Arte de Fajardo ocupa SP em dose dupla

Foi na década de 60, tendo como referência um curso de desenho e comunicação visual com o artista plástico Wesley Duke Lee, que Carlos Alberto Fajardoencontrou o seu modo de pensar a arte, fazer arte e aindaensinar arte - apesar de a palavra correta ser aprendizado, comoele mesmo diz. Mais de aprendizado do que de ensino, comoressalta, no sentido de ajudar as pessoas a aprender arte. O público tem agora duas oportunidades para estar mais perto de Fajardo, artista de uma intensaatividade didática aliada a uma reconhecida e respeitadaprodução artística, duas oportunidades: ele é um dosparticipantes do projeto Arte/Cidade - Zona Leste e explica neste domingo, às 16 horas, em uma visita guiada, seuprojeto de instalação para a torre do Sesc Belenzinho; e também será um dos artistas brasileiros escolhidos para ocupar uma salaespecial na 25.ª Bienal de São Paulo, que será inaugurada no dia23 de março, sua quarta participação no evento.Paulistano, nascido em 1941, Fajardo iniciou suaformação ao ingressar, em 1963, no curso de Arquitetura naUniversidade Mackenzie. Não o concluiu, parou em 1969. "Queriafazer desenho, artes plásticas", diz. Por isso, logo durante oprimeiro ano de faculdade, depois de ver uma exposição de WesleyDuke Lee, Fajardo foi ao encontro do artista e um grupo foiformado para ter aulas com o mestre. Ele, José Resende, LuísPaulo Baravelli e Frederico Nasser integravam o grupo e, apartir daí, Fajardo não parou mais. Começou como assistente deWesley, depois deu aulas em um cursinho, e foi então que aquelaidéia de aprendizado descrita acima ficou mais sólida.Por exemplo, o grupo acima foi responsável pela criaçãoda Escola Brasil, que funcionou entre 1970 e 1974 em um galpão eque tinha como lema o "ensino livre da arte", além de ser umlocal para os quatro artistas desenvolverem exposições emconjunto. Segundo Fajardo, cerca de 500 alunos passaram por lá.O ideal da Escola Brasil não era ensinar técnicas de pintura,escultura, entre outros, mas instigar os alunos a articularem umdiscurso. "Nós estávamos envolvidos com as pessoas executandoexperimentações a partir da técnica que elas bem entendessem",explica. "E a experimentação é puro discurso." Infelizmente, aescola teve curta duração porque cada um dos seus fundadores foipara um lado e as despesas eram muito caras.Aulas - Mas Fajardo continuou com suas atividadesdidáticas, seja dando aulas informais em seus ateliês, sejaagora como professor titular da Escola de Comunicações e Artesda USP, cargo que ocupa há cinco anos. Ele participou de umconcurso, venceu e conseguiu o cargo. Além disso, defendeu atese Poéticas Visuais: A Profundidade e a Superfície e, porisso, adquiriu um diploma com doutorado direto.Fajardo, que já representou o Brasil duas vezes, em 1978e 1993, na Bienal Internacional de Veneza, gosta de ressaltarque sua atividade didática nunca atrapalhou seu trabalho comoartista. "É porque o tipo de trabalho que eu faço tem muitopouco aspecto manual, é um trabalho construído mesmo. Se háalguma coisa que a arquitetura me deu foi uma forma deraciocínio visual, tridimensional, que me ajudou muito." Elepensa as instruções de construções de suas obras e, depois, otrabalho é construído por outras pessoas, artesãos. "Gosto dedizer que o meu trabalho é encomendado por telefone", brinca.Citando Duchamp, Fajardo diz que a crítica do ready made era"pensar se é possível ter um trabalho de arte sem o caráterexpressivo do fazer. Se tem um componente dessa idéia de Duchampem minha obra é o fato de os meus trabalhos não serem executadospor mim". É porque suas obras são sempre de grandes proporções,feitas com diversos materiais como mármore, granito, chumbo,tule, cerâmica, vidro, espelho, entre tantos outros. Junção demateriais para explorar a idéia de contraste -superfície/profundidade, leve/pesado, branco/preto, etc. Outracaracterística é a fisicalidade que as obras exigem doespectador. É preciso andar para perceber as obras. Outrossentidos também são exigidos.Por causa de todo esse procedimento, seu ateliê não écheio de tintas, pincéis, e estruturas para outros tipos detrabalhos. Como define, não é "um lugar do fazer intenso" esim, um lugar de conforto para suas construções de contrastes.Parafraseando Matisse, uma arte confortável como uma poltronaagradável.Atualmente, Carlos Fajardo estádesenvolvendo dois projetos de instalações. Como foi dito, umpara o Artecidadezonaleste, que está mais próximo de ser visto,já que as obras de todos os artistas serão abertas para opúblico no dia 2 de março. Outro, para a 25.ª BienalInternacional de São Paulo.Para o Arte/Cidade, Fajardo ocupará um espaço no2.º andar da torre do Sesc Belenzinho. É um galpão lateral decerca de 32 metros de comprimento com um telhado formado porduas terças. "Pensei em utilizar a relação de superfície com otelhado", explica o artista.Mas o ponto de partida é a reflexão sobre o olharfrontal, olhar narrativo tradicional. "A gente, geralmente,não olha nem para baixo e nem para cima. Nesse trabalho, oespectador será convocado a olhar para o chão e para o teto." Eo que ocorrerá será a inversão do olhar.Explicação: Fajardo vai destelhar as duas terças dotelhado, o que proporcionará uma área de seis metros de céuaberto. No chão, um espelho contínuo e na subida das terças,duas paredes de espelhos frontais. Chão invertido, céu refletidoe um corredor por onde as pessoas verão suas imagensmultiplicadas.Com os espelhos e com o galpão pintado de preto, o queocorrerá será uma intensa entrada de luz solar, do céu. "Vaiser um corredor em que a intensidade da relação do espectadorcom sua imagem e reflexões será muito grande", afirma Fajardo.Para quem ficar interessado, uma visita guiada pelo próprioartista no local está marcada para domingo, às 16 horas. Umgrupo de 30 pessoas poderá acompanhá-lo em suas própriasexplicações. As inscrições podem ser feitas pelo telefone doSesc, 0800-771-1132.

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