Arrigo do erudito ao cabaré

Ele une chavões e contrastes em sua visão do universo de Lupicínio Rodrigues

LAURO LISBOA GARCIA, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2011 | 03h06

Numa crônica escrita em 1963 sobre a canção Vingança, de 1951, Lupicínio Rodrigues (1914-1974) disse que nem em pensamento se deveria "desejar mal aos seus semelhantes". Nem por isso se furtou a expressar sua raiva, nessa e em outras canções, pelas mulheres que o traíram.

Dentre os ícones da chamada "dor de cotovelo" na canção brasileira, o boêmio gaúcho parece o mais convicto de sua condição, que em vez da passividade de "chorar com lágrimas", dá "pêsames aos infelizes", como comentou sobre o samba Caixa de Ódio. "Todo mundo sente ódio de alguém às vezes. E ele falava disso como ninguém, mas não era do tipo que alimentava o rancor", diz Arrigo Barnabé, que lança hoje o DVD do ótimo show Caixa de Ódio - O Universo de Lupicínio Rodrigues, parceria da Casa de Francisca com o Canal Brasil.

As 18 canções do roteiro são narrativas passionais que formam uma peça tragicômica, possível de encenar em pequenos esquetes. A dramaticidade teatral das letras de Lupicínio, carregadas de amargura (todas sobre experiências reais), tem também um lado sarcástico que possibilita interpretações bem-humoradas. São esses aspectos que Arrigo explora no show, acompanhado de Paulo Braga (piano) e Sérgio Espíndola (violão e baixolão).

Um inferninho decadente é local bem apropriado para o lançamento do DVD - com exibição compacta e pocket show hoje às 21h30 - de um concerto de cabaré: o Cine Áurea (Rua Aurora, 522), antiga casa de shows de strip-tease, que exibe filmes pornográficos. Os ingressos custam R$ 8 e estão à venda no site da Casa de Francisca (www.casadefrancisca.art.br), onde Arrigo registrou a maior parte do DVD e volta a fazer temporada amanhã.

Quando canta Judiaria - originalmente uma guarânia, gênero considerado cafona na época -, Arrigo comenta que o velho Lupi nunca se preocupou com a questão do bom gosto e do mau gosto. De formação erudita, um dos nomes chaves da chamada "vanguarda paulistana" dos anos 1980, o compositor paranaense cria interessantes contrastes a partir de chavões entre esses universos - até porque Lupicínio frequentava todo tipo de ambiente.

É a primeira vez que Arrigo assume a condição de intérprete de obra alheia. Ele que nem é cantor justamente por isso torna a aventura mais interessante, provocativa, no extremo oposto de grandes vozes como as de Jamelão (1913-2008), Linda Batista (1919- 1988) e Nora Ney (1922-2003), que eternizaram essas canções.

Essa atuação para ele é como se estivesse "inaugurando um tempo, criando uma existência". "Sempre tive medo de interpretar músicas dos outros, porque não sou cantor, principalmente porque antes todo mundo cantava muito bem. Depois começou a aparecer um monte de gente cantando mal, e todo mundo gravava. Aí falei, então pode, pô!", diz, bem-humorado.

Aqui ele aproxima seu famoso personagem Clara Crocodilo e Paulinho da Viola (representado pela capa do disco de 1973) em Nervos de Aço; junta o ritmo do chá-chá-chá com o "tchan tchan tchan tchan" do Beethoven mais popular (5.ª Sinfonia) em Esses Moços; e recorre à introdução de Detalhes (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) para rearranjar A Rainha do Show.

Um dos momentos mais divertidos do show é quando Arrigo interpreta Namorados com Sérgio Espíndola, especialmente nos versos conclusivos: "Como foi que um casal de pombinhos / Transformou-se em dois gaviões?". "Companheiros inseparáveis", como Lupicínio dizia do bem e do mal, eles estão aí nas plumas macias do amor cheio de arrulhos que não demora a exibir as garras mortíferas. Sem pieguice.

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