Art, que fez da HQ uma arte

Ganhador de um Pulitzer por Maus, artista está em São Paulo para eventos

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2012 | 03h07

O sobrenome do cartunista Art Spiegelman quer dizer, em alemão, Homem do Espelho. Nada mais apropriado, considerando-se que toda sua obra em quadrinhos é vertiginosamente autobiográfica, um olhar para dentro da sua própria condição.

Quatorze anos após sua última visita ao Brasil, quando esteve no Rio para uma exposição de originais no CCBB, o mais notável artista dos quadrinhos da atualidade passeia distraidamente por São Paulo desde o final de semana. No domingo, foi à Vila Madalena para um encontro dos convidados do 4º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural (deu um baile na organização, que temia que ele tivesse "fugido" do seu hotel em Higienópolis). O autor falaria ontem à noite no evento.

Com uma inseparável piteira com um cigarro eletrônico nas mãos (à base de vapor de nicotina, com uma luz azul na ponta), o carismático cartunista já dominava a cena cultural do encontro - embora entre outros convidados figurassem ninguém menos do que o escritor Gay Talese e o historiador Richard Darnton. Tradicionalmente avesso à imprensa, conversou animadamente com todo mundo e falou de seus projetos - anda com seu sketchbook na bolsa mesmo em eventos sociais, como anteontem. "Aqueles dias no Rio de Janeiro foram maravilhosos, nós nos divertimos muito", lembrou.

Criador da ultra premiada série Maus (iniciada em 1986), na qual narrou a experiência de seu pai, Vladek, prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz durante a 2ª Guerra, ele disse que não pretende comemorar os 20 anos do Prêmio Pulitzer que ganhou com o livro (em 1992). "Eu considero que a edição comemorativa de 25 anos de Maus, no ano passado, é a minha festa pelo lançamento do livro: encerrou o ciclo de comemorações, foi suficiente para mim", disse ao Estado, em breve conversa.

"O Centro Pompidou, na França, acaba de encerrar uma exposição do meu trabalho, o que compreendia desde os trabalhos underground dos anos 1970 até os originais de Maus e Breakdowns", afirmou. A mostra, infelizmente, não tem previsão de itinerância. "Sempre que me dizem que sou o pai da graphic novel, imediatamente eu penso em pedir um exame de DNA", brincou o cartunista, que veio a São Paulo com a mulher, Françoise Mouly, editora de arte da revista New Yorker.

O artista afirmou que tem intenção de publicar uma série de features de seus trabalhos em quadrinhos para a revista New Yorker, algo que compreenderá a notável entrevista gráfica que fez com Maurice Sendak (autor de séries infantis como Onde Vivem os Monstros), morto no dia 8. Spiegelman foi à casa de Sendak, que era um tanto misantropo, em Connecticut, em 2003, e desenhou todo o encontro. Há alguns dias, o New York Times também publicou uma tira-tributo que fez para o colega.

"Então, Maurice: gostaria que você pudesse estar aqui para presenciar a merecida demonstração de afeto que sobreveio na mídia quando você se foi. Se existe algo que se possa incluir nessa coisa de posteridade é que você está conosco por meio do seu trabalho tão pleno quanto O Gordo e o Magro ou seu amado Mozart. Então, porque sinto tanto sua falta?", escreveu o cartunista.

As palestras de Spiegelman se baseiam numa série de conferências que tem dado nos Estados Unidos, batizada prosaicamente como What the %$#! Happened to Comics. É algo na linha aula-show de Ariano Suassuna, e o show continuou na manhã de ontem. Durante palestra na Editora Abril, ele debulhou o métier. "Desculpem se alguns de vocês são editores, mas editores geralmente são idiotas", disse à plateia. Confessou ainda que acabou se tornando editor de HQs por um motivo prosaico: "Cansei de ficar mandando os outros desenharem pênis menores".

Ele explica que, historicamente, os comics se originaram como uma diversão superficial e vulgar para públicos massivos, o que incluía adultos semiletrados. Nesse período, a revista Mad, em sua opinião, cumpriu um papel fundamental na história dos comics, nos anos 1960, com um nível de consciência mais elevado.

Atualmente, essa visão mudou radicalmente: o que era basicamente divulgado por meio das tiras de jornais migrou para formatos diversos em forma de romances gráficos, e os artistas dos comics adquiriram status de "arte superior". O sarcasmo parece ser uma das principais moedas de troca de Spiegelman. Mas ele defende uma tese de que os quadrinistas vivem uma era de "neo sinceridade", na qual os autores já podem se manifestar para além da ironia e afirmar seus princípios e suas crenças por meio dos quadrinhos.

No epílogo de Breakdowns, que começou a escrever para lidar com o suicídio da mãe, ele fala da circunstância heroica em que publicou o trabalho, em 1978. Ele lutou contra o desinteresse da maioria dos leitores e de outros colegas cartunistas. "Naquela cena underground de quadrinhos que se gabava de quebrar tabus, ele estava quebrando o último que restava: ousou classificar-se como um artista e chamou seu meio de arte".

"Tudo que eu sei aprendi dos quadrinhos. Aprendi a ler com o Batman, tentando entender se ele era um cara bom ou mau. Tudo que sei sobre sexo aprendi contemplando Betty Boop e Veronica. Por outro lado, tudo que aprendi sobre feminismo veio de Little Lulu. Economia, aprendi com o Tio Patinhas. Filosofia, do Minduim. Política, com Pogo. Estética, ética e tudo mais veio da Mad". Art Spiegelman, ganhador do grande prêmio de Angoulême 2011, é publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

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