Arte cidade

Teatro político ganha novo fôlego ao eleger espaço urbano como tema

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2012 | 03h08

Reivindicações sociais. Contestações ao poder estabelecido. Críticas a manifestações de autoritarismo. Todas essas continuam a ser questões na pauta dos grupos que pretendem fazer um teatro de ressonância política. Mas isso não quer dizer que elas continuem a ser mobilizadas da mesma maneira.

Sai de cena o discurso unívoco. Entram em seu lugar muitos discursos. Menos resolutos. Mais ambíguos. "Somos simpatizantes de todo tipo de luta pela liberdade, pela justiça. Mas o nosso teatro não tem a intenção didática de colocar princípios marxistas com tanta veemência", observa Georgette Fadel, da Cia. São Jorge de Variedades.

Em Barafonda, espetáculo que o grupo apresenta a partir do dia 4, as pretensões políticas merecem matizes. O bairro da Barra Funda torna-se protagonista de um trabalho que não tem uma mensagem direta a ser transmitida. Opção, aliás, que também pauta as últimas obras do Teatro da Vertigem - espetáculo sobre o Bom Retiro que estreia em junho -, e do grupo Folias, que mira o bairro da Santa Cecília.

Nos três casos, seus criadores arriscam-se em amarrações mais sofisticadas, abrindo espaço para discussões que extrapolam o tradicional ideário de esquerda. "A gente tem clareza do nosso pensamento sobre o mundo. Só achamos que existem outras forças envolvidas nesse jogo todo", diz Fadel. "Também estamos lidando com o pensamento mágico, com um discurso ecológico. Acreditamos mais na força de uma festa, do que em levantar bandeiras que possam tornar o espetáculo chato."

Ao longo de quatro horas, o público segue o elenco de mais de 30 atores pelo bairro. Há paradas em lojas e pontos simbólicos. Cenas que acontecem em cruzamentos. Intervenções que abrem brechas para o imprevisto: os carros, as manifestações de quem passa sem saber exatamente a que está assistindo.

Na última década, o Teatro da Vertigem, do diretor Antonio Araújo, notabilizou-se por valer-se de intervenções urbanas como meio de equacionar problemas cruciais do País: a violência, a exclusão, a insegurança. Já ocuparam um presídio, uma igreja, o Rio Tietê. Agora, preparam-se para itinerar por um bairro inteiro. Pretendem tomar o Bom Retiro como cenário e protagonista da sua criação.

"A cidade passa a aparecer não só como locação, mas como parceira de um diálogo teatral. E quem começou isso de uma maneira muito forte foi o Vertigem", comenta a crítica Sílvia Fernandes. "A Cia. São Jorge caminha de um jeito parecido. A questão de estar na cidade, de estar levando o público pela rua, tira a moldura teatral tradicional. Eles contracenam com o espaço e fazem o público contracenar junto."

De certa maneira, é como se a problemática social também se tornasse cada vez mais uma questão estética. A complexidade do real precisa ser absorvida e traduzida pela cena. Daí, grupos com propósitos políticos podem trabalhar em uma chave experimental, opção impensável para a dramaturgia de caráter engajado que vicejou no Brasil dos anos 1960, com Gianfrancesco Guarnieri e Vianinha.

"Barafonda tem conteúdos firmes. Mas talvez o lado mais político desse trabalho seja o confronto desses artistas com a cidade, enquadrando essa cidade de várias maneiras", comenta Patrícia Gifford, atriz e coordenadora do projeto. Tanto a dramaturgia quanto a direção do espetáculo são assinadas coletivamente.

Ainda que eleja o bairro como objeto de reflexão, Barafonda não se coloca como uma história da Barra Funda. Abarca aspectos marcantes de sua constituição: as rodas de samba do tempo dos escravos, o passado industrial, as partidas de futebol de várzea que não existem mais. "Mas muita coisa nos escapa", acredita Fadel. "Abandonamos a ideia de traçar um panorama geral da região, para selecionar coisas que nos tocassem. Mesmo correndo o risco de não sermos políticos o suficiente, de sermos até confusos e parciais."

O teatro nasce ligado à cidade. "Surge como uma ágora de discussão das questões da pólis", lembra Sílvia Fernandes. O que está em curso, portanto, pode ser um movimento dessa arte em direção às suas origens, à sua força primeira e maior.

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