Arte da imaginação popular

Obras de dez criadores são apresentadas em exposição, livro e documentários

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2012 | 03h09

O artista José Bezerra, nascido em Buíque, Pernambuco, teve um sonho ou uma visão num dia de domingo para segunda-feira, como conta. Dormindo em uma rede, fora de casa, viu um grande véu branco em formato de um grande homem que lhe disse: "Ô, Zé Bezerra, você é um artista e vai viver das matas". Desde então, começou a esculpir em madeira ou fazer nascer de pedaços de troncos brutos, formas de animais, quase abstratos, únicos.

"Arte ou artesanato? Interessa é o criar uma linguagem própria, independentemente de se ter uma formação", diz a artista Germana Monte-Mór, que assina a curadoria da mostra Teimosia da Imaginação - Dez Artistas Brasileiros, a ser inaugurada hoje no Instituto Tomie Ohtake. Assim como obras de Bezerra, há ainda na exposição criações - esculturas, cerâmicas, pinturas e desenhos - de Izabel Mendes, Véio (Cícero Alves dos Santos), Antonio de Dedé, Manoel Galdino, Aurelino, Francisco Graciano, Nilson Pimenta, Getúlio Damado e Jadir João Egídio. São peças de criadores que tiveram um ensejo natural de ser artista, mas por serem autodidatas e produzirem uma obra a partir de seus lugares de origem, ficam classificados no gênero da arte popular ou arte do povo brasileiro.

São, enfim, terminologias. Mas que podem ser repensadas. "Nos Estados Unidos, ao menos nas artes visuais, 'pop' (uma abreviação do termo popular) significa praticamente o oposto daquilo que, em geral, a mesma palavra designa entre nós. Nas telas de Andy Warhol, sua melhor tradução, 'pop' diz respeito a uma realidade que rompeu totalmente os nexos que poderia manter com a experiência", escreve o crítico Rodrigo Naves, cocurador de Teimosia da Imaginação, no prefácio do livro, editado pela WMF Martins Fontes e Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, que acompanha a exposição.

Falas. Mostra e publicação, assim, fazem parte de um projeto amplo. Na verdade, toda a empreitada nasceu da ideia de se fazer documentários sobre 10 artistas da arte popular. A produtora Polo de Imagem, em parceria com a TV Cultura, definiu com o Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, criado em 2006, os criadores que seriam retratados nos filmes. Malu Viana Batista, diretora da produtora, a colecionadora Vilma Eid e Germana Monte-Mór, respectivamente, presidente e consultora do Instituto do Povo Brasileiro, fizeram uma seleção que privilegiasse criadores vivos, para que os documentários tivessem suas falas.

"Só o Galdino não é vivo, mas o diretor Claudio Assis tinha horas de gravações com ele", conta Germana. Além do cineasta Assis, premiado autor de filmes como Amarelo Manga e Baixio das Bestas, os episódios, com 26 minutos de duração e que serão exibidos na TV Cultura, também são assinados por Hilton Lacerda, Cecília Araújo, Rodrigo Campos e Adelina Pontual.

Os cineastas foram a campo - ao Nordeste, onde vivem Antonio de Dedé, Aurelino, Véio, Graciano e Bezerra; a Minas, para gravar Damado, dona Izabel e Egídio, e a Mato Grosso, para retratar Nilson Pimenta. O livro Teimosia da Imaginação, assim, representa cada um dos criadores dando maior voz aos depoimentos de cada um - como o do sonho de Bezerra, citado -, editados pela antropóloga Maria Lucia Montes. "Há uns mais articulados, como o Véio. Já Aurelino é esquizofrênico", conta Germana, que fez fotografias dos artistas e seus locais de trabalho.

A exposição, agora, é mais uma forma de dar o devido espaço para as criações subjetivas, imaginadas, desses artistas (leia mais ao lado), de um gênero que, também, vem adquirindo ascensão, nos últimos cinco anos, no mercado de arte.

Com obras de diversas instituições, a mostra dedica áreas como salas com conjuntos de cerca de 10 peças de cada um, datadas de diversos períodos. "Cidade e campo, ensinamento e experiência, loucura e relação serena com o meio, procedimentos modernos e técnicas tradicionais deixam de se pautar por parâmetros claros e excludentes. No mais das vezes eles se encavalam de maneira mais ou menos violenta, dando origem a trabalhos de arte que guardam a lembrança dessas relações complicadas e imperfeitas", tão bem define Naves.

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