Art rock em movimento

David Longstreth, líder do Dirty Projectors, fala sobre as canções de seu novo disco

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 02h11

Como sempre, a última guinada de David Longstreth merece respeito. Em Swing Lo Magellan, novo disco do Dirty Projectors, o compositor abriu mão do pop conceitual que trouxe fama mundial à sua banda, em 2009, e se concentrou no essencial. Não há diálogos sagazes com o r&b de rádio, como em sua famosa (e excelente) Stillness is the Move, ou compassos quebrados como os de Cannibal Resource. Em Swing Lo, Longstreth arrisca arranjos menos vistosos para expor o cerne de suas canções, e mantém sua vivacidade criativa. "Estou tentando ser mais direto com essas canções. Não sei bem se isto é um sinal de maturidade ou de imaturidade. Mas sinto que fazer o mais simples, às vezes, é o mais difícil", conta o músico, por telefone, ao Estado.

Embora seu single mais notável, Gun Has No Trigger, não tenha incendiado a plateia indie como fez Stillness is the Move, Swing Lo agradou a crítica pela firmeza de seus princípios, e consistência das canções. "Longstreth evoca alguns dos momentos mais líricos de Lou Reed com o Velvet Underground. Faz letras que parecem frases grafitadas em fábricas abandonadas, mas que têm grande impacto crítico, como The Socialites", escreveu a crítica publicada no Estado.

A guinada em direção ao mais simples não é a primeira radicalizada de Longstreth. A discografia da banda inclui um disco de covers do Black Flag, repensados sem ouvir os originais, e um de seus trabalhos foi composto enquanto o compositor viajava de carro pelos Estados Unidos, batucando no painel do carro e gravando letras e melodias em um gravadorzinho.

"Não há regras", explica, sobre o seu processo de composição. "Temos que encontrar um jeito de entrar na canção. E toda vez é algo diferente. Às vezes, componho uma melodia e pressinto o que a letra tem que dizer. Mas às vezes não. Você tem que destravar uma porta mais profunda de seu inconsciente. Está tudo lá, sabe? É apenas uma questão de encontrar o que as músicas pedem", explica.

No embalo de Swing Lo Magellan, lançado em julho, o Dirty Projectors toca em São Paulo, no Cine Joia, amanhã (ainda há ingressos). A banda traz a suas duas cantoras, Amber Coffman e Haley Dekle, de vocais agudos, que dão, junto ao idiossincrático cantar de Longstreth, a identidade sonora imediatamente reconhecível da banda. Em Bitte Orca, o disco que trouxe fama mundial ao Dirty Projectors, estas vozes são arranjadas em contraponto, com uma técnica admirável, o resultado de estudos de orquestração que Longstreth fez na faculdade. Misturados à esperteza dos arranjos, que combinavam Beyoncé com Talking Heads, foram o trunfo do disco. Tratando-se de um músico de ética tão espontânea, pergunto se Longstreth já se sentiu limitado por compreender os termos técnicos.

"Você já se apaixonou aos 18, e depois aos 28? É a mesma coisa. Conhecer música é como conhecer o amor em mais profundidade. Você consegue senti-lo de um jeito diferente. Uma das ideias mais idiotas do punk - muitas são boas, mas esta é fraca - é que quanto mais você sabe, menos você consegue se expressar", explica. As composições de Swing Lo foram escritas de forma fluida. "Uma canção como Dance For You estava pronta no instante em que pensei na melodia. A letra de Irresponsible Tune foi feita em cinco minutos, enquanto eu esperava Amber secar o cabelo", conta.

Luis Fernando Verissimo. Hoje, excepcionalmente, não publicamos a sua crônica

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