Arte curtida em 40 anos de estrada

Uma apresentação ao vivo de João Bosco é, como sempre, uma aula. Divisões de fraseado acrobáticas, encarnação stanislavskiana dos personagens que povoam seu cancioneiro, voz e violão operando em sincronia como uma máquina de suingue.

O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2012 | 03h10

No CD e DVD ao vivo João Bosco - 40 Anos Depois, que chega às lojas no fim deste mês, não é diferente. Há uma estética batida de trio jazzístico em que o músico trabalha há um bom tempo, e que nos faz sentir a falta da crueza de suas apresentações solos.

Ou imaginar como seria se João Bosco voltasse às suas raízes e tocasse apenas acompanhado de um pandeiro, um tan-tan e um cavaquinho (daqueles que, quando invocados, parecem um pega na geral). Mas isso não ofusca sua genialidade curtida em arranjos distintos de standards brasileiras como Fotografia, e releituras de clássicos seus como De Frente Para o Crime.

Um dos destaques é Bom Tempo, samba de Chico gravado em parceria com o próprio. O samba tem uma história curiosa. João é filho de um tricolor doente, mas acabou torcendo para o Flamengo. Quando foi ao Rio pela primeira vez, viu Chico cantando Bom Tempo, cuja letra cita o Fluminense: "Pela estrada que dá numa praia dourada./ Que dá num tal de fazer nada,/ como a natureza mandou./ Vou satisfeito, a alegria batendo no peito,/ o radinho contando direito,/ a vitória do meu tricolor."

Lembrou de seu pai e pensou: "Tá aí um cara que poderia ser filho dele", contou em entrevista ao 'Estado', recentemente. E anos depois, rixas futebolísticas familiares já superadas, resolveu gravar o samba para, de alguma forma "se redimir da culpa que carrego por ser flamenguista", diz. "Mas o verso do tricolor quem canta é o Chico", brinca. / R.N.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.