limitação do espaço, foi difícil o processo de seleção", conta Júlia, que levou cerca de três meses na árdua tarefa de escolher trabalhos significativos do cartunista e ser coerente com uma exposição que se propõe retrospectiva. Contou com a colaboração do próprio Ivan e do crítico de arte Paulo Sérgio Duarte, que assina também a curadoria. Segundo Júlia conta, criou-se dois critérios no momento da seleção: um deles diz respeito ao humor, à piada em si, enquanto outro resvala sobre o traço do artista. Queriam identificar e priorizar os desenhos que se mantinham atuais, como ocorre com grande parte da obra do cartunista. Atrairiam assim para a exposição não só contemporâneos de Henfil, mas também gerações mais novas. "Uma das dificuldades que tivemos foi com relação às datas. Os trabalhos não tinham datas nem apresentavam referência de tempo." Para facilitar a vida dos freqüentadores e botar as coisas em ordem, a exposição foi distribuída em seis blocos. Um bloco foi reservado exclusivamente à Turma da Caatinga, composta pelos saudosos personagens Capitão Zeferino, Bode Orelana, Graúna, Onça Glorinha e Grauninha, que personificavam críticas contra a censura, a corrupção, o machismo e a desigualdade social. Outro bloco vem dedicado aos Fradinhos: os sarcásticos Cumprido e o Baixim, que ganharam as páginas de jornais americanos sob o nome de Mad Monks. Um outro bloco agrupa os desenhos do personagem Ubaldo, o Paranóico, criado em 1975 por um Henfil embalado pelo vaivém de amigos e conhecidos a interrogatórios no DOI-Codi. O tema Outros Personagens compõe o quarto bloco, dedicado aos personagens presentes nas páginas de esporte, como o Urubu, Bacalhau, Cri-cri e Gato Pingado, O Preto que Ri, Delegado Flores, Zilda-Lib, Ovídio e Tamanduá. Há ainda um bloco dedicado a Outros Desenhos e um último, aos cartuns do Orelhão. "São 170 trabalhos espalhados pelas paredes e o restante pode ser manuseado pelo visitante em 12 álbuns."Paralelo à exposição, o Programa Educativo do CCBB oferecerá atividades relacionadas a ela, como visitas monitoradas e a oficina Rabisco Falante, voltado principalmente para grupos escolares e onde a garotada poderá criar o próprio personagem. Para a curadora, ainda hoje, os especialistas em arte não dão o devido valor à criação dos cartunistas. "Algumas pessoas acham que esse tipo de desenho é uma arte menor, mas é uma manifestação artística como qualquer outra", defende ela. Vide a importância conquistada por nomes como o próprio Henfil (que traçava ácidos registros do cotidiano, de cunho político e, sobretudo, social) e seus contemporâneos e amigos, Chico e Paulo Caruso, Jaguar, Ziraldo, entre outros. Catálogo Os cartunistas Jaguar e Ziraldo, aliás, deixaram suas impressões sobre o amigo Henfil no catálogo da mostra, um belo livro de capa-dura com 100 páginas, que será vendido a R$ 45. Nele, escreveu também o caricaturista e pesquisador Cássio Loredano. Sobre o estilo do amigo, Loredano tenta definir: "A linha do Henfil era a coisa mais utilitária do mundo. O desenho em si é nada, inexiste a não ser como arrimo do recado; é desagradável e magnético a um só tempo. O que normalmente nos afastaria suga-nos o olhar irresistivelmente para dentro da página. E o resultado era a unidade perfeita entre o enredo e o aspecto, resumindo-se o recado final a isto: olhe aqui que feio." Henfil do Brasil. Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo, fone (011) 3113-3651. 10h/21h (fecha 2.ª). Grátis. Até 15/1. Abertura neste sábado, 15h.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.