'Arte Como Questão' apresenta produção brasileira de 1970

Mostra no Instituto Tomie Ohtake é parte do ciclo sobre a arte dos anos 50 até agora

Camila Molina, do Estadão,

04 de setembro de 2007 | 15h24

Na década de 1970 (mas ainda compreendendo pouco antes e pouco depois), havia, em todo o mundo, um "solo comum", como diz a crítica carioca Glória Ferreira: era tempo em que "todas as certezas, parâmetros e valores foram questionados" e, como parte desse contexto, a arte contemporânea quis firmar seu lugar, repensar seu papel, inseriu o teor político e crítico nas obras. É o período que se costuma identificar como o da arte conceitual, em que os artistas "buscavam dar formas para conteúdos políticos" - em se tratando do Brasil, a questão política entrou nas criações não somente como "resistência à ditadura militar", mas também como "defesa do espaço da arte contemporânea". As cerca de 200 obras presentes na mostra Arte Como Questão - Anos 70, que será inaugurada nesta quarta, 5, no Instituto Tomie Ohtake, representam esse momento no Brasil. Veja também: Galeria de fotos  Com curadoria de Glória Ferreira, a exposição faz parte do ciclo realizado pela instituição em que se propôs a reflexão sobre a arte brasileira dos anos 50 até agora. Fecha-se agora o programa destacando um período histórico e que, também, de alguma maneira, se relaciona, como diz a curadora, com o momento da produção atual: "Os jovens querem situar seus trabalhos no mundo, essa é uma referência à década de 70. O conceito de arte e de artista está hoje em suspensão." Nos anos 70, algumas características se firmaram dentro das estratégias de se pensar novas maneiras de veiculação dos trabalhos e suas relações com as instituições - entre elas, uso da fotografia como linguagem e do xerox, a realização da arte postal. O artista Cildo Meireles, hoje consagrado, era um jovem naquela época. "Até 1968, estava preocupado com questões formais", diz o artista. Segundo ele, depois do episódio ocorrido no MAM do Rio em 1969, quando a polícia política censurou e mandou desmontar uma mostra - e a partir disso, sugeriu-se o boicote dos artistas às edições da Bienal de São Paulo -, Cildo diz ter inserido o político em sua produção. "A década de 1970 era inspirada naquela frase do crítico Mário Pedrosa , no ‘exercício experimental da liberdade’, e algumas vezes, as obras também eram feitas intuitivamente. Hoje em dia o artista tem que defender o território da arte dentro de um contexto democrático, entretanto muito mais caótico. Mas tenho que dizer que sempre tive implicância com a chamada arte política que não se confronta com a questão do objeto de arte", afirma Cildo. Em Arte Como Questão ele está representado pelas obras Inserções em Circuitos Ideológicos - Projeto Coca-Cola, de 1970; Casos de Sacos (1976), apresentada em sua versão de 2003; e ainda por dois discos.  A exposição ocupa três grandes salas do instituto com obras (entre elas, vídeos que serão exibidos em sala de projeção) de quase uma centena de artistas. Como afirma a curadora, as obras não se reúnem por módulos ou núcleos temáticos, mas se fundem por meio de diálogos. Um destaque é a pesquisa, realizada pelo trabalho de Fernanda Lopes e Bruno Dunley: em vitrines estão revistas, publicações, catálogos e documentos.  Arte Como Questão. Instituto Tomie Ohtake. Av. Faria Lima, 201, Pinheiros, 2245-1900. 3.ª a dom., 11h às 20h. Grátis. Até 28/10. Abertura quarta, 5, 20 horas

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