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Arte como militância política

Luto como Mãe, documentário de Luiz Nascimento, integra programação forte no Olido

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2011 | 00h00

Foram cinco anos de dedicação e, mais do que isso, de militância. Resultaram num documentário, Luto Como Mãe, que você pode ver no Cine Olido, onde integra uma programação intitulada Luto Como Mãe e Outros Lutos. São filmes que tratam da perda de entes queridos. Alguns são ficções - Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha; A Troca, de Clint Eastwood. Mas existem também outros documentários - Notícias de Uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund; Ônibus 174, de Padilha; Justiça e Juízo, ambos de Maria Augusta Ramos. Vamos reformular o conceito - você não apenas pode ver esses filmes (e Luto Como Mãe). Você deve, você precisa ver.

Luiz Nascimento é um jovem cineasta de 33 anos. Ele havia feito um curta, Vida Nova com Favela, que o levou à Universidade de Coimbra, ao Centro de Estudos Sociais de lá, onde conheceu o professor Boaventura Souza Santos, que estava de malas prontas para o Brasil, onde viria, acompanhado de duas assistentes, realizar uma pesquisa sobre o tema "mulher e violência". Nascimento foi incorporado ao projeto. Como homem de audiovisual, ele deveria gravar as entrevistas.

De volta ao Rio, Nascimento envolveu-se com o movimento Mães do Rio e, dentro dele, com as Mães de Acari. Filhos e maridos de muitas dessas mulheres morreram apenas por causa da suspeita de pertencerem ao movimento, o tráfico (leia frase do diretor). No País das desigualdades, foram estigmatizados - e vitimados - pela condição social, pela cor da pele. No caso da chacina de Acari, a Justiça mais dificulta do que faz andar a investigação. Os relatos dessas mulheres (e mães) eram emocionantes, contundentes, estarrecedores. Nascimento percebeu que tinha um filme nas mãos. Só não imaginou que seria tão difícil concretizá-lo.

Durante cinco anos ele desenvolveu o projeto - feito em DVCAM, com duração de 70 minutos. Luto Como Mãe teve sua primeira exibição em São Paulo, justamente no Cine Olido - que agora o abriga de novo, até dia 16, integrando o ciclo -, quando Tropa 2 estourava nos cinemas de todo o Brasil e se preparava, com mais de 11 milhões de espectadores, para bater o recorde histórico do cinema brasileiro. Um blockbuster e um outro filme pequeno (militante?), no circuito alternativo. Duas maneiras, não antagônicas, mas complementares de olhar a realidade (e a violência).

Entre a primeira exibição e a atual, ocorreu a guerra do Rio, a ocupação das favelas, a militarização do combate ao movimento. José Padilha, que fez Tropa 1 e 2, também dirigiu Ônibus 174. A violência vista pelo ângulo do garoto de rua e pelo da polícia. Tropa 1 mostra a criação do Bope como máquina de guerra. Tropa 2 aprofunda a crítica encarando a questão das milícias. Por que a polícia mata indiscriminadamente, por que se corrompe?

Padilha, que olha a questão dos dois ângulos, é um cineasta de classe média e com formação científica. O grande diferencial de Luiz Nascimento é que ele treinou as mães de Acari, deu-lhes uma câmera, para que elas próprias captassem as imagens. Mais do que isso - elas escolhem o que filmar, como filmar. Desse processo, resulta uma parte importante do filme de Nascimento, acrescido das imagens que ele próprio colheu (e montou). O luto pela perda vira resistência. Luto Como Mãe teve, está tendo, uma importante vida no circuito alternativo. No Rio, teve lançamento comercial (no Estação). No Brasil e no exterior, foi a festivais - o do Rio e também Viña Del Mar, Santa Cruz, Londres. É fundamental ouvir o que essas mulheres têm a dizer.

LUTO COMO MÃE E OUTROS LUTOS

Cine Olido. (236 lugares). Av. São João, 473, telefone 3331-8399.

R$ 1/ R$ 0,50. Até 28/3

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